Reflexões sobre a definição de Arte.

Há tempos que se fala acerca e se produz Arte; é mais do que comum enunciarmos sentenças do tipo “Isto é arte” “Eu gosto de X obra de arte” “A obra de arte do sujeito S é bela” “O sujeito S é meu artista favorito!”,etc. Não há problemas com asserções deste tipo; em uma comunicação usual supomos que as pessoas que estão partilhando de uma conversação conseguem se entender ao enunciar sentenças contendo o predicado “Arte” “Artista” “Artístico”. Mas ao separar essas sentenças de seu uso cotidiano e além disso questionar de maneira filosófica sobre o conteúdo que está sendo asserido ao predicar “arte” de algum objeto, obtemos alguns tipos de questionamento: sobre o conteúdo do nome arte “Isso é arte” e o que não é arte? sobre a delimitação do objeto artístico “Eu gosto de X obra de arte”, o que qualifica o objeto que julgas com gosto como obra de arte? “O sujeito S é meu artista favorito!” o que faz com que um sujeito se efetive como artista? ora, ele é um artista porque produz arte, se a arte é aquilo que produz, o que de fato é isso que ele produz? Ao deparar-se com questões deste tipo, há alguns enunciados comuns empregados para responder a essas questões:
a) Arte é aquilo que o artista/comunidade diz que é arte.
b) Arte é a representação de um algo (coisa, objeto, mundo) com um toque poético, seja ele belo, sublime, grotesco, etc.
c) Arte é união de matéria mais algo transcendente a ela.
d) Arte é tudo aquilo que um sujeito quiser que seja; é indefinível.
Ao pensar mais afundo acerca dos enunciados asseridos, nota-se que nenhum deles é satisfatório para responder como definição de arte; deveria-se então suspender o juízo e assumir que arte não tem definição? eu diria que não; ora, o que é arte então? por que não é satisfatório que respondamos com um dos enunciados listados? Creio que quando asserimos algo como as sentenças listadas acima, não estamos procurando uma definição exata do que é arte, estamos falando de predicados comuns que obras de arte compartilham; para dizer o que é arte, além de dar uma definição sobre o objeto que está se analisando, é necessário ter em mente toda a tradição do artístico e como o artístico se diz da arte. Comecemos por partes.
O que é uma definição?
Ao se perguntar algo como “O que é um quadrado?” responde-se algo do tipo “Ora, uma figura geométrica com quatro lados, sendo que todos eles possuem a mesma medida e ângulos”; respostas desse tipo são tomadas como definições; quando se pergunta de algum objeto o que ele é, ou quais características ele possui, é normal esboçarmos algum tipo de definição sobre um objeto, seja ele um conceito, uma “coisa”, um evento, um fenômeno, etc. Agora, ao perguntarmos acerca da própria definição de uma definição, ou seja, quais seriam os passos tomados para definir algo, que tipo de resposta obtemos? Note o exemplo dado acima: um sujeito qualquer tem um objeto de interesse, onde ele quer descobrir mais sobre aquele objeto do que ele já sabe (o motivo aqui é insignificante, seja curiosidade ou um fim prático), logo, ele pergunta “O que é esse objeto x?” e a resposta que ele obtém são as características necessárias para que aquele objeto seja aquele objeto e suficientes para que esse objeto seja ele mesmo e não outro. Caso apenas esbocemos características necessárias como “quadrado são figuras que possuem lados” ao abstrairmos do sujeito somente o predicado “possuir lados” nos confundimos com outros objetos que compartilham das mesmas características, logo é necessário que as características que apontamos em uma definição, sejam suficientes para que nomeiem apenas um objeto, no caso, aquele que descrevemos. Agora, retorne para as definições que demos de Arte no inicio do presente texto: são elas necessárias e suficientes para dizer o que é Arte, e que tipo de objeto pode ser predicado o artístico?
Porque as noções comuns não são suficientes para uma definição de Arte.
Agora que tem-se uma noção básica do que é dar uma definição, é fácil notar que as características comuns que atribuímos a arte, são no máximo características necessárias, mas não suficientes para que defina-se Arte eis o porque:
“Arte é aquilo que o artista/comunidade diz que é arte.” apesar de ser uma resposta corrente, (tirando a responsabilidade da obra e colocando ela na mão do artista/comunidade artística) esta (como deve suspeitar) não é suficiente para uma definição de arte e além disso, possui um erro lógico em sua estrutura que a faz inapta para concorrer como uma boa resposta para a questão. Note o que estamos extraindo do objeto “Arte” ao dizer que o Artista/Comunidade faz/diz o que é arte: podemos de igual modo colocar a questão acerca do Artista/Comunidade e perguntarmo-nos “O que é o Artista/Comunidade?” no primeiro caso, a resposta seria algo do tipo: Artista é aquele quem faz arte, no segundo, algo do tipo Comunidade é aquela que julga o que é arte, mas ora, Arte não é aquilo que o artista faz, ou a comunidade diz? entramos em uma circularidade. De um objeto S digo que ele é P e desse objeto P digo que ele é S, logo, não acrescento nada ao conceito que está se perguntando acerca de. Caso o leitor não esteja convencido, eis um exemplo: caso eu pergunte a definição de angulo, e para isso, eu diga: angulo é aquilo que as figuras geométricas têm; eu esclareci o conceito de angulo? ou apenas mostrei a onde ele é aplicado? para a resposta seria mais apropriado algo do tipo: “angulo é o que se forma no encontro de duas retas partindo de um mesmo vértice”. Assim, tirando a responsabilidade da obra e colocando na mão seja do artista ou da comunidade, eu não esclareço o conceito de arte, apenas digo onde ele pode ser aplicado.
Partindo de uma outra perspectiva “b) Arte é a representação de um algo (coisa, objeto, mundo) com um toque poético, seja ele belo, sublime, grotesco, etc.” esta parece uma das mais fortes concorrentes a definição de arte, porém também, ela é insuficiente por trazer uma condição talvez necessária, mas certamente, não suficiente. Suponha a seguinte situação: estou em um museu de arte contemporânea e me deparo com duas obras distintas; uma delas é um mictório, retirado de algum banheiro e colocado em cima de algum tipo de sustentação para uma mostra; a segunda, é uma escultura de um mictório, ou seja, uma representação de um mictório. Ambas já possuem o caráter artístico, este não é o problema que estamos tentando solucionar aqui, porém uma delas é um objeto que antes era utilizado para determinado fim, e agora, virou um objeto artístico, no outro caso, desde a confecção do objeto ele já era pensado em ser artístico, era uma escultura, uma representação de algo já existente. A questão é, se arte é representação, o que o mictório que já existia está representando a não ser ele mesmo? algum Platônico poderia objetar e dizer “ele está representando a ideia de um mictório, ele é apenas uma representação sensível de algo ideal” mas ora, sendo esse o caso, tudo que confeccionamos é representação de ideias, sendo assim, não é único da arte ser representação; a mesa que estou utilizando para apoiar o meu computador também seria artístico; nesse caso, tudo seria artístico se o critério de demarcação fosse apenas este.
“c) Arte é união de matéria mais algo transcendente a ela.” Este terceiro caso que avaliarei é extremamente corrente na história da estética, porém, para falar acerca dessa definição é necessário explica-la um pouco mais; primeiro temos de ter noção do que é essa matéria, ou “coisa” da obra de arte; utilizarei dos dizeres de Heiddeger para elucidar a questão “Todas as obras têm este carácter de coisa [das Dinghaft]. Mas talvez fiquemos surpreendidos com esta perspectiva assaz grosseira e exterior da obra. […] Mas também a muito falada experiência estética não pode contornar o carácter coisal da obra de arte. Há pedra no monumento. Há madeira na escultura talhada. […] o carácter de coisa está tão incontornavelmente na obra de arte que devíamos até dizer antes ao contrário: o monumento está na pedra. A escultura está na madeira. […]”¹ Utilizando do vocabulário de Heidegger, o que aqui eu chamei de matéria, pode ser substituido por “coisa”; a Arte seria então, a união entre a coisa/matéria e um algo a mais, porém o que é esse algo a mais? “A obra de arte é, com efeito, uma coisa, uma coisa fabricada, mas ela diz ainda algo de diferente do que a simples coisa 锲 Com efeito, essa talvez seria a noção comum com mais respaldo filosófico; e a grande dificuldade com essa definição seria explicar o que é esse “outro” que constitui a arte de maneira não-metafísica. Além disso, me parece que nesse caso também, estamos falando de uma condição necessária, mas que não suficiente para a obra de arte. Suponhamos a seguinte situação (que de fato ocorreu): estamos novamente em uma exposição de arte contemporânea, observamos diversos tipos de obra de arte, umas que nos familiarizamos mais, outras que não entendemos seu significado. Dentro da mostra, você se depara com um óculos exposto ao chão e as pessoas que estão observando as obras, tratam deste óculos como uma obra de arte, umas até conseguem elaborar críticas e significado para essa obra; mais tarde descobre-se que o óculos que estava ali foi deixado por engano, e não tinha a intenção de ser uma obra de arte, logo, ele perde esse valor. A grande questão aqui é a seguinte: parece que com essa definição, estamos falando que há algo na obra, na coisa, que a qualifica como obra de arte, porém, como percebemos, um objeto comum pode muito bem ser confundido como arte caso as pessoas comecem a tratar o objeto dessa maneira. Quando que uma coisa perde seu caráter de coisa e ganha a propriedade artística? quando que o mictório deixa de ser mictório e vira obra? são perguntas que terão de ser respondidas por essa definição.
Por fim, parece que a escolha mais óbvia é suspender o juízo ou tomar a posição de que a arte não pode ser definida “d) Arte é tudo aquilo que um sujeito quiser que seja; é indefinível.” O meu problema com essa situação é que ela não parece ser intuitiva; não parece uma posição que tomaríamos cotidianamente; parece que sabemos qualificar certos objetos como arte ou não. Ora, se existem certos objetos a serem expostos em uma galeria e alguns outros que não preenchem os parâmetros, como a arte é indefinível? como a arte pode ser indefinível se utilizamos o conceito de arte o tempo todo? e se dissermos que tudo é arte? esta também não me parece uma boa posição, caso tudo seja arte o predicado “arte” perde seu valor, no sentido de que dizer de algo que é arte não tem valor algum, você só está falando de uma coisa que ela é essa coisa; mas não acho que seja isso que façamos quando dizemos que algo é arte. Parece que queremos predicar algum tipo de valor para o objeto. Ou será que arte nem se qualifica como predicado? durante todo o texto tratamos a arte e as sentenças sobre arte como sentenças do tipo “S é P”³ mas e se esse não for o caso? com certeza teríamos de ter alguém mais qualificado para responder a isso. Por enquanto, tomo a posição de que a arte pode ser definida, porém ainda não conseguimos alcançar a totalidade da arte; note que a arte está sempre em movimento, sempre algo que antes não era considerado artístico pode acabar tornando-se artístico, talvez seja isso, talvez arte não seja apenas um objeto do qual possamos extrair suas características definidoras, e sim um movimento entre um sujeito e algo mais complexo do que ele poderia simplesmente listar.