Sobre esquerdomachos feministos e autopromoção
Outro dia desses, publiquei numa outra rede social ~menos séria~ um postzinho rápido reclamando desta nova-velha tribo urbana que passeia com tranquilidade pelas veredas acadêmicas, de humanas, de esquerda, dos movimentos sociais, da ~problematização~ em geral: os esquerdomachos feministos.
Felizmente o post rendeu, e o que era só uma reclamação enfezada de minha parte gerou uma discussão muito boa. Achei produtivo, então, transformar um pedaço dessa discussão em um texto de verdade, desta vez menos reclamão e mais expositivo. Pois muito bem: esquerdomachos feministos — de onde vêm, para onde vão, e por que são assim?
Pra início de conversa, essa coisa de homem poder ou não ser feminista é controversa pra caramba. Há quem aceite e há quem não aceite isso, entre as meninas. Eu sou do lado que acha que não faz muito sentido homem ser feminista, e que há uma enorme diferença entre “ser feminista” e ser solidário à causa. Pois bem. Nesse contexto, o conceito “feministo” é uma alcunha sarcástica que as meninas criaram para se referirem a homens que abraçam o discurso feminista “de corpo e alma” e passam a propagá-lo e a reproduzi-lo a plenos pulmões. A maioria esmagadora deles (se não a totalidade) usa isso a favor de si mesmo. Se apropria do discurso feminista a favor do machismo. E é uma modalidade de machismo complicadíssima, porque é sutil, é maquiada de empatia e compreensão.
É um canal muito eficiente pra se aproximar de mulheres que estão se tornando feministas, por exemplo, mas que ainda não têm maldade ou conhecimento suficientes pra discernir entre o que é apoio e o que é um mero blá-blá-blá autopromocional. Além disso, é muito menos raro, menos improvável e menos viajado do que queremos crer que seja (vide clássico caso Idelber). Então sim, isso existe e existe MUITO. E você mesmo, homem que está lendo, pode ter se apoiado nisso em algum momento da vida.
“Eu entendo como é barra ser mulher, moça”, “Vocês têm q ser livres mesmo, passou da hora, sabe” “Ah, eu amo mulher empoderada, que não se deixa levar pelos padrões tradicionais”… qual seria realmente o objetivo e as motivações de um homem com comentários assim? Se solidarizar sinceramente com a causa feminista ou se apropriar de um discurso de classe, à qual ele sequer pertence, pra ganhar carisma e admiração numa relação interpessoal?
Faça um teste: se você conhece caras que postam muito sobre feminismo e/ou sobre esquerda, procure analisar o discurso dele. Veja se o que ele posta é uma mera repetição de ideias de outras pessoas, se o discurso tem algo de autoral, se ele antecipa uma leitora-ideal mulher e diz exatamente o que ela gostaria de ler vindo de um cara ~cabeça, inteligente e desconstruidão~.
Analise com qual frequência esse cara faz isso.
E, por fim, analise as curtidas e os comentários que ele recebe.
Por que o esquerdomacho faz isso? Por muitos motivos. Para ser admirado e desejado, ser o ídolo esquerdista das menininhas (existe muuuito); para conseguir sexo fácil com alguém que o acha o máximo e que vai sentir que precisa agradá-lo por isso (existe, ô se existe); para conseguir desenvolver uma relação em que ele é dominador, mas isso é muito confuso e complicado para a mulher perceber sozinha, afinal o cara é o esquerdista desconstruído fodão (dá mais que chuchu na cerca esse exemplo).
Enfim, o cenário é esse. Triste, hipócrita e comum.
Um recado direto pras mulheres: estejamos atentas. Nem sempre o ~cara fantástico~, que diz exatamente aquilo que sempre desejamos ouvir da boca de um homem, fala isso porque entende nossa luta e se solidariza com ela. Nem sempre o cara de esquerda deixa de ser um machista clássico. Se você notar qualquer incoerência entre o discurso e a prática desse cara, por mínima que ela seja, não a ignore. Não aceite que foi “um descuido”, que ele “nem percebeu na hora”. Não aceite a relativização dele com relação aos próprios atos. Ele sabe que ele foi incoerente, mas vai dar nó em pingo d’água para não admitir isso. Esse esquerdomacho feministo é uma cilada. Se afasta dele, gata.
