O rio nunca parte, ele sempre continua

De bruços, sobre a câmara de pneu de caminhão amarrada, formando uma boia oval…

Assim que se começa uma jornada sobre a correnteza de um rio, no meu caso, sempre no rio Bethary em Iporanga.

Aquela pose de tartaruga em que ficamos, nos permite que os braços remem ao lado da boia, e que as pernas batam ajudando a guiar a direção em que queremos nos deixar levar.

Eu não conheço experiência maior de estar integrada com a natureza do que esta. Você vai junto com a água do rio para onde ele for e na velocidade que ele estiver. Você passa a ser o rio naquele momento, pois o ponto de vista que se tem, é o mesmo que o rio tem. Vemos as árvores passando dos nossos dois lados, as margens do rio indo embora e nós permanecemos com ele. Seguimos passando por baixo de pontes, fazendo curvas, aumentando a velocidade nas partes rasas e quase parando nas partes fundas. É tão gostoso se se sentir como um rio.

Nos momentos de curvas, é preciso remar um pouco com os braços, para não irmos de encontro com a margem. Pois a tendência é que tudo vá para a rebarba da curva e ali inclusive fique, tanto que existe a expressão “curva de rio”. Para fugirmos dela, remamos, para nos manter no centro do fluxo e não irmos empacar ali na curva do rio.

Me lembro de uma vez específica em que eu estava no meio de um percurso de descida do rio, após ter passado por momentos de águas mais agitadas e velozes, cheguei àquela calmaria de águas lentas, quase parando. E naquele momento, deitei a cabeça sobre a boia, larguei as mãos e pernas sobre a água do rio e realmente deixei meu corpo entregue, para que o rio conduzisse tudo agora. Eu sabia que não havia perigos pela frente por um bom tempo e pude entrar em um estado de consciência quase meditativo. Contemplativo.

Nesse estado, eu pude sentir o sol quente contrastando com a água gelada da minha roupa, a água passando pelas pontas dos meus dedos, enquanto eu continuava me deslocando correnteza abaixo. Eu tive o maior sentimento de gratidão que já senti até hoje, me sentia assistida por toda aquela vegetação que me via passar, no sentido de ser vista, mas também no sentido de receber assistência. Sim, eu estava sendo cuidada ali.

Naquele dia eu entendi com o sentimento, o tamanho que a natureza é. E não digo que ela tenha um tamanho, digo que ela é um tamanho, pois ela inclui tudo que a possa olhar. Logo, tudo a tem e ela tem a tudo. Eu me senti parte de um todo, como o rio sendo a minha extensão e como eu sendo extensão de tudo o que vive. Naquele dia me entendi natureza. Natureza fluente. E que sou afluentes de mim que desaguam no mundo.