Ser bissexual na periferia de São Paulo
Esse texto não tem embasamento teórico algum, são apenas reflexões feitas a partir de vivências.
Eu cresci na periferia, com meus privilégios. Eu recebi afeto, principalmente do meu pai, figura presente da minha formação. Minha família sempre esteve inclinada a esquerda, mas não era nem de perto um berço desconstruído. Por não me encaixar no esteriótipo de menina da periferia, sempre fui excluída, o bullying teve presença em parte da minha infância e adolescência. Eu era – e continuo sendo – gorda, negra do cabelo ruim, pobre e LGBT.
Reforço que os esteriótipos de periferia estão aí, sendo reforçado o tempo todo em novelas, filmes, e teses de conclusão de curso dos cientistas sociais. Um lugar onde todos se amam, se protegem, todos unidos, quase um comunismo baseado no amor ao próximo. Desromantizar a periferia é um dos principais passos a se fazer caso a queira compreender. A periferia está inserida na sociedade, não é algo avulso, algo que está dividido com uma redoma enorme de vidro.
Depois de muitos anos de terapia e conversas com amigos LGBT’s percebi que parte da minha exclusão quando menor era justamente por fazer parte dessa comunidade tão perseguida e silenciada. Recebo relatos de pessoas que tiveram sua infância tão parecida quanto a minha, trancada dentro de casa, como um bicho, um animal que jamais seria compreendido. Eu só tive contato com o termo utilizado pra descrever minha sexualidade aos 12 anos de idade, quando ganhei meu primeiro computador, em 2006. Nem preciso dizer o quanto sou grata pelo governo Lula né? Até então eu não existia – ou você era sapatona (sic) ou era normal, como as outras garotas brancas –
Me silenciei durante anos, meu primeiro beijo em uma garota foi tarde, aos 16, dado que meu primeiro beijo foi em um garoto muito mais velho, e eu só tinha 11 anos. Aos 16 já tinha colegas grávidas. Aos 16 já tinha perdido a conta de quantos amigos já tinham morrido, ou sido presos, o tempo na favela corre diferente…
Percebo que muitos não entendem nossa geração, geralmente pessoas mais velhas, militantes negrxs, ativos na periferia, porém todos héteros. Nos dizem
Eu na sua idade não discutia gênero! Vocês são muito mais avançados nesse quesito do que nós
Bom, acho que não preciso reforçar nesse texto o privilégio heterossexual não é mesmo? O privilégio heterossexual é justamente esse, ter gatilhos pra refletir sobre outras coisas que não a própria sobrevivência. Pra ume hetero pobre, negre, periférique, o inimigo é claramente o outro. É o crime. É a classe média que segrega. Para nós, LGBT da periferia, nosso inimigo morava ao lado, éramos os segregados dos segregados. O filho escondido no porão amarrado a cama.
É claro que discutimos gênero, sexualidade, essas coisas estão no nosso universo, precisamos nos entender, nos dar voz, para nos amar, nos empoderar. Não dizem que é impossível lutar contra aquilo que nos oprime nos odiando?
Não entendo essa incompreensão com a geração atual, nós sempre existimos, sempre estivemos aqui, porém trancados em casa. Agora nós temos o que chamam de voz, mas vem cá, uma pergunta bem seria, onde você sofreu os piores ataques lgbtfobicos?