Os garfos sujos na pia

Na porta da geladeira, dois papéis informam aos quatro moradores do apartamento as atividades de faxina e os valores gastos mensalmente com as contas. Abaixo de um dos papéis, um bilhete antigo esquecido entre notas de supermercado avisa com letras garrafais grifadas num amarelo neon: “Proibido beber a cerveja que está na geladeira”. Desafiando a autoridade do aviso, uma letra diferente escrita em outra cor aproveita o espaço restante da folha: “Diz duvido, diz”. Alguns passos adiante, um porta-retratos roxo emoldura uma lista de regras. ‘Família 99’. Uma série de recomendações óbvias com um toque de humor. ‘Seguindo isso, podemos conviver’.

Conviver. Viver com o outro. Ter intimidade. Abstrair. Não surtar. O que mina uma convivência são as pequenas coisas. Essas, que se repetidas todos os dias, deixam de serem pequenas. Como a expressão “carregue um bezerro todos os dias e em um mês você carregará um touro”, lide com um garfo sujo na pia todos os dias e em um mês você estará se mudando. Em trinta anos de vida e nunca tendo vivenciado a experiência de morar só, aprendi que a comunicação indireta é a melhor forma de preservar a sanidade. Minha mãe, definitivamente, é a melhor nessa prática. Com uma criatividade sem igual ela utilizava a cerâmica acima da pia da cozinha como quadro de avisos.

“Lave sua louça e a de Deus” — É fundamental esclarecer que a ‘louça de Deus’ é justamente o garfo sujo na pia que ninguém sabe quem usou, mas que está lá importunando a paciência por três dias.

Em alguns dias o aviso tinha um tom mais agressivo.

“Lave sua louça e a de Deus… Que eu não sou empregada de vocês”

Algumas horas depois, sem que ninguém percebesse, abaixo do aviso surgia uma resposta:

“Essa louça não é minha”

“Nem minha”

“Lavem a louça”

“Já lavei”

“Quem bebeu meu suco?”

“Lavem a louça de Deus”

“Quem?”

“Saliente!”

Os diálogos variavam e a parede ficava completamente rabiscada de ‘pilot’ azul. Enquanto isso, os olhares dentro da casa se cumprimentavam tranquilos e pacientes.

O ímã na porta da geladeira, que imitava uma lista de compras, também servia como bate-papo. No próprio ímã os dizeres “PUTZ, NÃO TEM…” iniciavam a lista.

Mãe:

Cebola

Alface

Filh@:

Álcool

Maconha

Pai:

Educação

Maturidade

Filh@:

Senso de humor

Até que alguém apagava e começava tudo novamente. Esses recados espalhados pela casa avisando que é preciso fechar as janelas antes de sair e que se não limpar o ralo o tanquinho entope, são uma fórmula útil, embora nem sempre eficiente, de desativar as minas das pequenas coisas do dia a dia. Quem um dia disse que a verdadeira grandeza está nas pequenas coisas possivelmente lidou com um garfo sujo por três dias. E explodiu.