O elástico


Caminhava pela calçada quando, de repente, tropeçou em algo. Caiu com a cara no chão numa queda e tanto. Ao levantar-se, arrumando a roupa no corpo, encontrou a ponta de um elástico presa à sola de seu sapato. Foi aquele o motivo da queda. Tentou soltar o elástico, mas as fibras, de alguma forma, agora faziam parte do seu pé. Enquanto puxava em todas as direções na tentativa de se ver livre daquele incômodo, sentiu que uma força também atuava sobre o elástico na direção oposta. E era forte. Seguiu a corda com os olhos e encontrou outros olhos curiosos apontando na sua direção. O infortúnio estava feito. O elástico agora pertencia à dois pés. Visto que não importava o que fizessem para desprenderem-se, resolveram caminhar juntos. E juntos tropeçaram algumas vezes. Em alguns momentos levantavam-se sozinhos. Em outros ajudavam-se a levantar.

Com o tempo acostumaram-se ao fardo e descobriram a elasticidade de viverem juntos. Perceberam que quando próximos, conseguiam desviar mais facilmente de obstáculos e quando afastados, afetavam a tudo e a todos os que se prendiam ao elástico também. Alguns dias era preciso que um caminhasse com os pés do outro, pois precisavam, juntos, viver uma vida de cada vez. Em outros dias simplesmente caminhavam juntos. Mas os dias difíceis eram quando queriam viver separadamente com todo o elástico para si. Enquanto um puxava de um lado, o outro puxava do outro. E puxavam cada vez mais forte e cada vez para mais longe. Quanto mais se afastavam, mais o elástico tencionava. Após tantas distâncias a força já não era a mesma e o elástico não os aproximavam mais como antes. Deram nós ao longo do elástico e diminuíram seu tamanho para que pudessem ficar próximos novamente. Não era mais a mesma coisa. Cada nó era uma lembrança vívida das distâncias que escolheram para si. Aqueles pequenos nós não permitiam que fossem tão longe como eram acostumados a ir. Agora arrastavam consigo um elástico frouxo, maltratado, remendado e encardido.

Lamentavam pela condição que caminhavam. Mas caminhavam. E afastaram-se, afastaram-se… De tão longe que foram, o elástico se rompeu. Não souberam em qual dos nós ele arrebentou. Souberam apenas que, quando arrebentou, a tensão na corda foi mais forte para uma direção do que para a outra. Os dois sofreram. Os dois tiveram cicatrizes. Mas uma cicatriz foi mais profunda e inesperada. Demorou mais tempo para sarar. Porém sarou. Aquele resto de elástico no sapato involuntariamente se desprendeu. Sem que percebesse, voltou a caminhar com seus próprios pés. Foi quando, um dia, tropeçou em algo. Caiu de cara no chão numa queda e tanto. Olhou para seus pés e viu um elástico; frouxo, sujo e remendado. Seguiu a corda com os olhos e encontrou outros olhos, um tanto cansados, um tanto curiosos. Olharam para seus próprios pés e olharam para toda a extensão do já conhecido objeto encardido que os acompanhavam. Ali estava o nó rompido. Como que se revezassem, tentaram refazer o nó, mas bastava um pequeno passo para que ele se desamarrasse novamente. Como tinha pressa, ou simplesmente dera ao tempo um outro significado, recolheu àqueles dois pedaços de elástico do chão e carinhosamente enrolou um ao outro formando uma bolinha não muito maior que um limão. Percebeu enquanto andava que o outro seguia seus passos com muita dificuldade. Parou então em frente à uma senhora e estendeu a mão. A senhora sorriu, desfez a pequena bolinha e após dar inúmeras voltas no elástico em torno dele mesmo, levantou os braços, alisou os cabelos e os prendeu em um alto e apertado rabo de cavalo. Por alguns segundos os três olharam-se. A senhora pediu licença e ao dobrar uma esquina, desapareceu. Continuou andando pela calçada até que em um certo momento, percebeu que caminhava só. Foi quando tropeçou em algo.