Um outro lado de “A Hora da Estrela”

“A Hora da Estrela” é uma obra que sempre me intrigou por tocar tão fundo e abordar o espanto provocado pela noção da existência. Depois de lê-la pela primeira vez, e do choque com o final, reli inúmeras vezes apenas trechos soltos. Anos depois, numa sede de Clarice Lispector, decidi que iria ler tudo outra vez. Acho que fui fundo demais e me demorei no mergulho, e este é o resultado.

(aqui aviso a necessidade irremediável de dar spoilers — se você ainda não leu, leia, e volte depois. estaremos aqui)

O romance conta a história da hora da estrela de Macabéa, uma nordestina que saiu de Maceió para trabalhar como datilógrafa no Rio de Janeiro. Vivendo “numa cidade toda feita contra ela”, ela era “incompetente para a vida” e tem, como primeira fala, um pedido de desculpas ao chefe, que pretende demiti-la.

Em meio à espera pela derradeira demissão, Macabéa, que ouve o rádio relógio e acredita nas propagandas, vai se descobrindo: inventa mentira para faltar ao emprego e, sozinha na pensão que divide com quatro Marias, dança l-i-v-r-e e toma café de frente para o espelho “para nada perder de si mesma”. Em outro trecho, ela ainda tenta imitar “aquela coisa esquisita dos lábios” de Marylin Monroe usando batom vermelho, mas acaba com o que mais parece como se um “grosso sangue lhe tivesse brotado dos lábios por um soco em plena boca”.

Nas páginas que se seguem, ela ainda conhece Olímpico que, sem paciência para a moça e sonhando “subir para um dia entrar no mundo dos outros”, acaba trocando a nordestina por Glória, a colega de trabalho que tem carnes e que acaba levando Macabéa a conhecer a cartomante madama Carlota — a responsável pelo destino trágico de estrela da protagonista: ousar ter esperança na vida só para acabar estatelada no chão após ser atropelada por um carro de luxo.

E é aqui que nasce a minha (?) versão especulada do livro, a teoria que a minha mente insistiu em levar adiante durante a recente leitura. Rodrigo S.M., o narrador que parece enrolar por mais de vinte páginas antes de iniciar, pelo meio, a história de Macabéa, é o mesmo motorista do carro que mata a protagonista.

É ele quem vê, não como autor, mas como personagem, o “homem magro de paletó puído tocando violino na esquina” enquanto assiste a garoa leve encharcar o corpo magro da moça.

Sendo assim, Rodrigo S.M. não passa de um homem de classe média que atropelou uma nordestina e, por culpa ou necessidade, precisa dar vida — características e uma história — para a mulher que morreu em posição fetal. De narrador, passa a ser personagem.

Calma, que me explico melhor.

Imagino Rodrigo S.M. como um cara com o rosto marcado por sinais de cansaço e perturbação, que decidiu usar seu tempo livre (porque não tem a fome permanente de quem é pobre) para dar um pano de fundo e humanizar a sua vítima. Mas não só isso. De quebra, seu depoimento ainda seria uma forma de confessar o que fez e também pedir clemência, mesmo quando nega.

Sendo ele então personagem e não apenas narrador onisciente, pode ter adivinhado (como chega a afirmar no livro) quem seria ela: por causa da roupa que usava, do cheiro que exalava, da magreza de quem só come hot-dog ou pela cara alagoana “achatada de nariz”.

Viu nela capim e quis regá-la depois de destroçá-la. Assim ela se forçou dentro dele e, para tirá-la da cabeça, tentou vomita-la no papel.

Mais do que inventar, ele faz parte da vida e da morte da moça.

Ainda sinto que, indo por esse caminho, somos constantemente manipulados pelo narrador que, em determinados momentos, assume culpa, depois nega, diz que não sabe a quem acusar, mas que deve haver um réu e ainda arremata: “Mas quem sou eu para censurar os culpados? O pior é que preciso perdoá-los”, implorando, páginas depois: “Sou inocente! Não me consumam!”.

Em outros trechos, ele diz: “já não aguento a pressão dos fatos”. Pergunta-se: “como vou vingar? Ou melhor, como vou me compensar?”. E uma das frases que mais dá força a toda essa loucura é: “ela me acusa e o meio de me defender é escrever sobre ela”.

Além de: “devo dizer que essa moça não tem consciência de mim, se tivesse teria para quem rezar e seria a salvação”, “estou com medo” e “escrevo portanto não por causa da nordestina mas por motivo grave de ‘força maior’, como se diz, nos requerimentos oficiais, por ‘força da lei’”.

Dar ares poéticos à morte também seria uma forma de redimir-se, chegando a passar a impressão de que salvava a moça ao arrancá-la da vida miserável — “aquela relutância em ceder, mas aquela vontade do grande abraço”.

Por fim, pede desculpas: “Desculpai-me esta morte”, e diz que por enquanto é tempo de morangos. Seria essa última frase o momento em que, terminando a narrativa que também seria confissão, ele se entrega no momento de colher o que plantou? Seria hora de, livre da nordestina transferida ao papel, poder, enfim, viver com a leveza de não pagar pelo crime porque rico, muitas vezes, sai ileso? Uma grande crítica escondida na melancolia de “A Hora da Estrela”?

Como Clarice só está entre nós em seus livros, não dá para enviar uma carta (ou um Whats) e fazer as perguntas que responderiam esse meu mergulho - que agora também pertence a você - resta imaginar que, como resposta, ela provavelmente diria: “isso é segredo. Desculpe, não vou responder”. E depois acenderia um cigarro.