Eu só preciso contar umas coisas aí
Eu pensei muito em quantas vezes me senti sei lá, uma fênix. E sempre me falta modéstia afinal. Ja falei de superações em tantos âmbitos, eu já me senti um Augusto Cury (tão péssimo os livros dele, desculpe). Mas eu vivia de relatos “já passei por isso e aprendi, inclusive preciso provar ao mundo que eu estou bem”. Eu sou uma fachada e não uma fênix que renasce das cinzas. Eu talvez tenha queimado, renascido não. Eu odeio introdução longa aonde o texto tem tantos adjetivos que soa clichê. Não prende a mim, mas é assim que precisa ser feito hoje. Um texto sobre as tentativas de superações que não tiveram um êxito e uma dose de realidade do que é bom ou ruim. Faz alguns dias que não fico sozinha ultimamente e não tenho tido tempo pra deixar o diabo trabalhar, a tal da mente vazia. Bom, eu passei infância, pré adolescência e adolescência sozinha. Sei lá, com Deus pra não soar tão triste. E literalmente assim, ficava em casa quando criança e quando chovia, tinha pavor que uma vez me escondi no carro do vizinho chorando. Até hoje eu tenho medo de trovões ou barulhos altos demais. O caso é que minha mãe não queria que eu ficasse chorando por aí na casa de algum vizinho nos dias de chuva. É triste cara, meus pais não tinham dinheiro pra uma babá e eu sempre sooei independente e corajosa e carrego essa armadura comigo até hoje. Então eu NÃO superei medo algum de dias chuvosos do qual energia elétrica acaba e algum monstro me devora. Eu ignorei. E foi ótimo. Mas a angústia ainda pairava, e hoje tenho consciência do quanto negligenciar um medo prejudica no futuro. Eu desecandeei uma tristeza a partir daí. Isso: criança, sozinha, triste. Não que tenha sido como viver num cárcere, que eu não tive infância como uma criança qualquer, é que eu precisei realmente lembrar da onde começou a minha tristeza porque ignora-lá nao faz mais parte dos planos e então achei meu diário, e não há relatos felizes. Há tentativas disso e é mórbido. E então quanto mais o tempo passava mais eu conseguia ignorar coisas que sentia. De tanto você mentir uma hora você chega a crer naquela mentira cuspida seja verdade. E você conta tantas mentiras na frente do espelho…. E com 16 anos eu desenvolvi a depressão. E ela parece aquelas más companhias que sua mãe te avisa e você ignora, quer passear com ela e quebra a cara. Era muito convidativo eu odiar a vida por causa dos remédios, por ter medo de não ficar consciente andando por aí, era cômodo demais odiar a vida sendo que ninguém poderia esmurrar a minha cara pra eu viver. Essa parte da vida, eu não gosto de relatar porque eu mesmo não sei descrever bem o que eu odiava. Deus? Eu? Meus pais? Tudo isso? Eu não precisava ir ao fundo do poço, mas eu tive que ir ao porão dele. Passou alguns anos e eu nessa oscilações de “está tudo bem” “está tudo uma merda” e eu vivi à base mediocridades. Mas acho que em 2014 e 2015 eu descobri o inferno. Todas as dores doíam de uma vez só porque eu não sabia alinhar os sentimentos e sempre explodia quando um machucado se abria ou reabria. Vou exemplificar porque eu provavelmente no futuro também não terei idéia do que se trata isso. Era como se quando eu brigasse com o meu irmão ate trocarmos ofensas que magoam a toda altura, doesse até quando meu namorado dissesse que a gente não daria mais certo. Doeu muito e doeu tudo, eu sempre chorei pra por qualquer dor da alma pra fora. Minha alma nunca parou de doer, ela conseguiu fazer algo pior. É terrível pensar, mas a depressão não dói. Não na gente, não instantaneamente. Ela só te abraça e não te deixa sentir mais nada, e oras, até se sentir triste te deixa vivo. Mas não, a depressão te inibe das dores emocionais. Então vamos pensar no fardo que eu tinha de desde criança ignorar medo e agora não “sentia” tristeza. Era muita coisa pra sentir acumulada. Eu nunca pensei nisso, nem quando descobri a depressão. As únicas vezes que eu me sentia triste era quando meus amigos estavam “mortos de saudade” de saudade de mim e eu continuava bem e sem sentir isso de volta. Mas é quase contra a etiqueta (da vida) não oferecer reciprocidade, não é? Mas eu consigo me lembrar em me esforçar em tentar ao menos fingir algo por eles, graças a Deus eles não desistiram de mim. E por pessoas que não desistem da gente é que vale tudo mesmo. Nessa época aí, quase por aí, nao tenho lá noção do tempo e a depressão também não ajuda (literalmente). Eu entre choros, torpor sentia falta de abraço. Eu às vezes olhava alguém da minha família e só queria abraçar, mas abraçar alguém sem motivo requer explicações, e sim, meu defeito é não querer dar explicações. Então como não podia abraçar as pessoas que eu queria quando estava numa crise pré/pro surto de consciência de tristeza “afinal eu sou um lixo”, eu queria ao menos um BICHINHO DE ESTIMAÇÃO. O que é trágico, em algum momento da minha vida eu encuquei que a culpa do meu gatinho ter falecido era minha, e olha, eu descobri essa semana que não tive um luto normal. Eu sei, é o ápice do exagero. Mas eu me culpava por muita coisa. E talvez o luto deva ser respeitado de formas diferentes. Como eu disse anteriormente, tenho passado um tempo com a minha mãe, o meu sonho de criança. E foi engraçado a minha conclusão e meu medo de passar mais tempo com ela, a gente sempre brigou na mesma proporção que se dava bem. Eu comecei a reparar em algumas qualidades que não tinha jamais sequer cogitado. Mas não foi como acordar de um pesadelo e ter tudo restituído. É um passo de cada vez, o que por exemplo não isenta minha baixa auto-estima. Uma vez, eu tava conversando com um cara e ele era bem simpático e me elogiou e eu não fiquei a vontade. Mas não era algo “ele está a fim de mim” era algo “acho que você precisa de óculos” e ele disse apenas “você não parece que tem uma uma auto estima baixa assim”. E é, parecer não parece. E nesse meio tempo, oh divindades por que sou tao dramática e catastrófica? Eu coloquei na cabeça que sofri uma rejeição e já estava entrando naquele ciclo de odiar todos e sentir todas as dores doerem. Ate que não, eu mesmo fugi do meu cronograma auto-decepriativo e fui de cabeça me auxiliando “você tem o direito de ficar triste por hoje e só”. E foi isso que eu fiz. Mesmo sendo escrava da imprevisibilidade, eu mantive a postura. Eu fui forte e não estava só. Lembra os meus amigos vítimas do meu torpor? Eles estiveram comigo nesse meio tempo. Eu me olhei no espelho e fiquei vendo o quanto meu cabelo cresceu e o que fazia nele pra ficar como eu finalmente queria. Demorou? Sim. E ele precisava de um corte, cortei e adoro analogias. Eu sorri e me senti bem comigo, e que nenhum outro cara iria destruir a imagem que eu enxergam. Não há exatamente um final sobre esse reconhecimento de depressão, porque eu tenho medo sim disso amanhã se desmanchar, mas eu preciso relatar minhas boas memórias que estão atreladas em alguma coisa ruim. Chamamos de aprendizado e não renascimento. E que mesmo que o mundo caia eu posso saber ao que me agarrar e que nem todo mudo destrói sua auto-estima porque eu pasma, descubro: mal entendidos acontecem. E que não se pode subestimar depressão pois eu pensava em mortes todos os dias, porque eu também a quis. Eu só preciso explanar, preciso de abraços, preciso admitir que afeto me faz bem e que isso ainda é difícil mas não há nada que eu não possa aprender. Se até mágoas eu supero, eu sou a minha caixinha de surpresa.