Solta a Voz!

Projeto de Belo Horizonte idealizado por jornalista e fotógrafo envolve diversas iniciativas sobre a população carcerária

Por Beatriz Lopes, Júlia Valadares, Marcus Teixeira e Samuel Silveira.

Mas esse é um projeto educacional, cultural ou militante?”. A pergunta, feita aos idealizadores do Projeto Voz em uma reunião na Secretaria de Estado de Administração Prisional, ficou sem resposta e ilustra bem a interseção em que o projeto se encontra. Surgido em 2014, a partir do interesse de Leo Drumond e Natália Martino pela temática carcerária, o Voz reúne um conjunto de iniciativas voltadas para esse universo, valendo-se de formatos diversificados — desde oficinas de comunicação em presídios até a produção de minidocumentários.

Natália Martino e Leo Drumond no lançamento do livro Mães do Cárcere, um dos resultados do Projeto Voz. Foto: Samuel Silveira

Leo Drumond é designer gráfico com Pós-Graduação em Cinema Documentário e atua profissionalmente na área da fotografia desde 1999, inclusive com fotojornalismo. Em janeiro de 2003, junto a dois sócios, fundou a Nitro Imagens, que nasce como uma agência clássica de fotografia e depois descobre sua vocação como contadora de histórias. Em 2012, Leo foi o vencedor do Prêmio Jabuti, na categoria fotografia, com o livro Os Chicos. Já Natália Martino é jornalista, com formação complementar em Direito, e atuou como redatora nas áreas jurídica e ambiental, além de trabalhar como freelancer. Atualmente, Natália é assessora de imprensa da Assembleia Legislativa de Minas Gerais e mestranda em Sociologia na UFMG, na linha de pesquisa “Sociologia do crime, do desvio e do conflito” — escolha devida, também, a seu envolvimento no Projeto Voz.

O encontro da dupla se deu em 2013, quando Natália, voltando para Belo Horizonte após morar em São Paulo, entrou em contato com o fotógrafo João Marcos Rosa, com quem já tinha trabalhado antes, com a proposta de fazer uma matéria sobre o método APAC. Foi quando João sugeriu que o colaborador dela fosse Leo Drumond, sócio dele na Nitro, cujo perfil se relacionava melhor com a pauta pensada pela jornalista. Sobre Leo, ela comenta: “A gente tinha interesses comuns em relação à população carcerária e começamos a conversar”. Ambos já haviam visitado unidades prisionais e passaram a trabalhar juntos. A matéria na unidade APAC de Itaúna, primeiro fruto da parceria, foi vendida para um portal da internet e para uma revista masculina de São Paulo.

A partir desse contato, Natália se envolveu com a parte textual de outro projeto de Leo: a revista ND — Novas possibilidades narrativas, surgida em 2013 e produzida durante um workshop que é oferecido, na maioria das vezes, em festivais de fotografia. Posteriormente, eles tiveram ideia e vontade de fazer, com populações carcerárias, uma dinâmica similar à das NDs, porém com adaptações. “Claro que a gente sabia que precisaria ter uma carga de aulas maior, que a gente partia do pressuposto de que, nos festivais de fotografia, aquelas pessoas já tinham conhecimento de comunicação e, nas unidades, elas não teriam”. Com isso em mente, Natália e Leo adaptaram a ideia da ND e criaram a revista A Estrela. A edição piloto foi lançada em 2014 na APAC de Itaúna e é considerada por eles a primeira ação do Projeto Voz.

Hoje, o Voz se pulveriza em diferentes plataformas e formatos na intenção de levar, “para a esfera mais ampla possível, algumas informações minimamente qualificadas e algumas narrativas que induzam à reflexão”, segundo Natália. “Vai ter gente que vai ser atingida pela revista, outras pela exposição, documentário, jornal…”, enumera a jornalista. Um artigo escrito no âmbito do Voz, por exemplo, e publicado pelos Jornalistas Livres, obteve um grande alcance por meio desse coletivo, promovendo discussão mais aprofundada sobre a polêmica da bolsa-bandido. Da mesma forma, as duas edições do workshop “Imagens sem fronteiras: Histórias de Populações Vulneráveis”, oferecido em duas edições do Festival de Fotografia de Tiradentes (2016 e 2017), voltaram a atenção dos participantes para a questão carcerária.

Desde o início, Natália e Leo trabalham no projeto muito a partir das próprias experiências e expertises de cada um. Além da produção de conteúdo, na qual Leo foca mais na fotografia e Natália, no texto, o trabalho burocrático é dividido conforme a facilidade e a disponibilidade da dupla. “Por exemplo, quando a gente vai inscrever projetos em leis, eu sempre escrevo o projeto todo, mas a parte orçamentária o Leo faz. Quando vamos fazer contato com empresas de fotografia, o Leo costuma ir antes, mas se for uma empresa de um outro setor, eu vou”, explica Natália.

Com relação aos demais envolvidos no projeto, o fotógrafo esclarece: “Olha, quem tá no front mesmo somos eu e a Naty”. No entanto, ambos frisam como a cooperação e até mesmo a ajuda de custeio por parte de muitos parceiros foram essenciais em alguns momentos. “A gente conta muito com apoio de pessoas, né. Por exemplo, o Diogo Droschi — que é o que faz a diagramação, é um grande amigo que, quando a gente não tinha verba da revista, ele fez”, exemplifica a jornalista. Leo cita ainda a assessoria de comunicação do projeto, que conta com a colaboração de Aline Ferreira, amiga de Natália que tem uma empresa do segmento. A infraestrutura da Nitro também ajuda com tudo, segundo eles, desde a parte administrativa até a edição de vídeos.

Natália e Leo contam que liam e continuam estudando muito sobre o tema do projeto. Ainda assim, foi com a vivência do trabalho nas unidades carcerárias que mais aprenderam, especialmente quanto ao “jogo de forças do universo presídio”, aponta o fotógrafo. As pessoas que os acompanharam na produção da revista para fazer o making of e dar suporte nas oficinas, Gabriel Reis (edição piloto), Maria Navarro (edições 01 e 02) e Ciro Thielmann (edição 03), também já tinham familiaridade com a questão carcerária e eram conhecidas de Natália e Leo.

Revista A Estrela: uma ponte entre os dois mundos

De todas as iniciativas do projeto, A Estrela é sem dúvida a que mais brilha, justamente por dar protagonismo à voz de uma população em situação de vulnerabilidade. Sobre essa possibilidade que a produção da revista abre, o fotógrafo comenta que o trabalho deles é “estimular que aquelas pessoas, daquela população, vão contar as próprias histórias, e depois o nosso papel vai ser carregar essas histórias para outros públicos”.

Natália nos conta que a revista foi batizada em homenagem a um periódico homônimo, que circulava na década de 1940, produzido no presídio de Ilha Grande (RJ). Neste periódico, que o diretor do presídio editava, eram publicados artigos escritos pelos detentos. Mas a jornalista destaca que ele “tem algumas peculiaridades em relação à revista: primeiro, que era só texto, e segundo, que era um momento de presos políticos. Então, o perfil da população carcerária também era diferente”.

Apesar das diferenças entre as publicações, os objetivos delas se aproximam. “O editorial do primeiro jornal é muito simbólico, porque fala: ‘Olha, como a gente vai discutir questões relacionadas à população prisional sem ouvir os maiores interessados nessas discussões, que são as pessoas presas?’. Então ele abre esse espaço. A gente achou muito simbólico isso, tinha muito a ver com o que a gente queria fazer”.

Assim, Natália e Leo resolveram resgatar esse nome para homenagear o periódico: a revista, que seria batizada de Voz, passou a ser A Estrela. De acordo com a jornalista, essa escolha foi muito feliz por possibilitar “algumas brincadeiras em relação às logomarcas”. Confeccionar uma estrela ao final da produção da revista nas unidades virou tradição. Segundo o fotógrafo, tudo começou em Itaúna, onde já havia uma estrela, feita como mosaico. Então, foi pedido que os recuperandos escrevessem o nome da revista nesse estilo.

Foto dos idealizadores do Projeto junto aos participantes da edição piloto d’A Estrela. Ao lado, um recuperando desenha a logomarca da edição. Fotos: Reprodução/ Projeto Voz

Dessa forma são criadas as logomarcas, que estampam a capa de cada edição. Em Rio Piracicaba, as recuperandas costuravam, então “A Estrela” foi bordado em ponto-cruz, e duas estrelas grandes foram tricotadas. Em São João del Rei, o “artesanato de linha” era prática comum entre os internos, então a estrela foi feita com linhas traçadas em pregos sobre madeira, e o nome da revista, desenhado no mesmo estilo. Já na edição da ala LGBT, no Presídio de Vespasiano, os presos fizeram a estrela com cartolina e glitter, além de desenhar o nome.

Existem outros elementos comuns nas revistas, mas Leo destaca que “A Estrela traz uma identidade muito forte com a unidade na qual ela foi feita”. Essa identidade pode ser vista na série fotográfica que é produzida para cada edição: “ A primeira foi tatuagem, a segunda foi cicatriz, a terceira foi tatuagem do nome dos companheiros que abandonaram, que foi a das mulheres, e dessa [na ala LGBT] a gente fez dos cabelos…” e enquanto nos mostra as fotos da edição, completa, falando dos “cabelões estilosos que eles gostam de fazer”. Outra seção fixa da revista é o “Garimpo”, onde os talentos dos detentos são mostrados.

Um texto baseado na história de uma das recuperandas da APAC de Rio Piracicaba acompanha a série fotográfica produzida na unidade. Reprodução/A Estrela 02.

A produção da revista

A escolha das unidades prisionais é normalmente sugerida pela Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados (FBAC), no caso das APACs. Quando a dupla manifestou interesse em fazer o projeto em uma unidade feminina, indicaram a APAC de Rio Piracicaba. Mas, de certa forma, cada edição teve sua especificidade de escolha e/ou indicação. Por exemplo: a ala LGBT, no Presídio de Vespasiano, foi sugestão da Secretaria Estadual de Direitos Humanos.

A Estrela é feita em dois momentos: o primeiro, na unidade, quando se realiza uma oficina com aulas — teóricas e práticas — durante cinco dias, e os participantes produzem conteúdo; e o segundo, em Belo Horizonte, quando Natália e Leo reúnem e editam o material produzido, que segue para a diagramação. Nesse segundo momento, as fotografias que vão para a revista são selecionadas pela dupla e os textos — escritos à mão — são digitados ou fotografados. Leo explica que o curso é desenvolvido com, no máximo, 25 pessoas, de forma que cada grupo de cinco trabalhe com uma câmera. A seleção dos que participam é feita pela unidade.

O fotógrafo conta um caso engraçado que aconteceu na produção da edição de Vespasiano: “Quando a gente saía [da sala] pra dar os rolés [dentro da unidade], tinha sido combinado que não era pra fotografar os agentes. E eles também não queriam ser fotografados”. Porém, um dos integrantes do GIR (Grupo de Intervenção Rápida) percebeu que foi fotografado, pois o flash estava ligado, e “deu um esporro”. Quando Leo foi repreender o autor da foto, ficou desarmado com a resposta: “É jornalismo, professor!”.

Mapa que localiza as unidades das cinco edições d’A Estrela. Clique aqui para navegar por ele e acessar fotos e informações sobre as revistas.

Natália explica que as quatro revistas já produzidas são muito diferentes entre si: “Por uma evolução no aprendizado nosso, mas também pelas diferenças nas unidades prisionais em si, e diferença da população que está presa ali, o que tem muito a ver com a dinâmica do crime naquela região.”

Ela relata que as edições da revista feitas na APAC feminina de Rio Piracicaba e na ala LGBT, em Vespasiano, tratam de temas vividos exclusivamente por esses públicos — as mulheres e a população LGBT. “Esse perfil das pessoas, por si só, já faz com que os interesses delas sejam diferentes e, portanto, as pautas são diferentes”. Leo comenta, por exemplo, que na edição do Presídio de Vespasiano foi feita uma matéria sobre religião, por sugestão de um agente penitenciário, uma vez que muitos dos detentos são adeptos do Candomblé, religião mais inclusiva quanto à orientação sexual.

A direção das unidades prisionais também influencia nas diferenças entre as revistas. Natália conta que, em Itaúna, a diretoria era “mais rígida em alguns assuntos”, “com ligações religiosas muito fortes”. Os presos sabiam que poderiam sofrer sanções se tratassem de determinados assuntos. Segundo ela, eles comentavam sobre algumas pautas: “Ah, isso aí a gente não pode falar, porque vai dar B.O. [boletim de ocorrência]” — em analogia aos documentos oficiais de registro das ocorrências policiais. Os temas abordados na primeira edição da revista foram, portanto, mais leves. A jornalista classifica a diretoria da APAC de São João del Rei como “mais progressista”, apesar de rígida em relação à disciplina. Ela lembra, por exemplo, ter sido possível que nesta unidade os detentos do regime fechado fotografassem no regime semiaberto.

No sistema comum, segundo Natália, além das diretorias temerem a exposição das mazelas das unidades, tudo é tido como um problema de segurança. Mas essa preocupação tem seus fundamentos: “A gente demorou a entender isso, porque éramos tão militantes no início que achávamos que tudo era exagero. Mas não, isso seria romântico demais”. As situações que evidenciam essas tensões são várias. “Por exemplo, se o Leo fica com uma das presas, só ele e ela conversando, e essa presa o acusa de assédio posteriormente, é a palavra dele contra a dela. (…) Se a gente vai fazer A Estrela, levamos equipamentos caros. E, se estivermos no sistema comum, estamos falando de pessoas que têm contatos do lado de fora”, enumera a jornalista, mostrando a face delicada e desafiadora da relação com os presos, em que é preciso entender “onde está o jornalista e onde está a pessoa”.

Além disso, a disciplina é outro fator que influencia no processo da produção da revista: “A APAC é um sistema que tem menos segurança, em termos de repressão, mas é um lugar que tem um nível de disciplina muito maior do que nas unidades comuns. Porque nas unidades comuns, a disciplina é mantida com a arma na sua cabeça. Nas APACs não tem arma, só que é uma disciplina muito colocada; qualquer coisa vira uma pauta, qualquer pauta vira uma punição.”

Contraposição de um código de conduta extraoficial do sistema comum e o Código Disciplinar da APAC. Reprodução/ Edição piloto d’A Estrela

Segundo Natália, num lugar como as APACs, onde a disciplina é imposta e vigiada pelos próprios recuperandos, durante as aulas todos param para ouvir e erguem a mão quando querem comentar algo. Já no sistema comum, as pessoas levantam e discutem entre si no meio da aula: “São pessoas jovens que ficam presas, num espaço limitado, quase que 24 horas por dia; então imagina a quantidade de energia que tem nessas pessoas, que fica ali, acumulando. A gente teve momentos tensos [na ala LGBT] de casal discutindo dentro da sala de aula, e que tivemos que intervir com medo de isso se transformar numa briga entre eles”.

De acordo com a jornalista, a produção mais difícil do Voz foi a edição 03 d’A Estrela. A revista foi feita na ala LGBT do Presídio de Vespasiano, que pertence ao sistema comum. Natália explica a dificuldade: “Primeiro a questão burocrática, pra conseguir entrar, e as regras pra se fazer a revista lá dentro são muito mais complicadas. Nossa entrada foi mais restrita, o ambiente é mais difícil, o nível educacional das pessoas presas nessa unidade é mais baixo. A maioria delas não tem acesso à escola, e quando tem são escolas muito pouco qualificadas”.

Apesar de dizer que as dificuldades foram maiores no sistema comum, Natália afirma que os resultados foram incríveis. Ela completa: “É um lugar onde seja, talvez, mais necessário o projeto, já que a ideia é dar voz. Essas pessoas têm muito mais dificuldade pra terem as suas demandas, as suas necessidades e suas avaliações do sistema ouvidos. Então, talvez, seja o lugar mais difícil, mas também o mais necessário”. Quando conversava conosco na sede da Nitro, Leo recebeu a primeira versão do making of feita por Ciro Thielmann na ala LGBT. Drumond gostou bastante do vídeo, o que demonstra a satisfação com o trabalho na unidade.

Em relação aos “públicos de fora” — como a jornalista denomina as pessoas que não vivem a realidade do universo carcerário — , existe muita desinformação e discurso de ódio. Saíram várias matérias na imprensa sobre a edição piloto, mas só depois que a revista já estava pronta: “Porque quando tentamos entrar em contato [com a imprensa, durante a produção da revista], nossa assessora chegou a ouvir: ‘Eu tive que pagar pra fazer meu curso de jornalismo, e agora vocês vão dar curso pra bandido?’”, relata Natália.

Financiamento

A primeira edição d’A Estrela contou com parceria da Nikon e patrocínio da Universe Imports (empresa que revende equipamentos de foto e vídeo), mas foi bancada, em parte, pelos idealizadores. Posteriormente, alguns dos gastos foram amortizados pela venda de exemplares da revista e de fotografias do projeto em fine art, doadas pela Artmosphere (estúdio dedicado a esse tipo de impressão).

Para as edições seguintes, Natália e Leo procuraram apoio por meio de leis de incentivo, editais e patrocínios diretos. Nessa busca, “a gente encontrou alguma dificuldade, principalmente porque é, de fato, um público ao qual a maioria das empresas não deseja associar seu nome”, comenta a jornalista.

No caso do livro Mães do Cárcere, a alternativa ao patrocínio por editais foi o financiamento coletivo. Após receber a mensagem de que uma das presas retratadas queria muito ver o livro, a dupla percebeu que o retorno às mulheres não podia mais esperar. Então eles lançaram uma campanha na plataforma Catarse, com a qual conseguiram arrecadar dinheiro suficiente para a impressão do livro.

Na busca por financiamento, fazer making of se tornou fundamental. Leo explica que ter o processo de produção documentado é uma forma de mostrar aos patrocinadores “que o projeto tá acontecendo do jeito que foi proposto”. Trata-se, também, de uma iniciativa de transparência ativa por parte do Voz.

Mais recentemente, em maio de 2016, A Estrela foi contemplada pelo projeto Rumos Itaú Cultural, em parceria que possibilita a aquisição de equipamentos para o Voz, além de financiamento de quatro edições da revista e uma exposição ao final.

Distribuição e públicos

A tiragem da revista A Estrela é limitada a 1000 exemplares por edição. Assim, o foco dessa distribuição são pessoas ligadas aos sistemas carcerário e judicial, além de militantes dos direitos humanos, em menor medida, e de comunicadores. Contudo, cada edição tem suas particularidades: por exemplo, A Estrela produzida na APAC de Rio Piracicaba também abrangeu o público da militância feminista e a quarta edição será direcionada, além da circulação de sempre, a ativistas da causa LGBT.

O Instituto Minas pela Paz, parceiro do Voz, custeia a distribuição da revista para o poder judiciário, para o Ministério Público, nos tribunais e para o Sistema S, que engloba instituições como Senai, Sebrae e Sesc.

Parte do que é produzido nas edições, inclusive material audiovisual, é publicado no site do projeto. Um exemplo é um rap gravado na APAC de São João del Rei, que versa sobre a ausência dos pais presos na convivência com os filhos e sobre a saudade que sentem deles. Na edição impressa da revista, fotos e relatos ilustram a situação.

Segundo Leo, o primeiro público em que eles pensam é o do universo prisional. Dois ou três exemplares são destinados a cada participante da revista, e certa quantidade é doada para a unidade onde ela foi produzida. O outro público, o de fora, “é um público exigente: são fotógrafos, jornalistas, comunicadores, videomakers, etc.”. Neste aspecto, o formato d’A Estrela, grande e com fotos estouradas, é estratégico: “Primeiro, porque ela chama atenção já pelo tamanho; segundo, para as pessoas pegarem e folhearem uma revista de qualidade sem subestimar o conteúdo”, defende Leo. “Se você diz: ‘Olha, uma revista produzida por presos’, e for um panfleto, a pessoa vai jogar no lixo na hora”, completa Natália.

Uma exposição das revistas está planejada para julho deste ano, em local ainda não definido. O fotógrafo reflete, ainda pensando sobre a linguagem do projeto, que nesse caso haverá uma apropriação do material para a linguagem artística. Ainda que a revista não tenha sido inicialmente pensada para este fim, viram a necessidade de expor uma produção tão simbólica, com toda a marca de quem fez. Exibi-la em uma galeria servirá “justamente pra eles infiltrarem um espaço que é tradicionalmente excludente”, argumenta Leo.

Do cárcere para as prateleiras: o lançamento do livro

Lançamento da obra na Benfeitoria, em Belo Horizonte, no dia 11 de maio de 2017. Fotos: Júlia Valadares e Samuel Silveira

No dia 11 de maio de 2017, o ambiente agradável e à meia-luz da Benfeitoria, espaço cultural colaborativo localizado na rua Sapucaí, na capital mineira, recebeu o lançamento do livro Mães do Cárcere. A obra é elencada por Natália como um dos principais projetos do Voz. O clima era de confraternização: risadas, encontros e drinques dividiam espaço na fila de autógrafos, enquanto as fotografias do livro, distribuídas pela parede, eram visitadas pelos olhos dos convidados. No fundo, uma placa indicava onde os apoiadores do projeto no Catarse deveriam retirar suas recompensas.

É com cuidado que abordamos três mulheres que estavam presas na unidade onde o livro foi produzido, na intenção de ouvir sobre sua relação com a obra e seu significado para elas. Bruna, uma delas, nos volta, bem-humorada, com outra pergunta: “Vocês querem a história atrás do livro ou atrás das grades?”.

Quem mais conversa conosco é Sandra, cuidadora de idosos que esteve presa durante 11 meses no Centro de Referência à Gestante Privada de Liberdade e, apesar de não ter sido retratada no livro, prestigiou o lançamento. Ela teve sua filha caçula na unidade, enquanto as outras ficaram aos cuidados da primogênita — são seis meninas, no total. “Tá sendo muito interessante voltar pro presídio desse jeito, sem ter que ir lá. Mas só quem passou sabe. Isso aqui é tudo muito mágico, né, muito bonito. Mas a gente sofreu muito. O sofrimento é real”, conta ela. “É tudo muito pesadão. Hoje a gente ri, mas na época a gente chorou pra caralho”, completa.

Eloquente, desenvolta e esperta, Sandra vai descortinando, ao longo da conversa, a realidade que, na visão dela, pode escapar à representação fotográfica — a falta de água, o parto longe da família, o difícil acesso aos serviços médicos e medicamentos e a falta de autonomia sobre a criação dos filhos, além da linguagem própria da prisão, da tensão do julgamento e da felicidade do alvará. “Foto é foto, né. Se foto pegasse dentro da gente ia ser muito mais turva”, define.

Sobre o papel do jornalista, Sandra nos recomenda: “Pô, cara, olha sempre pro lado de quem não tem voz. A gente fica vendo o que sai, olha a mulher do Cabral. Por que que pra ela deu certo?”. Sandra se refere a Adriana Ancelmo, esposa do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral. Ela foi autorizada pelo STJ a cumprir prisão domiciliar com base em artigo do Código de Processo Penal, que prevê possibilidade de substituição da prisão preventiva pela domiciliar para mulheres com filho menor de 12 anos. O caso teve ampla repercussão na grande mídia.

Sandra, no lançamento do livro Mães do Cárcere: “Hoje a gente tá causando, não tá nem aí pra isso. A gente venceu”. Foto: Samuel Silveira

Em um dos grupos de amigos no evento, a desilusão com o jornalismo se evidencia após a nossa aproximação. “Estudante de jornalismo? Ih, foge enquanto ainda dá!”, aconselham por unanimidade as duas jornalistas e o fotógrafo Marcus Desimoni, também sócio da Nitro. A rotina da profissão é gostosa, ponderam, mas insustentável: não há mais redações e os jornalistas precisam se reinventar para sobreviver — é o caso de uma das amigas, que está desempregada e pretende migrar do jornalismo para o marketing. “Essa aqui é a parte bonita do jornalismo”, classifica Desimoni, apontando a Benfeitoria em um gesto e fazendo alusão às contradições do mercado às quais os profissionais de comunicação estão submetidos. Na Nitro, o trabalho para empresas e o engajamento em projetos sociais procuram conviver. Enquanto conversava conosco na sede da empresa, por exemplo, Leo foi interrompido algumas vezes por telefonemas de clientes corporativos.

No dia seguinte ao lançamento, uma publicação na página do Projeto Voz no Facebook, em agradecimento àqueles que compareceram, dá o tom de satisfação de Leo e Natália com o evento: “Mulheres que já cumpriram pena privativa de liberdade. Policial. Diretora de unidade prisional. Promotora. Defensora Pública. Militantes antiprisionais. Pesquisadores. Secretário de estado. Vereadoras. O idealizador da unidade prisional retratada no livro. Amigos que olham para o sistema carcerário de forma parecida com a nossa. Amigos que entendem o assunto de maneira oposta. Estavam todos lá ontem e é por isso que a noite foi tão importante”.

Reverberando a voz: planos pra o projeto

A última pergunta da entrevista é respondida em tom de alegria e esperança: sim, Natália e Leo pensam em expandir o projeto. A pretensão, de forma mais ampla, é se tornarem “uma agência de notícias que possa trabalhar informações sobre o sistema prisional em vários veículos, de várias formas, para fazer com que isso chegue a um número maior de pessoas. (…) A ideia é conseguir se tornar referência nessa produção de materiais jornalísticos sobre essa população”, conta Natália. A jornalista também compartilha o sonho de a dupla poder se dedicar menos à parte administrativa do Voz e mais aos projetos em si, o contrário do que acontece hoje.

Leo comenta que, para 2018 e 2019, pleiteiam realizar o projeto em uma APAC masculina e outra feminina, em duas unidades do sistema comum e também em uma ala LGBT ou em uma instituição manicomial. Esta última foi, inclusive, uma sugestão da Secretaria Estadual de Direitos Humanos. Outra perspectiva é traduzir o Mães do Cárcere para o inglês — Natália ressalta que a situação de grávidas em presídios é um problema internacional e que, portanto, o livro tem potencial para ser publicado fora do Brasil.

Por fim, a dupla pretende também migrar para outros estados, tendo as APACs como objetivo inicial, por serem de mais fácil acesso em relação às penitenciárias convencionais — pelo menos na realidade de Minas Gerais, conforme aprenderam.

Vontade de reverberar essas muitas e múltiplas vozes é o que não falta.


Esta reportagem foi produzida na disciplina Projetos B1 do curso de Comunicação Social/Jornalismo da UFMG (prof. Carlos d’Andréa). Para ver outras reportagens sobre projetos jornalísticos sediados em Belo Horizonte, visite a publicação LabCon/UFMG (https://medium.com/labcon-ufmg).