Denúncias recentes de abuso sexual e “pseudo Gurus”

Satya Devi
Sep 3, 2018 · 3 min read
Maha Devi pistola te dizendo “Prestenção nessa poha!”

Na semana passada, não tive tempo de escrever o caso de denúncia de abuso sexual por parte do “Guru”, mas não consigo ficar calada a respeito.

Problemática 1: a denúncia não foi feita por parte das mulheres, mas sim por parte de seus ex-maridos. Não vi nenhuma linha com as próprias palavras da mulher. Isso por si só já é bem problemático.

Problemática 2: já sabemos que existem casos de abuso não apenas sexual em seitas e grupos de vibe ‘nova era’, assim como tem em tantos outros cenários, incluindo igrejas e grupos de linhagem judaico-cristã.

Exatamente por isso que denúncias desse porte têm que ser muito bem investigadas e precisamos tomar cuidado com as narrativas que construímos sobre isso. Não por conta de reputação de omi nenhum, mas sim pra que a gente possa construir um movimento nesse meio ‘namastê’ muito bem organizado de denúncias, acolhimento de vítimas e encaminhamento de agressores ao destino que acharmos que nos faz sentido.

Eu particularmente não me sinto nada a vontade para dizer uma palavra se quer enquanto as mulheres apontadas como vítimas não se prenunciarem, mesmo que de forma anônima, sobre esse caso.

Acho estranhíssimo que ninguém tenha notado esse silêncio sinistro.

Onde estão essas mulheres hoje, agorinha mesmo?
Estão seguras?
Estão dentro dos Ashrams de seus agressores?
Estão sendo pressionadas pela família a voltar com o ex-marido que fez a denúncia?
Ou estão ‘tomando um chá’ com seu abusador e ‘discutindo a relação’?

O que me confirma a sensação de que não não existe uma preocupação real com o bem-estar dessas mulheres, mas sim com a disputa de narrativa ali pressuposta. E cada um querendo ‘puxar a sardinha’ para o próprio lado. Já vi até mesmo gente se usando dessa manchete para vender curso e retiro de ‘Sagrado Feminino’ ! WTF!

Acredito que não tem nenhuma chance de revolucionar esse meio enquanto as mulheres não assumirem protagonismo na espiritualidade. Não apenas como vítimas, mas também como Senhoras de Sabedoria, como referências em termos de técnica, prática e conhecimento. Especialmente os conhecimentos historicamente alienados de nós.

Não quero que minha voz, e a voz de tantas outras mulheres, seja ouvida apenas enquanto eu falo enquanto vítima — pra no momento seguinte as mesmas pessoas que me ouviram continuem com os exatíssimos mesmos comportamentos com relação a abusadores — e sigamos tendo a nossa própria sabedoria e nossa própria voz silenciada, relativizada, e inferiorizada em relação a esses líderes homens, cis e brancos.

Enquanto a gente, mulheres, não falar de forma direta, honesta e sem pânico moral sobre sexualidade dentro de grupos espirituais e religiosos, e enquanto as mulheres não formos DE FATO ouvidas sobre isso, continuaremos sendo propriedades sendo disputadas através de narrativas entre homens brancos.

O que a gente deveria estar pensando com tudo isso é:

Quais são os espaços e contextos em que essas mulheres podem buscar apoio e fortalecimento para fazer denúncias?

O que é que temos feito para dar voz e crédito às mulheres não apenas como vítimas mas também na hora em que buscamos por sabedoria espiritual?

O quanto que essas denúncias, em nós, fazem com que repensemos nossos líderes e nossas relações com sexualidade e espiritualidade?

Vamos repensar o que a gente curte, compartilha (citações, ideias, imagens…) virtualmente e apóia presencialmente que venham ‘assinados’ por esses pseudogurus, ou vamos continuar passando pano?

No mais, resolvemos no Navratri, que tá logo aí.

Namastreta.

Sobre mulheres tendo voz apenas como vítimas: https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2018/08/voz-feminina-so-e-autorizada-em-publico-quando-o-discurso-e-de-vitima-diz-mary-beard.shtml

Satya Devi
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