O que faz uma poetisa e transcendentalista na área de Marketing digital?

Pois é, nessa última semana, até estranhei o quanto mergulhei em estudos sobre Marketing e publicidade. Ficava me perguntando “por que esse meu súbito interesse nessa temática?”. Acaba de me ficar claro: LINGUAGEM.

Linguagem com a máquina, com o Google, com a engrenagem digital e seus sistemas de poder.

E a Linguagem com o ser humano, com o cliente em potencial, com o detentor do ‘like’, do ‘compartilhamento’, do dinheiro.

O Marketing tem uma utilização objetivada da linguagem.

É a utilização da linguagem (imagem, texto, vídeo) que busca gerar um comportamento específico. Esse comportamento pode ser vender um produto, pode ser seduzir um discípulo em potencial para adotar alguém como guru, pode ser gerar votos para um candidato político, pode ser fazer com que as pessoas despertem para o que há de melhor dentro delas, pode ser para transmitir um valor/crença específico.

Essa manipulação da linguagem, com um objetivo específico, gera um sentimento de algo ‘diabólico’ no Marketing — uma sensação de estar sofrendo tentativas de manipulação em pequena escala.

Mas não é a manipulação objetificada da linguagem que é o centro do problema. Ela só está próxima do real — e cruel — problema: na maioria dos casos, as pessoas são tão ‘programáveis’ quanto as máquinas.

Não precisa muita coisa para provocar este ou aquele sentimento, esta ou aquela ação no consumidor, no eleitor. Tão programados somos que temos até um calendário, com datas específicas para cada tom de energia emocional coletivo: “esperança e planejamento” para Janeiro, “putaria/balada mood” em Fevereiro, “Férias mood” em Janeiro, algo mais “criança” em Outubro, “luto” em Novembro e “generosidade” para Dezembro, e entre o luto de Novembro e a fake generosidade de Dezembro, a célebre “Black Friday”, estrategicamente posicionada. Genialmente posicionada.

Não é o Marketing que é “diabólico”, ou anti-ético, mas sim o ‘apagamento’ da natureza verdadeira de cada um para a ‘re-programação’ da sociedade.

Quanto mais inconscientes de nossas emoções, pensamentos, e desejos estivermos, mais facilmente manipuláveis nós nos tornaremos por aqueles que dominam a linguagem objetivada: nas novelas, nos noticiários, e SIM, na Internet também. Aqui mesmo, na sua Linha do Tempo. Tem [muita] gente lucrando com o ódio disseminado nas redes sociais. E tem SIM gente pagando para outras pessoas fomentarem o ódio. Gente que não está nem aí para ter razão ou não, para ter lógica ou não, mas sim para gerar engajamento, gerar textão, gerar marcação de amigos, de gente fazendo marketing de um posicionamento político, de um conjunto de valores e crenças — seja de maneira consciente ou inconsciente. E isso também acontece no mundo não-virtual. Falamos demais. E cada frase que voltamos está sempre impregnada de valores, de crenças, de emoções, nas entrelinhas, no tom de voz, na cadência e ritmo da fala. E em 99.9% dos casos, estamos propagando valores que nem sabemos se não realmente nossos, se realmente nos representam, ou se foram ‘implantados’ em nós e estamos transmitindo-os, semeando-os em nossos interlocutores.

Coisa mais comum quando observamos de maneira prolongada e atenta pessoas fortemente alienadas de si mesmas é testemunharmos conversações completamente sem pé nem cabeça. Cada um utilizando o outro para falar consigo mesmo, interrompendo e sendo interrompido, sobre assuntos que são escolhidos de maneira igualmente inconsciente, e na maior parte das vezes nem importam tanto assim (porque falar o que realmente importa pode ser perigoso, e pode ‘pegar mal’), assuntos mal-começados e inacabados. Geralmente interrompidos por uma notificação que apita num celular, numa vitrine, uma fala que vem da TV, ou por algum dos outros milhões de estímulos recebidos diariamente no mundo urbano capitalista.

Mas a mesma linguagem também pode conferir Libertação desses padrões. Seja ela escrita, falada, verbal ou não-verbal (como a dança ou como os ásanas por exemplo). A única Linguagem que capaz de conceder Libertação é a linguagem que estimula a Conscientização de nossa verdadeira natureza (tanto a profunda, quanto a persona superficial). Sem Conscientização, estamos à mercê das ondas “geradoras de tendências” de quem está manipulando os humores e comportamentos coletivos conscientemente. Na TV sabemos quem são essas pessoas: os detentores da mídia. Na Internet, o próprio mecanismo que elenca o que aparece e quando aparece na sua Time-Line, é de funcionamento misterioso e comprovadamente tendencioso.

Se quiser saber meu conselho (que é o que eu mesma também aplico em minha vida): não venha à rede social como quem vem “à passeio”. Venha em alerta, desapaixonado(a) e manipule conscientemente e de maneira transparente a mensagem que você deseja multiplicar. Aquilo que tem propósito real e verdadeiro a você. E o que você quer que deixe que exista, observe com atenção suas estratégias não se engaje. Não compartilhe, não comente, não entre na discussão, não “dê ibope”. Assim, aos pouquinhos, vamos semeando, para nós mesmos e para os nossos a multiplicação daquilo que desejamos e a eliminação daquilo que não aceitaremos. Porque a minha curtida aqui, afeta a tua timeline aí, e vice-versa (o que também já foi comprovado). Ignorar solenemente um assunto difícil não faz com que ele deixe de existir, mas podemos dar mais ênfase a textos a bordagens que sejam construtivas do que destrutivas e multiplicadoras de ignorância. Sabe a sessão de comentários dos grandes sites de notícias (frequentemente associados a mídias e empresas que já existem há muitas décadas, inclusive)? Então… Não alimente os trolls. O ‘troll mestre’ não é o babaca que recebe mais likes por um comentário escroto. Mas sim, em 90% dos casos, os próprios sites de notícias, que posta notícias pela metade, superficiais, tendenciosas e sem investigação mais profunda, e assim “atraindo” conscientemente esse tipo de ‘troll menor’, um humanóide de raciocínio limitado, para gerar ódio, treta e obter assim mais comentários (de revolta ou de apoio).

Recomendo como leitura complementar o experimento de um indivíduo que durante dois dias curtiu tudo que apareceu na TL dele — os resultados são espantosos: https://www.wired.com/2014/08/i-liked-everything-i-saw-on-facebook-for-two-days-heres-what-it-did-to-me/

Um Marketing feito por pessoas conscientes, voltado para pessoas conscientes, é possível. Ele leva beleza, ele não sobrecarrega de informação inútil, ele não brinca de maneira irresponsável com as emoções das pessoas. Ele seduz sim, mas não aproveitando-se do vazio existencial deixado por uma cultura de repressão e medo. Existem estratégias de comunicação e divulgação ainda mais geniais do que essa — alinhadas com o melhor mundo que podemos de fato construir. As linhas de frente da inovação em Marketing estão indo nessa direção. Do outro lado do território, a galera acessa seus dados virtuais para fazer um completo raio-X sobre seu comportamento enquanto consumidor (e gerador de opinião política em potencial), para saber certinho qual fragilidade sua explorar no planejamento publicitário deles. A sua curtida, o seu clique e o seu dinheiro são seu micro-poder político diário, provavelmente muito maior do que seu voto. E é isso que vai determinar qual o tipo de Marketing que vai conquistar mais território virtual. Esteja atenta às estratégias de ‘engajamento’ quando estiver por aqui. Se alguma é apelativa demais, ou parece injusta ou multiplicadora de ignorância, não clique. Se alguma lhe parece honesta, sedutora, multiplicadora de inovação e informação bem-fundamentada, clique com gosto. Com consciência.

E para treinar a consciência, não tem magia nem app: é com meditação, com Arte, com trabalho corporal e vocal, com espiritualidade bem-aplicada. Meditar [e outras práticas que estimulam a consciência] nunca foi um ato tão revolucionário e subversivo quanto na era digital e a tendência é que ela seja cada vez mais indispensável.

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