Um poema de Shivaratri

Satya Devi
Feb 23, 2017 · 2 min read

Sozinha no meu quarto

Com meu vinho barato

E já não se sabia

Se eu que cantava para Shiva

Ou se Shiva que cantava para mim

E eu abri os Yogasutras

E li aquilo que sempre leio

E vi algo que nunca vejo

Como sempre é com os Sutras

Como traduções vivas

De uma língua morta

Para uma língua minha

Porque é a Poesia

Que é a minha Língua Mãe

As línguas alheias

Serão sempre estrangeiras

Por mais que eu as beije

E encontre nelas afeto

Inebriada da saliva de Shiva

Eu meio dormi meio sonhei

Meio entesei meio despertei

Mas tanto cá quanto Lá eu sabia

Quem é que sorria

Cada vez que eu ia ou vinha

Sabendo tomar fôlego a cada vez

Eu era corpo, e era não-corpo

Era profundamente corpo, mente e mais além

Simultâneas camadas várias

De mim mesma e de não-mim.

Estado de susto, a cada início de mantra

Estado de alerta a cada eco da janela

Estado de deleite a cada respiração

Estado de vigor a cada pulsação

Rolando como ondas no oceano que canta

Lavados nus pelas monções dos mantras

O homem na frente do templo dourado

Era viril, era idoso e era barbado

E falou-me de Satya e falou-me de Ahimsa

Falou-me Yama, e deNiyama,

Falou-me de Pratyahara e Pranayama

E falou-me da chave que abria o portal

Que eu deveria ter naquele momento atenção total

No mesmo instante virou o mantra

E a adrenalina do susto me trouxe de volta à vigília

Ou quase, não fosse do vinho que subia

E uma parte de mim riria

não estivesse adormecida

Seduzida ao sono do ego

À volúpia dos sonhos despertos

Descanso de mim

Enquanto o Mim está no Mistério

Liberta de eu, vadio pelos monastérios

Converso com gente diferente

Em línguas tão inerentes

Que seriam assustadoras à mente

Que agora descansava, alcoolizada na cama.

E ‘eu’ nada me lembro

Nenhuma grande revelação

Nenhum grande ensinamento

Para me trazer ressaca no dia seguinte

Eu desertei da busca por meu caminho

Eu vadiei pelos templos dourados

Alguns brilhantes alguns ofuscados

Alguns gloriosos, muitos esquecidos

Mas todos eles firmemente erguidos

Ornamentados com estátuas profanas

De diversos amores sagrados proibidos

Injustiçados, exilados e perseguidos

Vadiando pelos templos profanos

Exilados das memórias do tempo

Refugiei-me do mundo e de mim

Cobri com um véu de pseudo-esquecimento

Memorizei de lá apenas essa jóia de sentimento

De sentir-me mais ’em casa’

Do que em qualquer outro momento

Na manhã seguinte

Nem ressaca tive

E sim uma náusea de poesia

Uma Tara por rima

Que eu já sorria

E já escrevia

Antes mesmo

Do primeiro orgasmo do dia

_Satya Devi

Satya Devi

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