Um poema de Shivaratri

Sozinha no meu quarto
Com meu vinho barato
E já não se sabia
Se eu que cantava para Shiva
Ou se Shiva que cantava para mim
E eu abri os Yogasutras
E li aquilo que sempre leio
E vi algo que nunca vejo
Como sempre é com os Sutras
Como traduções vivas
De uma língua morta
Para uma língua minha
Porque é a Poesia
Que é a minha Língua Mãe
As línguas alheias
Serão sempre estrangeiras
Por mais que eu as beije
E encontre nelas afeto
Inebriada da saliva de Shiva
Eu meio dormi meio sonhei
Meio entesei meio despertei
Mas tanto cá quanto Lá eu sabia
Quem é que sorria
Cada vez que eu ia ou vinha
Sabendo tomar fôlego a cada vez
Eu era corpo, e era não-corpo
Era profundamente corpo, mente e mais além
Simultâneas camadas várias
De mim mesma e de não-mim.
Estado de susto, a cada início de mantra
Estado de alerta a cada eco da janela
Estado de deleite a cada respiração
Estado de vigor a cada pulsação
Rolando como ondas no oceano que canta
Lavados nus pelas monções dos mantras
O homem na frente do templo dourado
Era viril, era idoso e era barbado
E falou-me de Satya e falou-me de Ahimsa
Falou-me Yama, e deNiyama,
Falou-me de Pratyahara e Pranayama
E falou-me da chave que abria o portal
Que eu deveria ter naquele momento atenção total
No mesmo instante virou o mantra
E a adrenalina do susto me trouxe de volta à vigília
Ou quase, não fosse do vinho que subia
E uma parte de mim riria
não estivesse adormecida
Seduzida ao sono do ego
À volúpia dos sonhos despertos
Descanso de mim
Enquanto o Mim está no Mistério
Liberta de eu, vadio pelos monastérios
Converso com gente diferente
Em línguas tão inerentes
Que seriam assustadoras à mente
Que agora descansava, alcoolizada na cama.
E ‘eu’ nada me lembro
Nenhuma grande revelação
Nenhum grande ensinamento
Para me trazer ressaca no dia seguinte
Eu desertei da busca por meu caminho
Eu vadiei pelos templos dourados
Alguns brilhantes alguns ofuscados
Alguns gloriosos, muitos esquecidos
Mas todos eles firmemente erguidos
Ornamentados com estátuas profanas
De diversos amores sagrados proibidos
Injustiçados, exilados e perseguidos
Vadiando pelos templos profanos
Exilados das memórias do tempo
Refugiei-me do mundo e de mim
Cobri com um véu de pseudo-esquecimento
Memorizei de lá apenas essa jóia de sentimento
De sentir-me mais ’em casa’
Do que em qualquer outro momento
Na manhã seguinte
Nem ressaca tive
E sim uma náusea de poesia
Uma Tara por rima
Que eu já sorria
E já escrevia
Antes mesmo
Do primeiro orgasmo do dia
_Satya Devi
