Lidando com a morte.

É quase impossível imaginar que você vai lidar com a morte de uma paciente em uma unidade básica de saúde. Pois é, eu infelizmente vivi essa experiência! E apesar de triste, entendo que as experiências sempre trazem ensinamentos que precisam ser compartilhados. Eu resolvi contar esse fato, porque nunca pensei que um dia comunicaria um óbito de um paciente a uma família dentro da atenção primária à saúde. Isso se imagina em um pronto-atendimento, em um hospital, mas em uma unidade básica de saúde? Sim, aconteceu. Na verdade, nós, profissionais de saúde não gostaríamos nunca de perder um paciente, mas infelizmente faz parte de nossa assistência. E um dos princípios da atenção primária à saúde é o primeiro contato. Portanto, o paciente vai procurar a unidade para qualquer necessidade e devemos estar preparados para tudo e mais um pouco. 
Me lembro como se fosse hoje, esse paciente chegou na recepção da unidade, se identificou e disse que sentia dor no peito, e em seguida teve uma parada cardíaca e desmaiou na recepção. Nossa! Era uma suspeita de Infarto! Foi prontamente atendido, toda a equipe direcionada naquele momento para assistir naquela situação. Foram realizados todos os procedimentos necessários: massagem cardíaca, medicação endovenosa, acionamento do serviço de remoção urgência/emergência, enfim, tudo que podia ter sido feito para aquele paciente, naquele momento. Mas, infelizmente, perdemos o paciente, foi um infarto fulminante. A equipe estava desolada! Após a constatação do óbito, era o momento de comunicar a notícia difícil para a família. E perder alguém da família é sempre muito doloroso! Um momento de muita apreensão e dúvidas, afinal, aquela família não esperava que seu ente querido, que saiu de casa, bem, conversando, de repente, não voltaria mais. Na verdade, como comunicar? Entendemos que não havia uma fala pronta, pois cada situação é única e cada família vai reagir de uma forma diferente, dependendo das suas crenças. Mas, chegamos à conclusão que deveríamos falar e respeitar a reação da família. Enfim, toda a equipe reunida, enfermeiro, médico, psicólogo e assistente social, e foi comunicado à família o óbito e foi oferecido todo o apoio necessário. Os familiares choraram muito e se sentiram arrasados. Um clima de profunda tristeza invadiu daquela sala. Depois de todos os trâmites, orientações e aconselhamentos que o momento exigiu, nos direcionamos para nossas casas, devastados, mas com a sensação de dever cumprido e que tudo foi feito por aquela vida! E essa experiência me fez pensar que, nós profissionais de saúde não estamos preparados para lidar com a morte, e que não nos preparamos para nossa própria morte. Gostaria que refletissem se resolvemos diariamente as nossas pendências? Se às vezes saímos de casa apressados, sem dar um beijo no esposo, sem responder uma pergunta de sua mãe, sem abraçar o seu pai? Se não pedimos desculpas a alguém que magoou? Será que agradecemos quem nos ajudou? Se não abraçamos nosso filho? Pois é, às vezes, pode ser tarde demais para resolver pendências, para beijar seu esposo, para conversar com sua mãe, para abraçar o seu pai, para pedir desculpas, para agradecer e para abraçar o seu filho. 
No dia seguinte a essa experiência, tive a grata surpresa de descobrir que estava grávida de 2 meses. E então, percebi que a vida não acaba, mas na verdade, ela se renova.


Ariana Nogueira Do Nascimento — Enfermeira — Vitória/ES

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