Quanto sangue perdemos na menstruação?

Tradução livre de artigo escrito por Sarah Gorenflos 20/dez/2017

Instagram: @cwnk.art

Muitas fontes alegam que mulheres sangram entre 30 e 40 ml (3–5 colheres de chá) em média durante a menstruação. 60 ml é considerado fluxo intenso e se você sangra 80 ml ou mais, é aconselhada a procurar um(a) médico(a).

Eu procurei ajuda médica, porque honestamente estava começando a me preocupar: eu esvazio pelo menos quatro coletores Ruby Cup durante minha menstruação! Um Ruby Cup tamanho Médio tem capacidade para aguentar 24 ml, 4 vezes mais que um absorvente interno aguenta. Então meu fluxo é em torno de 100 ml. Marquei consulta com minha médica para averiguar meu fluxo intenso, já que na verdade eu me sentia bem, e felizmente ela confirmou que eu não tenho cistos, nem fibroides uterinas, nem endometriose, nem problemas na tireoide.

Curiosa, perguntei para minhas amigas sobre as experiências delas e o que me contaram foi similar: as que usam coletor menstrual disseram que enchem pelo menos 3 coletores nos primeiros dias de menstruação. Então, um mínimo de 80 a 120 ml era a quantidade mais comum de perda de sangue. Então como é que, de acordo com as pesquisas, nós devemos procurar um(a) médico(a) devido ao fluxo excessivo? Isso me pareceu estranho. É claro que fluxo intenso pode ser um fardo emocional para algumas, e se está interferindo com sua vida diária, definitivamente é um sinal para procurar ajuda médica. Você não deveria ter que sofrer, e existem soluções. Mas esse é o ponto: nenhuma de nós parceia estar sofrendo com nossos fluxos aparentemente “excessivos”. Então comecei minhas pesquisas.

Mergulhando nas pesquisas sobre menstruação

Confirmando o básico

Primeiro, investiguei os números. Sites como a Wikipedia relatam o mesmo que as publicações científicas sobre o assunto (1, 2, 3). Todos concordam que a perda sanguínea normal durante a menstruação é entre 30 e 50 ml. Apenas um artigo de 1998 (4) é de opinião ligeiramente diferente, dizendo que “fluxos muito intensos” começam a partir de 120 ml (e não a partir de 80 ml).

O que está acontecendo? Por que a diferença é tão grande entre a percepção que eu e minhas amigas temos e as fontes científicas sobre a perda de sangue na menstruação? Coloquei meu chapéu de detetive e mergulhei ainda mais nesse assunto sangrento.

A equação que calcula a perda de sangue na menstruação

Descobri uma coisa incrível: uma equação (5). Uma equação estatística para calcular quanto sangue perdemos na menstruação, imagina? Estudei estatística e conheço a excitação que é encontrar uma boa equação com estimativas precisar, mas uma equação para perda sanguínea menstrual? Não é uma maneira complicada demais para determinar algo facilmente mensurável com um coletor menstrual?

A equação é baseada em mulheres que fazem anotações em um diário e foca nos seguintes fatores:

  • O número de dias que elas relatam fluxo “intenso”, “normal” e “leve”
  • Escapes (spotting)
  • Valores de hemoglobina e ferritina sérica
  • Idade

O método que envolve absorventes internos e externos

Mais tarde, descobri que esse modelo foi computado para facilitar outro método chamado método da hematina alcalina, que é o mais comumente usado para estimar perda sanguínea menstrual. Pensei: se a primeira equação foi feita para facilitar o método da hematina alcalina, o quão complicado esse método pode ser?

Lendo sobre isso, ele se mostrou ser complicado e muito antigo. O método da hematina alcalina foi estabelecido em 1964 (6) mas ainda é citado como “o padrão atual para quantificação da perda sanguínea menstrual” (5). Um método dos anos 60, imagine — é como se ainda usássemos telefones com fio e esperássemos ansiosos pelo próximo disco dos Beatles. Perceba, estamos na era dos carros que se dirigem sozinhos… imagine se investíssemos o mesmo esforço para entender a menstruação em todas suas facetas.

Contudo, eu também pensei: se ele ainda é usado atualmente, deve ser ter algum valor, certo? Não sou química, mas até onde eu entendo, o método da hematina alcalina foi desenvolvido da seguinte maneira: para estimar a perda sanguínea, foram coletados absorventes descartáveis usados. Os produtos então foram levados ao laboratório, onde foram lavados com uma substância química líquida que reage com o sangue. O resultado da reação química é uma substância chamada hematina alcalina (daí o nome do método).

Perceba, estamos na era dos carros que se dirigem sozinhos… imagine se investíssemos o mesmo esforço para entender a menstruação em todas suas facetas.

Mas… e quanto aos coletores menstruais?

Já existem métodos e dados na comunidade científica sobre como a hematina alcalina fornece a quantidade de sangue. É assim que os pesquisadores chegaram aos resultados. Eu fiquei realmente surpresa. Como usuária de coletor menstrual, pensei: porque nenhum método novo surgiu para substituir esse método que parece tão complicado? (Sinto a necessidade de mencionar novamente que atualmente temos carros que se dirigem sozinhos à disposição, mas temos que recolher absorventes usados para calcular a perda de sangue menstrual…)

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Usar coletores menstruais parece muito mais fácil que todas essas equações matemáticas e reações químicas. Eu tentei encontrar informações sobre o uso de coletores menstruais como método, mas encontrei apenas fontes muito vagas, onde um coletor menstrual ou um produto similar (chamado Gynaeseal) foram tidos como “não adequados como ferramenta diagnóstica para quantificação da perda sanguínea menstrual” (3). As justificativas foram que esses dispositivos não eram adequados para mulheres com fluxo intenso e tinham uma aceitação baixa na sociedade, baseadas em artigos dos anos 90 (7, 8). Contudo, com o visível aumento nas usuárias satisfeitas de coletor menstrual, assim como a disponibilidade de coletores com capacidade maior que a do Gynaeseal (um coletor Ruby Cup médio suporta 4x mais sangue que um absorvente interno), esse argumento está desatualizado.

E agora? Nesse ponto, eu fiquei principalmente confusa. Imagens esquisitas de assistentes de pesquisa lavando absorventes descartáveis enquanto escreviam equações complicadas em um quadro não saíam da minha cabeça.

Eu não havia chegado muito longe em relação à minha pergunta inicial: por que há uma diferença tão grande entre minha experiência pessoal com menstruação e as fontes que afirmam que uma perda de 80–120 ml de sangue é “arriscada”, “anormal” e do tipo que requerem uma visita médica?

A resposta está nos detalhes: sangue menstrual versus fluidos menstruais

Eu não conseguia tirar da cabeça essa história de perda média de 30 a 50 ml de sangue, e equações e lavagem de absorventes como maneiras de chegar nesse resultado. Precisei checar novamente o método da hematina alcalina e descobri que eu tinha deixado passar um detalhe essencial: e se o método estivesse considerando apenas a quantidade de sangue menstrual, e não de todo o fluido menstrual?

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Quem menstrua já deve ter percebido que os coletores, absorventes e outros produtos menstruais não coletam apenas sangue. Na verdade, apenas 36% do fluxo menstrual é composto por sangue! (9) A menstruação não é tão simples quanto um sangramento nasal.

Então, logicamente, o fluxo menstrual sendo composto por sangue e outras substâncias (3), que são o revestimento uterino [endométrio] e outros tecidos, não é surpresa que um coletor menstrual encha mais que isso e minha experiência seja tão diferente da regra dos 30–50 ml. Imagine um pequeno copo com água e então adicione umas bolinhas de gude. É simplesmente física!

Indo adiante, fiz um cálculo bem básico com a média fornecida pelo NHS [NT: National Health Service] de 40 ml de perda sanguínea menstrual durante uma menstruação e cheguei ao resultado total de 111 ml de fluidos menstruais que se perde na menstruação. Calculei da seguinte maneira:

[NT: considerando que 40ml de sangue equivalem a 36% do fluxo menstrual, foi possível chegar ao número que equivale a 100% do fluxo menstrual]

De cara, fiquei aliviada. Isso corresponde perfeitamente ao que eu mesma medi, então tudo parecia estar ok e eu possivelmente tinha encontrado uma resposta para minha pergunta inicial.

Mas essa jornada de descobertas também me fez pensar: por que as fontes científicas não são mais específicas em relação a essa informação essencial, já que eu tenho uma boa certeza que não sou a única a ficar confusa com essa história de sangue versus fluxo.

Uma nota simples do tipo “a quantidade média de sangue perdido durante a menstruação é entre 30–50 ml, mas se você levar todo o fluxo menstrual em conta, a média é 100–120 ml. O fluxo consiste das substâncias XYZ, além do sangue”. Não é complicado.

Eu fiquei bem preocupada por causa dessa falta de esclarecimento, e não acho que seja a única a ficar preocupada quando as fontes científicas dizem que o normal é perder entre “3 e 5 colheres de chá” de sangue durante a menstruação.

Para deixar bem claro, estou ciente do risco de menorragia (sangramento menstrual excessivo), e é essencial que as mulheres que enfrentam esse problema recebam ajuda e soluções para lidar com isso. Mas talvez seja hora de atualizar as informações disponíveis sobre fluxo menstrual intenso.

Quantificar menstruação intensa como 80 ml ou mais possivelmente deixe muitas mulheres preocupadas ou assustadas sem necessidade. Hallberg e sua equipe descobriram que 40% das mulheres com perda sanguínea de mais de 80 ml consideravam sua menstruação “leve” ou “moderada” (2) — então por que não levar isso em consideração?

Por que precisamos atualizar e exigir mais pesquisas sobre menstruação

Agora, será que minha pesquisa me levou à conclusão certa? Não posso ter certeza disso, mas de acordo com as pesquisas que encontrei, vou discorrer mais um pouco sobre minha aventura:

A quantidade indicada como normal de perda sanguínea menstrual (3–5 colheres de chá) do NHS leva em conta todo o fluido menstrual ou se refere apenas à quantidade de sangue?

Se, tecnicamente falando, 30–50 ml são a regra para uma menstruação saudável, então o problema não está na quantidade e sim no fato de que os termos usados levam à conclusão errada: não são 30–50 ml de fluxo menstrual, são 30–50 ml de sangue menstrual. Como você pode notar nos meus cálculos acima, 40ml de sangue menstrual correspondem a aproximadamente 111ml de fluxo menstrual (coágulos, tecido endometrial, muco cervical, etc. — o pacote completo).

Isso significa que definitivamente temos que ser mais precisos com as palavras que usamos — é muito importante que mulheres com fluxo intenso enfrentando problemas de saúde consigam ajuda — isso deveria ser priorizado. Mas também é importante não assustar as pessoas desnecessariamente — como podemos melhorar as informações para que elas sejam mais úteis e incluam todos os tipos de experiências com menstruação, e com o máximo de nuances possível?

A menstruação tem sido estigmatizada e mistificada na sociedade por tanto tempo — lembre das décadas de propagandas de absorvente com um líquido azul, estéril, homogêneo sem coágulos representando o fluxo menstrual. Essa mistificação, esse tabu ao redor da menstruação com certeza não contribuiu em nada para informar sobre fluidos menstruais e menstruação em geral — precisamos de mais pesquisas e mais clareza.

Essa mistificação, esse tabu ao redor da menstruação com certeza não contribuiu em nada para informar sobre fluidos menstruais e menstruação em geral — precisamos de mais pesquisas e mais clareza.

A menstruação varia de uma pessoa para a outra e às vezes de um ciclo para o outro. Ela varia em termos de cor e consistência — de vermelho claro a um marrom escuro, de rala a espessa, ou até mesmo uma consistência de “borra”.

Esse é um dos motivos pelos quais precisamos ter cuidado ao incluir as palavras “arriscado” ou “anormal” para medir o fluxo menstrual — o que é “normal” para uma pessoa pode não ser normal para outra.

Além disso, e se nossa dieta e estilo de vida têm influenciado na “normalidade” nas últimas décadas? O parâmetro para fluxo intenso dos anos 60 pode não ser o mesmo hoje em dia?

Então, hora de se atualizar!

Atualizar as informações disponíveis sobre menstruação para nós e para profissionais da saúde para que possam nos aconselhar adequadamente — para que isso seja possível, primeiro precisamos ser capazes de falar sobre fluxo menstrual sem julgamentos.

Espero também que atualizações incluirão a ciência. O fato de que as informações e dados sobre perda sanguínea menstrual são baseados em métodos dos anos 60 reforça a necessidade de metodologias e dados mais recentes. Talvez seja hora de adotar uma nova técnica de coleta do fluxo menstrual com… coletor menstrual.

Fontes

  1. Dasharathy S., Mumford S., Pollack A., Perkins N. ,Mattison D., Wactawski-Wende J., Schisterman E. Menstrual Bleeding Patterns Among Regularly Menstruating Women. American Journal of Epidemiology. 2012;175(6):536–545.
  2. Hallberg L., Hôgdahl A., Nilsson L., Rybo G. Menstrual Blood Loss–A Population Study: Variation at different ages and attempts to define normality. Acta Obstetricia et Gynecologica Scandinavica. 1966; 45(3): 320–351.
  3. The Menorrhagia Research Group, Warrilow G., Kirkham C., Ismail K., Wyatt K. , Dimmock P. and O’Brien S. Quantification of menstrual blood loss. The Obstetrician & Gynaecologist. 2004; 6: 88–92.
  4. Janssen C., Scholten P., Heintz A. Reconsidering menorrhagia in gynaecological practice. Is a 30-year-old definition still valid? European Journal of Obstetrics, Gynecology, and Reproductive Biology. 1998; 78(1): 69–72.
  5. Schumacher U., Schumacher J., Mellinger U., Gerlinger C. , Wienke A., Endrikat J. Estimation of menstrual blood loss volume based on menstrual diary and laboratory data. BMC Women’s Health. 2012; 12(24).
  6. Hallberg L., Nilsson L. Determination of menstrual blood loss. Scand J Clin Lab Invest. 1964; 16(2): 244–248.
  7. Cheng M., Kung R., Hannah M., Wilansky D., Shime J. Menses cup evaluation study. Fertil Steril. 1995; 64(3): 661–663.
  8. Gleeson N., Devitt M., Buggy F., Bonnar J. Menstrual Blood Loss Measurement with Gynaeseal. Aust N Z J Obstet Gynaecol. 1993; 33: 79–80.
  9. Fraser I., MaCarron G., Markham R., Resta T. Blood and total fluid content of menstrual discharge. Obstet Gynecol. 1985; 65: 194–198.
Publicação original em inglês disponível em: http://rubycup.com/blog/how-much-blood-during-period-scientific-research/ (Acessado em 9 de maio de 2018)

Tradução: Monique Z. Roloff

Ilustrações: Caroline Winkelmann