Análise do relacionamento das consciências inteligentes
Requisitos:
- Ponto de Vista (Isaac Asimov, 1920–1992): http://www.tyrannusmelancholicus.com.br/cronicas/4733/ponto-de-vista.
- O termo “natural” referente à consciência é utilizado em função da ideia de que não necessariamente as nossas consciências sejam naturais.
Ao ler o conto “Ponto de Vista”, escrito por Isaac Asimov, somos apresentados à narrativa de Roger e seu pai Atkins que vivem em uma sociedade cujas perguntas são respondidas pelo Multivac, um supercomputador do universo criado pelo autor.

O modelo de sociedade citado no conto demonstra um certo grau de dependência tecnológica à la Black Mirror, já que, segundo Atkins, o Multivac deveria ser mantido em operação a cada minuto do dia, pois se teria um grande número de problemas a serem resolvidos. Em paralelo, o contexto do supercomputador e seu respectivo modelo de organização social se assemelha, em n aspectos, a paradigmas da nossa sociedade atual: a utilização de livros sagrados como indicadores maniqueistas de moral e bons costumes ou a relativa influência de empresas (Google, por exemplo) que nos mostram determinados resultados de pesquisa em posição privilegiada em relação a outros conteúdos. Ou seja, o Multivac tende a ser uma metonímia de todos os dogmas e indicadores culturais/informacionais, que, de alguma forma, influenciam a nossa tomada de decisão.
O supercomputador, contudo, estava fora de ordem. Desse modo, os trabalhadores, incluindo o pai de Roger, estavam se esforçando para reorganizá-lo. Em uma pausa, Roger encontra seu pai e o indaga quanto à situação da máquina. Atkins, ao responder, associa o computador a um idiota, ou semi-inteligente, pois, embora a tecnologia seja “esperta” o bastante para servir como base para uma sociedade, não é o suficiente para ajudar os trabalhadores a entenderem seu problema. Roger discorda e associa o Multivac e sua consciência a uma criança que está cansada de fazer inúmeras tarefas de casa e começa a errar e se sentir mal, devido à exaustão, já que, segundo Roger, uma criança também precisaria brincar.

A visão proposta por Roger de que a consciência artificial poderia estar “exausta” de exercer suas funções (quiçá da própria existência) possui precedentes midiáticos que se distanciam muito da ideologia por trás de The Teminator (James Cameron, 1985), por exemplo, e se aproximam de produtos cinematográficos como Her (Spike Jonze, 2014) e Blade Runner (Ridley Scott, 1982). No caso do filme de James Cameron, The Terminator, predomina a ideia da ameaça da tecnologia e da iminência da dominação mundial por meio das máquinas que revolucionariam o que consideramos “vida”, ou seja, haveria uma inversão da consciência dominante. Os demais filmes citados, incluindo o conto de Asimov, temos o ser humano como consciência dominante subjugando as consciências artificiais (embora o enfoque de Her não seja essa “dominação”, os sistemas operacionais são desenvolvidos para organização pessoal do portador).

No caso de Blade Runner, essa dominância “natural” ante artificial fica mais evidente, considerando que os replicantes são considerados a mão de obra barata e abundante da geração futura e isso faz com que sejam descartáveis. Contudo, no filme, visualmente, é muito difícil identificar os androides (somente com o teste Voight-Kampff, que analisa contrações involuntárias da íris), isto é, não há distinção física (quiçá em relação à consciência em si, desconsiderando o fato de ser uma consciência “natural” ou não) entre os replicantes e os seres humanos.
Segundo Nietzsche, considerando um mundo criado por razões artísticas, basear a vida de um indivíduo em questões metafísicas, como ciência e progresso (semelhante ao pai de Roger), tende a distanciar o próprio indivíduo da vida. Atkins está tão preocupado o sistema tecno-social em funcionamento que não percebe, a priori, a carência de seu filho por atenção. Essa situação ocorre também em um contexto de banalização da comunicação em que se torna tão fácil o relacionamento entre as pessoas que se tende a uma espécie de relacionamento líquido que, segundo Baumann, se basearia em uma construção de laços tão frágeis que o sentimento mútuo se tornaria fluído.
Por fim, o conto constrói um paralelo entre o nosso modo de vida atual, o lado efêmero das relações e a subjugação das consciências. Roger, como ser inteligente, busca se aproximar de seu pai; Atkins, por trabalhar muito, não tem tempo para seu filho e busca justificar sua ausência devido ao processo e à ciência; Multivac, como ser inteligente, paralelo construído por Asimov com Roger, busca uma tentativa de obter descanso das inúmeras tarefas diárias. O conto, embora pareça demonstrar como a tecnologia afasta as pessoas, na verdade, nessa análise, tenta mostrar que as consciências inteligentes buscam maneiras diferentes de basear as suas vidas e o modelo de como se relacionar com as demais consciências (seja por empatia, seja pela dominação).
