Um ano danado

Teresa andava preocupada.

Não havia um dentista na cidade que se considerasse seguro após aquele assassinato horrível. Imagina morrer queimada em um assalto. Em pleno consultório. Medidas de segurança foram tomadas. Câmeras, homens armados, travas automáticas, a parafernália típica de quem não quer ser o próximo. Mas aquele finzinho de expediente, no último dia do ano, um ano difícil, pesado, não era exatamente naquele dia, daquele ano, que algo poderia acontecer.

Mas aconteceu.

Dizem que um avião nunca cai por um erro, mas por um conjunto deles. No caso de Teresa, um tratamento de canal mais demorado do que calculava. A recepcionista dispensada na véspera para visitar os parentes em Rosário do Sul. O porteiro substituto que não tinha o treinamento de segurança. O relaxamento natural de quem já olha para o ano que vem. O telefonema. O sotaque não identificado. A emergência.

Quando Teresa se deu conta, os dois homens já estavam na porta do consultório. Óculos escuros, chapéus de caubói. Tudo fechava com as descrições que ela vira na internet: uma dupla, olhos cobertos, bonés. O chapéu de caubói era uma novidade, mas também não era hora de discutir o estilo dos assaltantes e sim suas intenções.

E os dois pareciam nervosos. Mau sinal.

O telefonema tinha sido bem suspeito. No meio dos ruídos da péssima ligação, o homem de sotaque não identificável falava de uma dor extrema e da indicação de um amigo de um primo de Teresa. Tudo muito estranho. E lá estavam os dois na porta do consultório, esperando para entrar.

Teresa resignou-se. Aquele ano desgraçado iria acabar do jeito que foi na maioria dos seus dias: ruim. Escondeu o anel de brilhante e a correntinha embaixo do cuspidor. Os cartões foram para dentro do forro da cadeira de dentista. Deixou a bolsa à vista.

Abriu a porta.

Os dois homens entraram apressados, um deles segurando o queixo. Claro que estava fingindo e a vontade de Teresa era dizer pra eles que já sabia de tudo, vamos direto ao assunto e me liberem viva para o réveillon.

Mas eles insistiram no teatrinho. Dói aqui, doutora, na maçã do rosto. E depois a dor escorrega pelo carrinho e retumba no coco.

Teresa tocou no osso malar do ladrão e ele deu um pulo. Um pulo real, ninguém fingia aquela dor e controlava os canais lacrimais para chorar daquele jeito. Abriu a boca do rapaz: dentes perfeitos. Mas havia dor, sem dúvida.

Desde quando dói?

Começou no avião pra cá, doutora.

E você pediu um analgésico pra comissária?

Não tinha comissária, só eu e o Sibalena.

Ela te deu uma Cibalena?

Não, não tinha comissária, só eu e o meu amigo, o Sibalena, filho dos meus padrinhos, o dindo Sibaldo e a dinda Helena. E eu tava pilotando.

Você é piloto?

Nas horas vagas eu piloto o meu avião.

Seu avião.

Sim.

Foi neste momento que Teresa notou a bota de couro de piton. O Raimundo era criador de gado em Goiás. Amigo do Sibalena. Pilotando seu avião para participar de um leilão de Angus em Bagé. Mas acabou pousando em Porto Alegre por causa da dor. Teresa lembrou do primo da fronteira. E relaxou.

Raimundo tinha uma infecção aguda do seio paranasal, precisava mesmo era de um otorrino. Teresa ligou para o dr. Estevão e mandou ele direto pra lá. Nem cobrou a consulta.

2016, afinal, talvez começasse bem. Ela só precisava decidir o que fazer com a vaca premiada que chegou de Bagé no caminhão e que agora pastava bovinamente no gramado de sua casa, ainda com uma etiqueta pendurada no pescoço:

De: Raimundo

Para: dra. Teresa

Feliz 2016!

baseado em uma história real protagonizada pela minha querida dentista, doutora Maria Teresa Fazola
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