A angústia de escrever

Deve ser a terceira vez que seleciono o texto e apago e a quarta que mudo o tema do texto. Escrever, antes de tudo, é um exercício de paciência consigo mesmo que, nesses tempos líquidos, tenho cada vez menos. Na falta de tempo, na falta de inspiração, na falta de paciência, meus textos vão se tornando cada vez mais ralos e meus likes cada vez mais significativos. O dedo desce pela timeline e meu olho vai junto, sem rumo e sem precisão. A gente foge dos textos grandes, mas abre as fotos — de biquíni, de paisagem e de biquíni na paisagem… Droga, lá vai eu me perdendo de novo!

De manhã é cedo demais, de tarde estou ocupado demais e, de noite, cansado demais. Tudo demais, menos o tempo para sentar e dedilhar um texto, nas grandes teclas do notebook ou nas pequenas e traiçoeiras teclas do celular. Quando consigo sair do primeiro parágrafo, uma certa angústia toma conta de mim dizendo que NÃO ESTÁ BOM O SUFICIENTE; VAMOS MUDAR DE TEMA; VOCE NÃO É CAPAZ e essas coisas que nosso ego diz sempre que algo nos incomoda. Escrever, no meio de tudo, é um ato que fere diretamente o ego e causa a famigerada angústia. “Famigerada”, palavra engraçada. Acho que tem origem latina, formada por aglutinação… Perdi o enredo de novo? PQP!

Então, escrever tem sido cada vez mais um ato comum e ao mesmo tempo único. As curtas mensagens do whatsapp não são, necessariamente, um texto minimamente reflexivo e os TEXTÕES são tão rechaçados no Facebook quanto a Dilma é no Jornal da Globo. Sem contar o foco que se deteriora cada vez que qualquer app traz uma nova notificação, mesmo a mais idiota. Escrever, no final de tudo, é um ato de contra cultura praticado por tribos particulares — minorias, fandons e, claro, poetas.

Mesmo me enquadrando nas três tribos, por quê é tão difícil escrever? Escrever dói, aperta o peito e pesa a coluna; esquenta a cabeça e avermelha os olhos… estressa! Escrever me faz olhar pra mim mesmo e ver o quanto eu tenho a dizer e me faltam palavras, frases e rimas, ou, melhor, escrever, hoje, me faz perceber o quão distante de mim estou para estar mais próximo de um cara que vive ultra conectado para se informar, mas se limita a fotos, vídeo de gatos e gifs maravilhosos da Inês Brasil.

É, meus amigos… eu que era TEXTÃO, me tornei uma página em branco, sem título e com o ponteiro do mouse piscando, piscando, piscando…

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