Caçada

A noite era quente, comum para aquela época do ano. A estalagem Kraken Manco ficava próximo ao porto, o que fazia sua clientela diversificada. Viajantes, mercantes e piratas passavam por ali. Logo na entrada, havia uma grande placa de um Kraken sem tentáculos. O chão e moveis eram de madeira. No grande salão, as vigas eram adornadas de modo que pareciam tentáculos. Todas as mesas estavam ocupadas, mesmo que seus ocupantes estivessem de pé dançando, e esses não eram pouco. O palco no fundo da taverna era o centro das atenções.

Homens e mulheres, em trajes modestos e confortáveis dançavam ao som das concertinas e alaúdes. Muitos dos que dançavam empunhavam suas canecas e chifres de cerveja e hidromel, habituados à pratica, pouco do liquido era perdido na folia. Os bardos, festeiros profissionais, bebiam e tocavam alternadamente, fazendo ambos com eficiência.

Entre eles um homem na casa dos trinta anos, cabelos castanhos e bagunçados na altura dos ombros, algumas tranças e barba por fazer, puxava as cantorias. Ronan era músico quando não era mercenário. Suas canções e historias de marinheiro faziam sucesso pelos portos que passava, principalmente com o sexo oposto. Era um galanteador bem sucedido. Naquela noite procurava por alguma pretendente para esquentar lhe a cama. Oferecia canções a varias donzelas, mas nenhuma havia capturado seu interesse ainda.

Já estava bêbado quando quando seu olhar encontrou o dela. Uma jovem, cabelos negros longos e ondulados. A pele bronzeada chamava atenção ao decote generoso do vestido longo com espartilho apertado na cintura, mas frouxo na altura do decote. Uma moça encantadora, olhos expressivos, rosto simétrico, exótica e comum ao mesmo tempo. Ela dançava hora com um, hora sozinha, hora com outra. Sempre sendo cortejada e admirada. Mas os olhos da moça sempre buscavam o de Ronan, e foi isso que o deu margem para ir à até sedutora. Os demais músicos continuaram a tocar, e outro alaúde tomou o lugar do seu.

– Eu sou Ronan, madame.

– Você não parece uma madame para mim. — respondeu sorrindo. — Eu sou Malyn.

– Não, a madame é você — respondeu rindo — eu sou um capitão, mas prefiro não espalhar isso. — mentiu.

– Um capitão?! Incrível. E qual o nome do seu navio? — disse genuinamente impressionada.

– A maga d’água — inventou e estendeu a mão, um convite para a dança.

–Parece… — percorreu o corpo de Ronan com o olhar e aceitou o convite aproximando seus corpos. –… Grande.

Logo entraram em sintonia, e sues movimentos combinaram. Após um rodopio, enfeitado pelo vestido rodado, a moça caiu aos braços do rapaz e retomou o dialogo:

– Sabe o que é coincidência? Eu sou uma maga.

– É mesmo? — achou pouco provável pela idade da moça, mas não impossível.

– Sim — aproximou-se do ouvido dele — E posso fazer meu vestido sumir se você quiser.

– Eu mesmo sou um contador de historias, madame, então só posso acreditar vendo. — disse com dificuldade devido a bebida, mas tentou soar inteligente.

– Me encontre no estábulo daqui a pouco então. — Beijou lhe e deixou o salão.

Ronan sentiu um anseio quase incontrolável em ir atrás da moça, mas decidiu aguardar alguns instantes. Terminou a caneca de cerveja, recolheu tudo que ganhará com sua apresentação, seu alaúde e foi.

Como a maior parte dos que estavam na taverna chegaram pelo mar, o estábulo tinha muitas baias vazias. Ao entrar, Ronan não teve dificuldade em saber em qual Malyn o aguardava, pois era a única que emanava alguma luz.

Quando abriu a porta dá baia tinha certeza que ela era a mulher mais atraente que já havia visto. Nua ao lado da cama improvisada por cima do feno. Seus cabelos longos escorriam por seu corpo sinuoso iluminado por algumas poucas velas postas por ela. Com um movimento de dedos fez um convite para que o convidado entrasse. Ainda estupefato ele encostou a porta atrás de si, e caminhou em direção à donzela. Um cortejo e um aceite foram o suficiente para que o galanteador caísse em luxuria. Começou beijando lhe o pescoço e foi descendo. O corpo da moça era um banquete sensorial. O cheiro de seus cabelos, a maciez de sua pele lisa e rigidez de seus seios empinados, a visão das suas curvas de seu quadril, o sabor de seus lábios inferiores e o instigante som de seus gemidos. Toda uma orquestra perfeita que o impedia de se conter em suas calças. Estava de joelhos, com a barba roçando a virilha de Malyn, quando ela disse em um suspiro

– Minha vez.

Ronan levantou-se. Com um movimento dominante de um leve empurrão no peito, a moça o fez se deitar na cama. Levou as mãos à fivela, desarmou lhe o cinto e expôs o membro do companheiro. Montou sobre ele e pôs seu quadril para dançar em movimentos de vai e vem. Rasgou lhe a camisa branca de botões exponde o tórax torneado do amante. O prazer era demais para Ronan, ou talvez a bebida tenha sido. Sentia-se desorientado, tonto. Seus olhos lutavam para se manter abertos enquanto a moça dava seu espetáculo. Com a visão turva e intercalada pelos momentos que passava de olhos fechados ele alucinou. Ao menos foi o que pensará ao ver grandes asas negras saindo das costas da donzela. Em outro momento, viu chifres protuberantes em sua testa e um rabo longo e pontudo serpenteando no ar por trás da dama. Mas o prazer era intenso demais para que pensasse em reagir, ou talvez fosse a energia vital se esvaindo de seu corpo sem que ele notasse.

Com as mãos apoiadas sobre o peito de Ronan e a cabeça jogada para trás, Malyn intensificou os movimentos. Os músculos do marujo começaram a secar, a pele a enrugar como se envelhecesse décadas a cada cavalgar da parceira. Não tinha forças para reagir, e também não tinha a menor vontade de parar o que estava acontecendo.

– Aguente, bonitão! Deixe-me ao menos terminar.

A moça focava agora no seu próprio prazer, rebolando seu quadril para atingir o ápice enquanto seu parceiro deteriorava-se. Demorou poucos minutos para que a vitalidade dele se esvaísse por inteira, restando uma forma decrépita, frágil e irreconhecível. Malyn por outro lado parecia mais deslumbrante do que nunca, porém frustrada, pois seu parceiro não durará o suficiente.

– É uma pena — lamentou sozinha, desmontando do cadáver.

Pois seu vestido, recolheu os itens da vitima, soprou as velas, tomou a forma de uma mulher diferente e saiu, ainda faminta.