Liberalismo, Socialismo e Radicalismo

Alexandre Conchon
7 min readFeb 3, 2023

Introdução

O Iluminismo nos abençoou com diversos avanços e abriu portas para que outros viessem em seguida. Claramente o liberalismo foi o seu principal legado, mas o próprio ramificou as ideias humanas ainda mais. Sem dúvidas o liberalismo é a ideologia mais importante no desenvolvimento de ideias pelo menos nos último quatro séculos, e sem dúvidas influenciou desde conservadores até socialistas durante a história. Como uma vez Tony Blair muito bem afirmou em uma convenção da Fabian Society que os atuais socialistas democráticos são legados das ideias do liberalismo radical de Keynes, Hobhouse e Beveridge. A ligação entre liberais e socialistas nunca foi um mistério ou muito menos um segredo, mas muitas vezes soa como algo incomum ou até mesmo impossível para alguns. Por aqui iremos destrinchar um pouco sobre a relação entre liberalismo, socialismo e o papel do radicalismo em ambos.

O Liberalismo Radical, do seu início até os dias atuais

O radicalismo é um dos filhos do liberalismo clássico, e como podemos notar é seu filho rebelde e apaixonado, não atoa muitos escritores do Romantismo eram radicais - salvo a exceção de Goethe, que dizia não simpatizar com o radicalismo de Jeremy Bentham -. Pós-revolução americana o liberalismo havia se ramificado em algumas facções onde havia alguns mais radicais e outros mais conservadores. Por aqui focaremos no liberalismo radical e seu legado. Os radicais possuíam um ranço maior contra monarquias e aristocracias, um desejo maior sobre o secularismo, sufrágio e abolicionismo, além de procurarem reformas institucionais que fizessem jus ao lema Liberté, égalité, fraternité. Principalmente ao procurarem reformas que colocassem a igualdade como um meio para a liberdade. Dentre os radicais víamos o pioneiro em propor a reforma agrária e a ideia de renda básica Thomas Paine, o abolicionista Marquis de Condorcet, a sufragista Mary Wollstonecraft ao lado de seu marido — no qual alguns argumentam ser o pai do anarquismo — Godwin, os pais do utilitarismo Jeremy Bentham e James Mill, seu filho John Stuart Mill e Harriot Taylor, esposa de Stuart Mill, e não podemos deixar de falar de Henry George e o Georgismo, no qual influenciou fortemente ideias sobre taxação de terras, latifúndios e a redistribuição das terras. Alguns argumentam que Adam Smith era um radical por sempre apresentar um tom mais progressista em seus livros e ser fortemente admirado pelos radicais da época. No Brasil a moda também pegou, e o radicalismo veio em cheio com figuras republicanas, abolicionista e sufragistas, além de fortes defensores do livre comércio assim como os radicais americanos e europeus. O radicalismo brasileiro ganhou força com nomes como Nísia Floresta, Antonieta de Barros e os membros do jornal Radical Paulistano Luís Gama, Joaquim Nabuco e Rui Barbosa, além de muitos outros.

A ideia do liberalismo radical — que na época eram consideradas radicais — nada mais era do que tornar as pessoas mais iguais e livre dentro de um sistema liberal democrático. E podemos ver um grande legado e influência em diversos segmentos ideológicos que vieram a se desenvolver com o passar do tempo, como o social-liberalismo, ordoliberalismo, liberalismo moderno, socialismo liberal, socialismo democrático, social-democracia, progressismo, democracia radical, entre outros. O radicalismo abriu portas para que diversas políticas tenham se desenvolvido e colocadas em prática, como por exemplo o Estado de bem-estar social (welfare state), a renda básica, a reforma agrária e o acesso universal a educação.

O social-liberalismo sem dúvidas é um dos seus maiores sucessores, e podemos ver sua atuação no mundo moderno desde o final do século XIX até os dias de hoje. Seu maior destaque foi durante o pós-guerra, no período em que chamamos de Liberalismo Embutido (Embedded Liberalism), onde os países atuaram para que as democracias liberais não enfraquecessem com o crescimento de ideias totalitárias antidemocráticas como o nazismo alemão, o fascismo italiano e o stalinismo da União Soviética. Além de evitarem que o capitalismo se fragilizasse demais e que as pessoas virassem vítimas do motor de destruição criativa do capitalismo. Esse período foi marcado por políticas social-liberais, onde a garantia de um livre-mercado convivesse ao lado de um welfare state. Na Inglaterra o Partido Liberal já havia implementado reformas cujo nome foi batizado como “Liberal Reforms, que duraram entre 1906 e 1914. Essas reformas deram a fundação para que os welfare states modernos fossem construídos. Entre as figuras principais nessas reformas podemos citar William Beveridge e David Lloyd George. A construção de vários welfare states vieram de partidos liberais — como o Canada, Estados Unidos, Nova Zelândia, Reino Unido — ou de pensadores liberais que influenciaram partidos social-democratas — como no caso dos países nórdicos, Austrália — ou democrata cristãos — como na Alemanha, onde o ordoliberalisimo influenciou grande parte das políticas pós-guerra da Alemanha, Áustria e Suíça -. Vemos uma espécie de revival” do social-liberalismo nos dias de hoje com figuras modernas como Amartya Sen, John Rawls, Paul Krugman e Martha Nussbaum, e atuando principalmente em partidos de centro e centro-esquerda, e algumas vezes em partidos de centro-direita.

Diversos partidos levam em seus nomes partes do radicalismo, como é o caso do Parti Radical francês, o Venstre norueguês e dinamarquês, e o Radikale Venstre dinamarquês. (Importante notar que Venstre significa esquerda na língua desses países, fazendo um reflexo em como era visto o radicalismo na época, como uma posição de esquerda e muitas vezes como extrema-esquerda). Outros partidos que trouxeram muito do radicalismo e do social-liberalismo são o partido Democrata dos Estado Unidos da América e o Partido Liberal canadense, além de ter se encaixado em grandes facções dentro de partidos mais à esquerda que adotaram as ideias do “Third-way liberalism” e do social-liberalismo no geral.

Vejo o social-liberalismo como uma “versão padrão” do que seria o liberalismo. Liberais radicais clássicos já advogavam por políticas de justiça social muito antes do surgimento do social-liberalismo no século XIX, o que vemos hoje nos social-liberais é um reflexo do que um dia foi o liberalismo radical.

O Socialismo e suas alterações

Não é de hoje que socialistas se inspiram em figuras e ideias liberais, já no passado vemos essas convergências, como na criação da Sociedade Fabiana que possui raízes no radicalismo, na Itália fascista onde liberais e socialistas democráticos se juntaram para enfrentar um inimigo em comum, e na Alemanha nazista onde a Frente de Ferro majoritariamente composta por integrantes do partido social-democrata ao lado de liberais lutaram contra três inimigos em comum: a monarquia, o comunismo e o nazismo. Com o decorrer do século XX e XXI vimos uma mudança dentro dos partidos socialistas e social-democratas que rejeitavam o autoritarismo soviético, onde eles abandonaram as ideias de superação capitalista e fizeram as pazes com o mercado e com outros ideais liberais. Essa mudança muitas vezes vista como uma mudança para as políticas social-liberais e para a globalização liberal. Muitos partidos social-democratas modernos foram responsáveis pela “neoliberalização” da economia de seus países nos anos 80 e 90, como foi o caso da Austrália, Nova Zelândia, Inglaterra com Tony Blair e dos países Nórdicos e até mesmo por aqui no Brasil com o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e o Plano Real, e até mesmo com Lula (PT) em seu primeiro mandato, onde foi acompanhado por uma equipe econômica repleta de liberais, como Marcos Lisboa, e por políticas social-liberais como o Bolsa Família.

Os partidos social-democratas na Europa, na Austrália e na Nova Zelândia geralmente são divididos entre uma ala mais liberal e outra mais social-democrata. Como foi o caso do Labour Party do Reino Unido, onde após Tony Blair ter servido como primeiro-ministro e ter dividido o partido entre duas alas principais: socialistas como Jeremy Corbyn e social-liberais como Tony Blair, as vezes chamados de hard-left e open-left, respectivamente. Algo parecido ocorre no Labour Party australiano e neozelandês, mas com uma maior integração das facções aderirem a ideais social-liberais. Assim como no partido social-democrata alemão, onde vemos um grande compromisso com ideais liberais e até mesmo em questões de responsabilidade fiscal. Diversos outros partidos já foram acusados de serem social-liberais com o objetivo de insultá-los, como foi o caso do Parti Socialiste da França e o Partido Socialista em Portugal. É interessante ver que existem certas reações por dentro desses partidos contra a onda social-liberal que tomaram.

O Radicalismo Liberal como um fator de mudança

O radicalismo foi responsável por diversas mudanças no decorrer do desenvolvimento humano, podemos aprender muitas lições com ele. Fazer mudanças radicais de maneiras humanas e democráticas liberais. A revista britânica The Economist diz fazer parte da tradição radical do liberalismo, e pauta em cima dessa ideia. O mundo de hoje é outro, e possuem problemas modernos. O liberalismo não deixou e não vai deixar de ser humanitário-progressista-democrático, para adquirimos aquilo que desejamos como fronteiras abertas, igualdade de oportunidade, um mercado livre, justo, produtivo e saudável, justiça social e plena democracia é preciso agir, e como Adam Gopnik descreveu o liberalismo em seu livro “Milhares de pequenas sanidades: A aventura moral do liberalismo”:

O liberalismo é uma prática política em evolução que defende a necessidade e a possibilidade de reforma social (imperfeitamente) igualitária e uma tolerância ainda maior (se não absoluta) da diferença humana por meio de conversas, manifestações e debates fundamentados e (majoritariamente) livres.

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Alexandre Conchon

Economic student from Brazil | Liberté; Égalité; Solidarité