Eu demorei anos até entender o que tinha de diferente comigo, porque a questão de as minhas amigas gostarem tanto de beijar meninos rolava de uma maneira tao diferente pra mim. Eu demorei anos pra entender que a minha desculpa de sexo só depois do casamento era porque eu não tinha o mínimo de interesse nem de curiosidade naquilo que rolava entre homens e mulheres. Eu passei anos reprimindo minha vontade de amar uma menina, sempre imaginava como seria esse relacionamento e, apaixonada como era a larissa adolescente, me imaginava levando flores pra minha menina, com cartão, chocolate, saindo por ai em um dia de sol de mãos dadas e brincando de esconde esconde no parque, tentar imaginar isso com caras nunca me apeteceu, não era tao poético. A mulher pra mim sempre foi poesia, poesia viva, na voz, no corpo, nos olhos, a mulher é poesia. Eu nunca entendi porque era tao errado amar alguém assim, eu nem conhecia esse alguém mas ja era tao apaixonada por todos os aspectos gerais que envolveriam essa mulher. Como que um amor assim, antes de ser, poderia ser tão errado? Eu tentei durante tempos me envolver com caras, conheci caras muito legais, eu me apaixonei por caras, mas no final nunca dava certo, e quando eu ia contar meus causos pra uma amiga especifica a reação dela era sempre a mesma: miga, não deu certo pq vc não gosta de caras. Pq vc faz isso com você? E eu nunca assumi, mas essas conversas sempre me deixavam bem mal, porque eu não sabia responder a essa pergunta, eu só queria ser normal …. é normal que chama, ne? Quando tive minha primeira conversa sobre isso com a minha vó, conversa essa que me emociona até hoje, ela me disse que eu sempre teria colo pra me abrigar em dias difíceis que minha orientação sexual pudesse me trazer. Ela me disse: minha filha, quando você sofre bullying na escola por ser gordinha ou por ser negra, pode chegar em casa e chorar no colo dos seus pais, porque isso é o que você é. Quando você sofre por um amor não correspondido, ou te zoam por gostar de alguém do mesmo sexo, a sorte não é a mesma. Mas com você vai ser diferente. E foi ali, naquele momento que eu entendi como seria minha vida, a pessoa que gosta de alguém do mesmo sexo, aprende antes de tudo, a mentir. Se não isso, ao menos a omitir. Minha vida seguiu e essa raiva de ter que silenciar amores me fez me auto afirmar a todo o momento que eu tivesse a oportunidade, durante um tempo, se eu pudesse teria tatuado na testa: eu amo mulheres. Hoje essa necessidade não me afeta tanto, ja esta instaurado dentro de mim essa realidade, com todos os infortúnios que ela possa eventualmente trazer consigo. O fato é que a vida de uma mulher é difícil por natureza, a vida de uma mulher que ama outra mulher, pode ser qualquer coisa menos fácil. O que eu mais queria é que as pessoas entendessem que pouco importa se sua vizinha maria é apaixonada por João ou por Joaquina, isso não a diminui em uma escala humana. Maria vai continuar acordando cedo, indo trabalhar, fazendo sua faculdade, executando suas atividades cotidianas e amando Joaquina. Maria vai ir ao mercado, vibrar quando ver uma promoção no preço do pão, da soja ou do ovo. Maria vai chorar ao ver um filme romântico, ela vai se emocionar ao ler um poema e escutar o cd novo do Chico Buarque. Maria vai andar de bike, vai amar os dias de sol e continuar discutindo por ai a existência de e.t’s. Maria vai continuar sendo maria. Maria vai continuar sendo normal. Maria existe. #diadavisibilidadelésbica
