Vestindo cor-de-pele

O costureiro Babu e uma história feliz sobre a imigração africana no Rio Grande do Sul

Por Schari Kozak


Era uma manhã quente de novembro quando fui visitar Babu pela primeira vez. Viajara cerca de seis horas da capital gaúcha até a adorável cidade de Erechim, no norte do estado, onde nasci e onde Babu escolhera viver. Ele e outros mais de 150 africanos que se aventuraram mundo afora em busca de uma vida melhor.

A migração africana para o Brasil, em especial para cidades do Rio Grande do Sul, há algum tempo faz parte da agenda da imprensa nacional, é tema de discussões e reflexões na academia e, principalmente, afeta de alguma maneira a vida dos moradores locais. Apesar de conhecido, no entanto, o fenômeno ainda provoca questionamentos e discursos embasados na arrogância e no preconceito, herança dos anos de escravidão.

“Eles vão trazer doenças e roubar nossos empregos”, disse uma senhora, em entrevista ao programa Fantástico, da Rede Globo. Eram palavras proferidas em rede nacional, num dos horários de maior audiência da televisão, assistido por famílias inteiras. E era a voz de uma parcela da população que não admite que o governo conceda refúgio aos imigrantes, considerados uma ameaça.

Naquela manhã saí da casa dos meus pais e atravessei a rua em direção à placa que sinalizava “Babu Gai, Costureiro”. O portão da garagem aberto conduzia à porta de entrada, também aberta, que permitia que Babu, sentado atrás da máquina de costura, pudesse ver e recepcionar aqueles que se aproximavam. Eu já havia feito um contato prévio e fui logo me identificando diante do olhar um pouco retraído do costureiro. “Sim, sim, podemos falar”, disse, continuando a trabalhar num pedaço de tecido que em breve se tornaria uma bela camisa estampada.

Babu era simpático e atencioso, mesmo sem tirar os olhos da máquina de costura. Nas mãos que deslizavam o tecido, grossos anéis e um enorme relógio dourado, atrativo por si só, que ficava ainda mais evidente em contraste com a pele negra do costureiro. A fita métrica que pendia do pescoço era sua marca registrada. Com um porte atlético e bem vestido, ele se diferencia dos outros africanos e certamente vai de encontro ao estereótipo presente no imaginário de grande parte da população. Por ter sido um dos primeiros a se acomodar na cidade, tornou-se uma espécie de padrinho para novos imigrantes que chegam sem regulamentação, sem casa, sem emprego, mas esperançosos em conseguir construir uma nova vida. Babu é a prova de que isso é possível.

O ateliê ocupa dois ambientes da casa do costureiro. Num deles ficam os tecidos, as roupas em construção, o provador e a mesa de passar. No outro, as paredes são decoradas com certificados de profissionalização, acompanhados de uma paródia da capa da revista Caras, em que Babu posa como destaque da edição. Panos vermelhos pendem do teto para cobrir a janela e as portas que levam a outros cômodos da casa. Nesta sala, além das máquinas de costura ficam um computador e sofás, que logo seriam ocupados por diversos africanos que fazem fila para realiza ligações internacionais muito mais baratas através de um software instalado no computador do ateliê.

Em pouco tempo a casa estava cheia. Senegaleses, em sua maioria, revezavam o telefone que permitia diminuir um pouco a saudade daqueles que ficaram em outro continente. Quase nenhum falava português. Os cumprimentos e breves conversas entre a chegada e a saída eram proferidas em wolof. Meus ouvidos atentos conseguiam captar algumas poucas palavras em francês, mas nada que permitisse uma mínima compreensão de qualquer conversa. Falavam rápido, ao mesmo tempo, e de fundo se ouvia o Mbalakh, ritmo embalado característico de Gâmbia e Senegal. Alguns se dirigiam a mim numa tentativa primitiva de comunicação, mas com pouco sucesso. Ada Sall, uma doce senegalesa que auxiliava Babu na organização e cobrança das ligações, por vezes intermediava a conversa que normalmente acabava em risos. O que muitos achariam falta de respeito, pra mim estava sendo uma experiência incrível. Babu dava atenção a todos eles, enquanto conversas paralelas aconteciam ao meu redor. Eu só observava, feliz na minha insignificância.


Babu chegara a Erechim há cerca de três anos, através de um amigo que morava numa cidade próxima. O costureiro percebeu que o povo erechinense não estava acostumado a encontrar na rua, nas lojas, no supermercado pessoas de cor preta. O que muitos chamariam de preconceito, Babu humildemente definiu como estranhamento. Os olhares “estranhos”, para ele, eram uma reação natural das pessoas que não entendiam a presença dele e de outros africanos na sua cidade.

Sem falar em rejeição, agressividade, ou qualquer outra palavra que remetesse a preconceito, Babu disse que levou um tempo para conseguir ganhar confiança e ser visto como um profissional como qualquer outro, independente da sua cor e de sua origem. Hoje, com um brilho nos olhos e um sorriso tímido nos lábios, Babu agradece a Deus por ter conseguido abrir seu próprio ateliê e por agradar a grande maioria dos clientes, que acabam indicando seu trabalho para outras pessoas. Mas ele confessa que o queria de verdade era poder transformar o ateliê em uma fábrica e empregar todos os africanos vindos para a cidade. Não seria maravilhoso se todos pudessem trabalhar?

Babu sempre quis ser costureiro. Desde pequeno observava a destreza dos profissionais transformando pedaços de pano em lindas roupas e decidiu que queria fazer o mesmo. Começou cedo, ainda na adolescência, o que lhe permitiu ganhar bastante experiência e aperfeiçoar a sua técnica ao longo do tempo. Sente-se feliz com o fato de que além de gostar muito do que faz, sua profissão permite que vá para qualquer lugar — as pessoas sempre precisarão de roupas, certo?

No entanto, a versatilidade da profissão não o ajudou a sobreviver no seu país de origem. Gâmbia, situado na África Ocidental, é uma República Presidencialista não democrática desde o golpe militar de 1994. Babu faz parte de uma parcela de 30% da população que deixou ou fugiu do país desde que a ditadura foi instaurada.

Ele resistiu até decidir que não havia outra alternativa se não fugir. Chegou ao limite quando as perseguições ao seu irmão, jornalista, tornaram-se mais frequentes. O ditador Yahya Jammeh assassinou o dono do jornal em que o irmão de Babu trabalhava, numa tentativa de calar a imprensa. Depois desse episódio, muitos outros profissionais passaram a correr perigo constante.

Pessoas inocentes eram presas sem razão aparente, e era cobrada uma fiança para que fossem liberadas. Isso não impedia, no entanto, que essas mesmas pessoas voltassem a ser presas repetidas vezes, pagando mais e mais dinheiro ao governo — isso quando as prisões não acarretavam o sumiço dessas pessoas. Não só o irmão, mas o próprio costureiro foi detido diversas vezes para ser interrogado. Cansados e com medo, os irmão deixaram o país. Por morarem perto da fronteira, a fuga não foi tão difícil, e logo se viram em terras estrangeiras. Babu na América, seu irmão, na Europa. Cinco anos e milhares de quilômetros separam os dois até hoje.


Na sala ao lado Babu passa um vestido quase pronto, à espera da menina que faria a prova. As habilidades do costureiro surpreendem até mesmo quem atua na área. Com todo cuidado, Babu olha o vestido diversas vezes até ter certeza de estar ao seu contento. Satisfeito, pendura o vestido na arara e volta para a máquina de costura com um novo pedaço de tecido em mãos, reiniciando incansável o trabalho.

Quando as conversas e o ruído da máquina cessam por alguns instantes, é possível ouvir ao fundo a leitura do alcorão, em árabe, que toca em looping no computador da sala. Muçulmano como a grande maioria dos gambianos, Babu se mantém fiel à religião transmitida pelos pais e tem dificuldade de compreender como no Brasil pais e filhos podem ter crenças religiosas diferentes. Como em outros momentos, fala com tranquilidade sem tirar os olhos da agulha e da linha. Mas o costureiro parece um pouco incomodado com o pré-julgamento que as pessoas poderiam fazer ao se declarar muçulmano. Não concorda com o ódio e o fanatismo de alguns, nem entende o porquê disso acontecer. “Temos todos um só Deus, não?”.

De quinze em quinze dias os africanos muçulmanos reúnem-se para orar. Babu relembra com certo saudosismo o respeito que os filhos mantinham pelos pais, ensinados pela religião desde pequenos. Hoje não é mais assim. A religião ajuda as pessoas a ver que os pais são experientes, viveram muitas coisa e sabem o que é melhor para seus filhos. Babu acredita que casamento é na base da sorte. Quando os casamentos eram arranjados, por melhores que as pessoas fossem, poderia não haver amor. Por outro lado, quando existe aquele amor imaturo, e os pais não interferem, tem grandes chances de que ele não seja o suficiente para manter um casamento. E está difícil encontrar uma mulher que goste de você pelo que você é. Precisa ter bens materiais, uma casa, um carro, se não você não é nem visto. Mas e se algum dia essas coisas deixarem de existir? Acaba o casamento, porque não existe amor.

Nesses últimos momentos da conversa Babu parecia desiludido. Mas talvez falar em voz alta o tenha feito refletir e pensar mais claramente. Agradeci a sua atenção, ele se despediu, com a mesma simpatia de toda a conversa. No dia seguinte à minha visita, acesso meu Facebook e lá está, estampado na rede social: “Babu Gai está em um relacionamento sério”. Uma nova oportunidade para ser feliz, aqui.

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