eu acordei diferente

Amanda Schmidt
Aug 27, 2017 · 3 min read

sempre fui muito apaixonada, muito louca, cheia de profundidades não descobertas de quem me via só do raso.

e quem afundava se perdia porque nem eu sabia onde tava.

e gostava disso.

gostava não, eu amava.

eu amava tudo, muito, obstinadamente.

e odiava nas mesmas intensidades. ardia o peito, a barriga.

queimava tudo por tudo

e eu tomava muitas decisões baseadas nessas coisas que ferviam em mim.

muitas não, todas.

de racional eu tinha só a pós.

depois de ter os resultados nas mãos eu, racionalmente, refletia.

entendia.

e aprendia.

fui descobrindo os meus percursos, modos, gatilhos.

eu passei anos nessa, me conheci bastante, todos os meus piores me transbordaram e eu pude vê-los, com muito respeito e gratidão, na beira da minha piscina profunda de águas escuras. como peixinhos se debatendo tentando voltar pra lá.

um dia eu acordei e nada daquilo existia mais.

a piscina tava seca.

decidi minha vida dali pra frente, sol em Virgem, lua em Virgem e uma racionalidade que eu desconhecia.

me aperfeiçoei bastante em mim mesma nos últimos anos, juntei todos os materiais que tinha, coloquei na bolsa e deixei pra trás toda a passionalidade-desenfreada-e-apaixonante que eu era.

não doeu, não foi beeeem um movimento. sei lá,

eu era.

era novo, mas era eu.

uma pessoa completamente diferente.

caiu minha ficha agora.

bateu

mas eu não tinha mais capacidade dos grandes dramas então respirei fundo.

não tiro os créditos dos grandes dramas

mas é como se os últimos anos tivessem me preparado só para eu conseguir ser. e para isso eu precisaria ser todas as possibilidades que o meu corpo alcançava, em todos os lugares que ele pudesse chegar

mas acabou, aconteceu

eu tinha crescido.

já não tinha mais manhãs pra dramas e crises, aí eu levantei, fiz um suco verde, me alonguei, tomei banho frio — sem gritar— coloquei uma roupa e mudei de curso.

eu aprendi a ser quem eu era — Amanda ou Aurora, tanto faz, fiquei tão completa que nem sei como me chamo— e deixei Humanas pra lá.

A VIDA É MUITO INESPERADA

uau.

eu só cheguei nesse ponto, nessa liberdade de me tornar quem eu sou—em paz — , porque eu fui caos e dúvida e desistência e bagunça e vergonha e erro. e porque eu acolhi tudo isso. todas essas partes de quem eu era naqueles momentos. eu me permiti ser toda torta, ser esquisita e não saber o que teria um passo à frente de mim. e eu assumi isso. porque não tinha outro caminho. e por não ver caminho, eu só via o caminho pra dentro. talvez, de fato, o fundo do poço seja o lugar mais poderoso que eu estive. talvez, o não conseguir realizar o meu sonho, que eu determinei aos 17 anos, tenha sido a minha deixa pra ser feliz. pra ter uma vida onde eu não preciso ficar tentando todos os dias provar para todas as pessoas que eu consigo dar conta de todos os sonhos que eu disse que tinha. talvez, mas só talvez, o sonho seja você ser quem você verdadeiramente é, não uma carreira, um nome, uma aquisição. e talvez isso só venha depois de tudo estar vazio. e quando tudo o que você foi até agora não fizer mais sentido de uma noite pra uma manhã: você vai me entender.

ou já entendeu

porque talvez,

você nem precise descer pro poço pra ver que ta vazio.

nem precise encher sua piscina até transbordar.

mas de baixo ou de cima

a gente vê o céu

o sol

as estrelas

a lua

e onde a gente estiver, estaremos conosco.

e isso,

isso sim é tudo.

)
Amanda Schmidt

Written by

acho democrático não usar letra maiúscula para falar de amor.

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