mais um texto que eu não pude gritar porque era tarde.

porque é isso que eu sei fazer com as coisas: escrevê-las.

transfigurá-las, recriá-las, significá-las quando já são vazios.

eu só sei fazer isso, me fechar no meu mundinho e imaginar. eu não sei viver em outros terrenos, eu não sei pisar nesse teu chão, por isso estou aqui. trancada em um papel branco que vai sendo mais cheio mas nunca menos vazio.

às vezes meu corpo reage, eu tremo, o coração parece batucar um samba pra carne inteira dançar. pele, osso e coração.

aceleraê.

eu só sei fazer isso, expurgar, dar aos dedos onde bater para não martelarem a mesa. preciso fazer silêncio, então escrevo, assim grito. me retorço inteira, fico errada e arrepiada, bem baixinho. sussuro a agonia para dar vazão à tudo. cochicho a ansiedade aflita para os papéis e deixo que neles ela seja imensidão.

eu não quero tantas coisas que fica difícil saber querer alguém. eu não quero tantas gentes que quando quero você já não posso mais.

eu não quero casar, nada de igreja, nada de padrinhos depositando esperanças na minha instabilidade. eu não quero que digam "que família feliz!". eu não quero, definitivamente, ter um amor diminuído a um núcleo. eu não quero parecer feliz, ou triste, ou família. eu quero amor, isso eu quero, a emoção ora louca, ora calma de passar a mão no teu rosto com cuidado por ter medo pesar em você. eu quero esquecer de tudo isso na cama e ser rápida, feroz, faminta pelo seu corpo resignificado de vontade, pela grandiosidade que é estar com alguém que faça sentido. por alguém que se queira estar.

o tesão pelo tesão se esgota. o desejo pela vontade se esvai e ser temporário pode ser cansativo. eu quero permanecer até segunda ordem. até que já não exista mais porquê. eu quero bater na tua porta e falar "porra!".

porra o quê?
– sei lá, só senti vontade e falei.
– maluca.
– talvez……….. me beija.
– beijo.
– se eu soubesse que essa era a palavra teria dito antes.
– antes não funcionava.
– por quê?
– porque tudo tem seu tempo.

porra.

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