Cotas Enquanto Forem Necessárias

Um professor universitário do Espírito Santo, em sala de aula, disse aos alunos que numa situação hipotética, se tivesse de escolher entre um médico branco e um médico negro com as mesmas formações técnicas e construções acadêmicas, escolheria o médico branco.

(A reportagem pode ser lida no seguinte link: http://gazetaonline.globo.com/_conteudo/2014/11/noticias/cidades/1501257-entre-um-medico-negro-e-um-branco-eu-escolheria-ser-tratado-por-um-branco.html)

Difícil compreender que falas como essas surjam de quem forme opinião no país, pessoas que diferente da grande maioria tiveram a possibilidade de captar através da academia os grandes contrastes sociais evidenciados na nossa nação.

Mas em um país onde a maioria da sua gente é incapaz de reconhecer privilégios, de fato tem grandes dificuldades de perceber a nossa mazela em não ser inclusivo, nossas desigualdades concretas ainda que sejam estampadas parece não ser capaz corar de vergonha nossa história.

O Brasil passou por mais de 350 anos de escravidão, fomos a última nação da América a estabelecermos em leis que essa monstruosidade era proibida, viramos a página de maneira utópica, como se no dia seguinte em que Isabel assinou a lei áurea o Brasil já não tivesse uma separação étnica. Mais de três séculos de um perverso método de opressão certamente estará marcado na sociedade, na cultura, na própria linguagem. Há algo mais definitivo para se perceber isso do que na frase ‘eu vou acabar com a sua raça’? Dizemos isso sem pronta reflexão do simbolismo histórico que se tem contido, ao nos zangarmos e gritar contra alguém que nos ofende falamos que o outro nos ‘denigre’, ou seja, torna-nos escuro, negro, numa acentuada maneira de dizer que ser negro é ruim.

Gilberto Freyre ao afirmar que no Brasil vivíamos numa democracia racial fez parecer de que havia uma unidade em nosso solo, de modo em que todos eram iguais, de que não havia uma distinção entre brancos e negros, já que afinal nosso povo havia se misturado, de certa forma legitimou-se o discurso de se ter um pé na cozinha, outro claro exemplo do local onde a sociedade enxerga o negro.

Esquecemos da nossa própria História, o Brasil em seu projeto de nação estabeleceu uma política de embranquecimento, uma miscigenação seletiva, houve um boom em atrair europeus para ocupar o Brasil, já que viu no negro uma inferioridade, isso tudo após a dita libertação dos escravos, como então podemos afirmar que houve qualquer tipo de reparação histórica ao povo negro quando o próprio estado estabelece medidas racistas? Uma complexa engenharia social acadêmica se colocou ao lado do governo para negar ao povo negro uma presença dentro das relações sociais.

Tudo isso está intrinsecamente ligado a nossa atual sociedade, onde os negros estão ausentes dos postos de comando, não estão representados em postos políticos, não estão dentro das faculdades. Quando se fala em meritocracia e igualdade para se combater os meios de acesso as negros me soa como uma piada de péssimo gosto, é como se numa corrida um fusca disputasse com uma Ferrari e nos restringíssemos a questionar quem seria o melhor piloto.

No Brasil, 30.000 jovens morrem por ano, 77% deles são negros. Quem se importa? Apenas um dado adormecido pelo silêncio, como falar em igualdade quando a população negra morre nas periferias?

As cotas raciais foram declaradas constitucionais por unanimidade pelo Supremo Tribunal Federal (STF), elas enquanto forem necessárias estarão resguardadas pela lei, o acesso do aluno cotista ao longo dos últimos anos tem sido profundamente exitosos, o desempenho de alunos cotistas não se distingue de alunos não-cotistas, em alguns casos superam até, as universidades brasileiras hoje já tem dentro de sua composição um ambiente mais diverso e plural.

No ano passado, numa terça-feira de Novembro, (11/11/14), o governador do Rio de Janeiro, sancionou a lei nº 6.914 que estabelece um sistema de cotas para o ingresso de alunos negros, índios, deficientes físicos e filhos de agentes de segurança mortos em serviço.

É importante dizer que no Brasil apenas 1% dos professores universitários são negros, na USP, por exemplo, dos mais de 4,7 mil professores apenas 10 são negros.

Para mim as cotas em pós-graduações são ainda mais importantes, por conta do critério avaliativo conter uma entrevista. É na subjetividade das decisões que se esconde o racismo de fato.

Se um aluno branco e outro aluno negro com as mesmas formações técnicas e construções acadêmicas estivessem concorrendo a uma vaga na pós graduação quem teria mais chances?