Bill O’brien

Tá perto?

Ele morde o lábio enquanto aumenta o ritmo. Está de joelho na cama, segurando minhas pernas esticadas em seu peito e, volta e meia, faz uma pequena careta pelo esforço físico. Me olha. Quero te fazer gozar, porra!, leio nos pensamentos dele.

Não diz isso, respondo mentalmente, enquanto desvio o olhar e deixo escapar mais um gemido. É a minha posição preferida. A essa altura, ele já sabe disso só pelo escândalo que eu faço quando me come desse jeito. Acabo voltando o olhar pra ele e me perdendo nas contrações que seu corpo faz com o movimento. Fico imaginando a bunda dele se contraindo a cada estocada.

“Gostoso”, sussurro.

No canto da boca ele esboça um sorriso e continua. Vejo uma gota de suor se desenhar no comecinho da testa deslizando lateralmente. O suor, a respiração, as caretas. Tudo parece repetir a pergunta que não pronuncia: vai gozar?

Contraio o abdômen e tento contrair também os músculos da vagina. É um truque que uso quando começo a me masturbar e fico com preguiça, me ajuda a acelerar o orgasmo. A sensação dele entrando e saindo de mim fica mais intensa. Gemo mais, digo que vou explodir. Ele diz que deixa. Por alguns instantes acho mesmo que a sensação tá se expandido mais do que meu corpo aguenta e que logo vai me ultrapassar, mas passa. Quando se queima a largada, o juiz manda recomeçar. Voltei para a estaca zero, mas Jefferson continua na competição. Começa a ficar vermelho e faz mais caretas.

“Eu não vou aguentar”

“Vem, beibe”.

Desaba em cima de mim. Man down. Não falamos nada. Ele rola para o lado, tira a camisinha com uma mão e passa o outro braço por baixo da minha nuca. Continuamos em silêncio. Sorrio pra ele e, com o dedo, seco algumas novas gotas de suor que se formam em sua testa.

“Foi bom?”, pergunta.

“O que cê acha?”, sorrio para tranquilizá-lo.

Ele sorri de volta.

Continuamos sem nada dizer das coisas que passam pela nossa cabeça. Quer dizer, sei do que se passa na minha, na dele, só imagino. O pior é isso. De todas as histórias de transa que já confidenciamos pro outro, tem uma do Jefferson que não sai dos meus pensamentos. Na verdade, nem foi uma história, foi mais um comentário sobre uma ex. Uma ex que era muito sensível, gozava rápido e tal. Uma vez ela gozou cem vezes, me contou.

Não sei como é a ex que gozava cem vezes, mas imagino um corpo magro, bronzeado, uma bunda impecável e um cabelo longo e cacheado emoldurando seu corpo que não para de se contorcer. No silêncio do quarto, só ouço o gemido dela. No olhar de canto de olho que Jefferson me lança, imagino a comparação. Por que você não goza?

“Porque não gosto!”, me rebelo mentalmente.

“Não gosta?”, imagino o olhar de surpresa e pena que Jefferson faria. “Como não gosta?”

“O gozo, Jefferson, é a morte do desejo”, eu recitaria. É a minha resposta pronta. Pra pergunta que nenhum cara faz, diga-se de passagem. “É como aqueles ditos budista ou sei lá, nunca li nada de budismo, mas vi essa coisa de um sábio que diz que o bom da viagem não é o ponto de chegada, mas o percurso. Eu acho isso, cara, eu acho que o bom da transa é o percurso”, me vejo dando explicações no meu diálogo imaginário.

Enquanto me recuso a abrir mão da vida do desejo, a ex do Jefferson o mata cem vezes. E eu olho para essa imagem que não sai da minha cabeça e julgo que aquilo não pode ser bom. Não pode. O gozo chega pequeno, mas vai crescendo até se apoderar de tudo. Eu gosto quando chega nas pernas. Já nos pés, me dá um pouco de medo, talvez pela visão dos dedos contorcidos. Imagino os dedos dos pés da ex do Jefferson se entrelaçando cem vezes, sem parar. Não pode ser bom.

Acho que os homens aprenderam que mulher gosta de ouvir “Quero te dar prazer” ou “Pra mim não tem graça se a mulher não goza”. Mas noventa por cento das vezes soa muito falso. Na real, acho que é porque tenho certeza que eles aprenderam a repetir isso. Que falam essa bobeira pra impressionar, como se fosse uma nova versão de abrir a porta do carro. Mas isso não me faz querer descer do carro e abrir as pernas. Me dá preguiça e uma sensação de cansaço absurda. Quando fiquei tão exausta?

Jefferson acredita nisso. O conto da ex que gozava cem vezes é quase um conto de fadas, com moral da história e tudo, pra falar sobre o que ele gosta, sobre o que marca as lembranças dele. Não basta lubrificar e gemer. Ele quer a prova irrefutável de que foi bom. Quer fazer gozar. Eu gosto dele, sabe? Não acho que seja um cínico. O olhar que lança de dentro de mim é o de quem quer agradar. De quem quer me ver tão entregue quanto ele fica quando goza comigo. Só que a expectativa dele me mata.

Não sei amar os homens que me amam, essa é a merda. Não suporto desapontá-los, mas não posso dar isso pra eles. Já tentei. Juro que quis gozar, com gritos e esguichos, com um pau dentro de mim, no entanto, algo dentro de mim se recusa. Diz que não é hora. Que meu gozo é tímido e cruel. Explica que ele é só meu e não prêmio que eu possa dar pra outro.

Ele é só meu, repito aliviada para a menina de 19 anos que um dia achou que era frígida. Estico a frase na cabeça, pensando em todas as revistas femininas que li. Que falavam para relaxar, para não pensar em nada. Às vezes não sei se essas revistas falam de sexo mesmo ou de meditação, é cada uma. Quero ver não pensar em nada com o olhar de expectativa do Jefferson de vigília depois de um gemido mais alto.

“Quero te chupar”, diz apoiando a cabeça no cotovelo e me olhando.

Não, não quer, penso.

“Não tô muito a fim, beibe”, respondo.

“Sério?”, pergunta assustado e, suspeito, também um pouco aliviado.

O susto dele é como um tapa na cara. Não é você que tem todo um discurso feminista? Vai abrir mão do seu prazer agora? É desse jeito que a reação soa aos meus ouvidos. O meu prazer, acho irônico. Ele sabe, no fundo sabe, o que me dá prazer. Ele sente todos os arrepios, todos os reflexos involuntários, a dança, porque há uma dança, do corpo indo ao encontro do outro. Mas é difícil fugir das convenções, dos símbolos. É preciso que comece e acabe. E eu deixo o fim em suspenso. Devo ser chata pra caralho. Mas nem a pau me coloco nessa situação. Consigo até ver os olhinhos me inspecionando. A boca mergulhada em mim. E aí eu ia invocar que ele ficava impaciente e então travaria total. E ia pedir pra parar de chupar e falar algo como “Hoje não é meu dia” e dar de ombros e fazer cara de quem não entendia o que podia estar acontecendo. Sem ter coragem de dizer que era a porra do olhar.

“Eu quero fazer alguma coisa”, ele soltou depois de mais um tempo em silêncio. “Me diz o que tu quer que eu faça”

Deito de lado e puxo ele para se encaixar em mim. Não faz nada, só fica dentro de mim, peço. Pego ele de surpresa, mas ele me obedece feliz.

“Te amo, cara”, ele termina de pôr uma nova camisinha e diz se enfiando em mim. Eu rio.

Ficamos assim por alguns minutos, fazendo movimentos muito preguiçosos.

“Me ama por quê?”

“Por causa da tua buceta”, ele responde depois de dez segundos.

“O que tem ela?”

“É macia, tão molhada e… quentinha”

“Ah porra, Jefferson”.

Quentinha é foda, quentinha é difícil de aturar. Que buceta não é quentinha?

“Shhhh”, ele ordena pra me provocar. E então beija as minhas costas.

“A gente podia ficar assim pra sempre”, digo, não sei se pra ele ou pra mim.


“Um dia vou reunir todos os contos eróticos em uma publicação do medium para facilitar a vida dos leitores”, disse a autora deste conto antes de constatar que estava com muitos trabalhos atrasados.

Mas, antes que organização se realize, talvez você esteja interessado em saber: 1) Esses contos fazem parte de uma só história? Sim. A personagem principal apareceu pela primeira vez no texto Talvez eu não seja voyeur. A ideia, com ela, era desenvolver uma narrativa atual (por isso muito coloquial), que se passasse em São Luís (Chega de Rio e São Paulo!) e que tentasse apresentar uma mulher distante do imaginário da femme fatale. 2) É uma história autobiográfica?Não.

De toda forma, se você gostou desse texto, minha mãe me prometeu um litro de leite de castanha de caju para cada 25 recommends que eu ganho por aqui. Minha dieta saudável está em suas mãos!


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