
As telenovelas precisam aprender uma ou outra coisinha com “Sangue Bom”
Nos últimos tempos, acho que só três novelas conseguiram me fazer acompanhar com ansiedade cada um dos seus capítulos. A Vida da Gente, Avenida Brasil e Sangue Bom. São tramas bem diferentes, mas que ao mesmo tempo possuem algo em comum: uma tentativa de fugir do padrão, quase como manifestos contra a estrutura tradicional das telenovelas. O jeitão de seriado americano de “A Vida da Gente” mostrou que uma quantidade reduzida de personagens não está diretamente relacionada ao ritmo. O apelo popular e a representação “microcósmica” do nosso país em “Avenida Brasil” foi aquele sucesso que a gente ainda lembra, mesmo muito tempo depois do seu fim.
Agora, foi a vez de Sangue Bom dar novo gás ao gênero. O tema central ajuda muito nesta fórmula: o universo das celebridades, em um mundo mundo cada vez mais tomado pelos famosos instantâneos, pela presença da mídia e pelo fim da vida particular. O vai e vem típico da vida de artista apareceu nas tramas paralelas da Mulher Mangaba (Ellen Rocche), Filipinho (Josafá Filho) e Bárbara Ellen (Giulia Gam), que, aliás, mostrou muito do fake e do ilusório da vida glamourosa dos famosos.
Mas, a maior surpresa foi o núcleo central. Fugindo do esquema tradicional que desenrola a trama em torno do casal de protagonistas/antagonistas, a novela foi construída em torno das relações entre seis personagens. Amora, Bento, Malu,Maurício, Giane e Fabinho contaram uma história jovem, ágil e inteligente, abusando das referências (a outras novelas, personagens da vida real, programas de TV) e fugindo completamente de uma visão de mundo maniqueísta — herança folhetinesca que costuma aparecer em novas até hoje.
Apostando em uma construção mais complexa dos personagens, em especial de Amora (Sophie Charlotte), a novela se tornou crível, não duvidando da inteligência do espectador, algo tão comum nas tramas que a gente acompanha por aí.
É só parar pra pensar um pouquinho e perceber que a gente conhece muita gente como os personagens de Sangue Bom, sejam pessoas deslumbradas como Amora, altruístas como Bento,companheiras como Malu, ambiciosas como Fabinho, de personalidade forte como Giane e determinadas como Maurício.
Dizem que ficção é uma realidade que não aconteceu. Esse, definitivamente, não é o caso de Sangue Bom.
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