‘Climas’ e a eterna incompreensão do outro

Na última semana eu revi Climas, que até então era o filme que eu menos gostava do Ceylan. É engraçado como algumas coisas parecem só fazer sentido pleno em determinados momentos da vida ou quando você cresce e compreende o significado porque viveu um pouquinho daquilo tudo. Foi mais ou menos o que eu senti.

Climas estreou no Brasil em 2006, mas só vi o filme um tempo depois, em 2008, quando ainda era um adolescente tardio. Achei toda aquela construção de silêncios um tédio esquecível, algo que a gente tende a sentir quando achar que tem muita coisa a dizer e aos outros só cabe ouvir. Sete anos depois, rever Climas foi como me reencontrar com velhas questões.

O filme começa mostrando um casal, Bahar e Isa. Ele fotografa as ruínas de uma civilização qualquer enquanto ela apenas o observa ao longe, com cuidado e distância. Algo não vai bem e os olhos da protagonista deixam claro que o desconforto reina e que esse relacionamento, assim como todas aquelas colunas, parece prestes a desabar.

Climas trata da desintegração desse relacionamento, dos silêncios e incertezas que constroem um fim. O mais interessante é que aqui o diretor usou a fluência das estações — verão, outono e inverno — para construir esse ciclo de encerramento.

Mas, além da técnica, das belas e longas paisagens, da fotografia minuciosa e tudo o que a gente já está acostumado a ver em outros filmes do Ceylan, os reencontros e desencontros dos personagens talvez simbolizem algo muito mais profundo e complexo: a própria impossibilidade de compreender os sentimentos do outro. É como uma linda pintura que, com as marcas e o movimento natural do tempo, perde o encanto do espectador.

Talvez Climas também pareça exageradamente pessimista e trate da eterna solidão que nos traz a condição humana — por mais que nós dividimos parte de nossas vidas com alguém, ainda existe algo, inflado ou retraído, que é impossível de ser compreendido.

É do movimento desse algo já existente, da atração e da retração dessa incompreensão, que os relacionamentos se constroem ou se destroem.

Climas é uma janela pra compreender um pouco disso tudo.

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