o futebol

Meu tio infartou quando eu tinha 12 anos. Lembro de pouca coisa, na época eu era um menino que passava os dias rabiscando cadernos e lendo revistas de videogame até as páginas perderem a cor. Recolhia flores que cresciam pelos retângulos de terra no fundo de casa, fumava bitucas de cigarro que eram esquecidas pelos cantos, escondia segredos que eu ainda nem sabia. Eu não lembro muito do meu tio. Ele era uma dessas pessoas que raramente sorriam, tinha a barriga estufada como se ele também escondesse coisas que nunca tivesse contado para ninguém. Sua voz era grave, assustadora. Ele almoçava pontualmente às onze e meia, jantava às seis e meia e ia dormir após as novelas. Falava muito pouco, exceto quando vestia a camisa verde e branca e sentava em frente à TV. Eram os anos 90, quando o Palmeiras dele tinha Roque Júnior, Evair, Euller e César Sampaio. Era quando o Palmeiras dele tinha Paulo Nunes e o beque Galeano. Eram anos de vitórias e alegrias, mas eu só sentia muito medo. Da sua voz, do seu jeito explosivo. Eu sentia medo porque no fundo eu sabia que não era um homem como ele. E tinha medo que ele descobrisse.

Na escola, eu sempre tentei, mas nunca fui alguém. Eu era franzino, os dedos dos pés curvavam para a esquerda, eu corria sem ritmo e tropeçava no próprio cadarço — que só fui aprender a amarrar aos 14. Mas eu queria ser como aqueles meninos. Eu queria costurar as linhas, driblar trançando as pernas. Eu queria fazer gols, abraçar os amigos, comemorar vitórias. Eu queria que meu tio soubesse quem eu era.

Mas meu tio infartou. Eu não sabia o que era a morte, eu não sabia que as coisas poderiam chegar ao fim, que os ciclos se fechavam sem aviso, que as catástrofes aconteciam sem previsão. Eu não sabia que existiam incontáveis maneiras de perder. Eu lembro que antes do meu tio morrer eu não sabia o que era para sempre.

Anos depois, talvez cinco, talvez menos, eu vi o Palmeiras jogar. Era um domingo bonito, fazia muito sol, meu pai me vestiu com a camisa que ficou guardada todo esse tempo na gaveta. Ficava grande, nas mangas sobravam pedaços de tecido. Naquela época não era mais o Palmeiras de Roque Júnior, Evair, Euller e César Sampaio. Era um outro Palmeiras, todo o mundo tinha mudado, eu pensei, absolutamente tudo tinha mudado, mas ao mesmo tempo tudo continuava igual. Aquele dia eu entendi que depois daquele domingo, depois daqueles 90 minutos e daquele 3 x 1 no Noroeste, o Palmeiras do meu tio também era o meu Palmeiras.

O futebol não é só um jogo. Ele nos conecta a coisas muito maiores.