Vinho sem preconceitos: Mente e sentidos abertos — por Susana Jhun

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Já faz praticamente doze anos que venho ministrando aulas de Enologia (para quem não sabe é a área que estuda o vinho) e nos últimos anos tenho a sensação que está cada vez mais difícil apreciar o vinho.

O motivo pela qual estou levantando esta questão, não é nem pela dificuldade financeira, pois aqui no Brasil em comparação a diferentes países no resto do mundo, os vinhos têm uma alta carga tributária acarretando em preços salgadíssimos. E sim pela aura de sofisticação e complexidade que tem envolvido o ato de tomar o vinho.

Quem já não leu um artigo de revista ou viu na televisão sommeliers (o profissional especializado no serviço do vinho) degustando vinhos e logo soltando análises complicadíssimas como: “este vinho possui uma alta complexidade com notas aromáticas delicadas de trufas colhidas recentemente nos bosques do Piemonte” ou ainda: “sinto aromas intensos de raposa molhada”… Eu sempre me perguntei como seria o aroma de uma raposa, e ainda molhada! Para as pessoas que exageram nas descrições até de uma maneira prepotente, as chamamos de “enochatos”.

Deixando de lado a brincadeira, a avalanche de termos técnicos e intimidadores fazem com que um apreciador e principalmente os iniciantes tenham receio de tomar um simples vinho, eliminando a possibilidade de apreciar esta bebida que pode ser tão prazerosa. Defendo cada vez mais o ato de tomar vinho para passar por um momento agradável ou como dizem meus alunos, um momento de pura “curtição”.

É claro que não sou contra a degustação profissional que envolve técnicas de análise sensorial, usando os nossos sentidos com determinados critérios para avaliação de um vinho. Mas acredito que deveríamos evitar o excesso de tecnicidade e envolver mais os apreciadores. Assim quem sabe, haveria um número maior de consumidores, o que favoreceria a todos: produtores, importadoras, distribuidores, sommeliers, proprietários de lojas e de restaurantes e principalmente os próprios consumidores.

Se o vinho possui algum aroma específico, não deveria importar tanto quanto passar por um momento prazeroso. Mesmo porque cada pessoa possui uma memória olfativa, que está associada a diferentes experiências de sua vida. Por exemplo, os coreanos (sou natural da Coréia do Sul) podem muito bem associar alguns aromas de vinho com o ginseng. Um brasileiro dificilmente faria esta associação, mas por sua vez, ele poderia “sentir” aroma de jabuticaba, uma fruta exclusivamente do Brasil. Aroma este, que um americano teria muita dificuldade de reconhecer.

Para entender o que parece às vezes um fenômeno, ao “sentir” um aroma, ocorrem dois processos que podem ser explicados de maneira simplificada: captadores nasais são sensibilizados e estimulados. Este estímulo segue ao cérebro e é comparado ao banco de memória, sendo associado a um aroma familiar.

Muitas vezes a identificação de aromas está associada a eventos ocorridos na nossa infância. Numa aula de enologia, um aluno ao analisar um dos vinhos, comentou que “cheirava” como seu avô. Muitos começaram a rir, já que ninguém sabia se era brincadeira, se seu avô “cheirava” bem. Só o aluno ficou sério, pois claramente estava emocionado já que seu avô havia falecido há alguns anos. Após o tumulto inicial, comecei a verificar com este aluno qual era o momento ou imagem exata que o fazia ativar sua memória. A lembrança era de seu avô sentado numa poltrona fumando cachimbo. Concluí, então, que era bem provável que ele havia identificado no vinho aromas de couro, associado à poltrona, e de fumo vindo do cachimbo. O interessante é que neste caso, como em muitos, a associação não é direta a um aroma específico e sim a momentos vividos, principalmente ocorridos na nossa infância.

Para concluir, desejo que todos os apreciadores de vinho aproveitem os prazeres que esta bebida fermentada pode oferecer. Se o vinho possui aromas de trufas ou de raposa molhada, ou se lhe faz remeter à infância ou ainda não sintam aroma algum, não se preocupem, aproveitem o momento.

Ou seja, vamos tomar vinho pelo simples ato de tomar o vinho! Sem preconceitos, com a mente e os sentidos abertos.

Susana Jhun

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