De nada a lugar algum

É tudo muito filho da puta de grande pra gente entender. Você abre os olhos, vê o teto da sua casa e pensa que dali pra cima acabou. Não tem mais nada. O teto, via de regra, é inalcançável. Ou era pra ser. Mas o ser humano transcende, porque terraplanar o Pacífico e salgar a terra leva muito tempo, de modo que acima do teto pode haver outra casa, um sobrado, um sobradinho, uma pousada de três andares, um prédio ou o Niemeyer pensando no que pode ser feito com o espaço acima de nós, porque quem tem tempo caga longe. Mais além temos os aviões e acima deles a coisa se perde um pouco. Aparentemente tem uma camada de ar empurrando a gente pro chão e depois dela tem um vazio escuro que puxa a gente pra cima e deixa todo mundo largado lá. Às vezes seria melhor estar lá. Ou mandar algumas pessoas pra lá. A tristeza é que lá ninguém sobrevive sem um tubo de oxigênio, mas isso pode ser uma vantagem. De repente seria negócio mandar o pessoal mais jovem pra lá. Os adolescentes. Quem conseguir se salvar volta pra casa. Acredito que isso melhoraria a visão de mundo deles. Hoje em dia o adolescente é complicado. Se ele quiser ele te mata. Tem tutorial na internet. Se ele quiser ele dá um golpe na empresa do próprio pai, porque não é da noite pro dia que o sentimento de gratidão aparece no coração do adolescente. Mas a culpa não é toda dele. A globalização chegou de mansinho pra comer o cu de todo mundo e pra cair na redação do ENEM, comendo em dobro o cu de quem dormiu nas aulas de português. Perdeu-se o brilho da descoberta, da espera, do cheiro dos livros, das surpresas em doses homeopáticas, da primeira punheta acontecendo como um ataque epilético silencioso no banheiro da casa da sua tia porque sua prima desceu pro almoço com um shortinho jeans e você começou a convulsionar. A natureza humana vem perdendo seu instinto de sobrevivência aos poucos e isso nos aproxima da extinção. Nossa, maluco, graças a Deus. Aliás, a terceira guerra mundial ainda só não aconteceu porque o ser humano sabe que apesar de pensar mais que uma galinha, na condição de ser humano ele ainda é presa, é carne, dessas que se pega no lugar errado sangra e morre. Bota um touro na frente do seu tio que trabalha no serviço de inteligência de Israel pra ver o que acontece. Já um robô não é presa, é predador. Não atesto veracidade mas li esses dias que no Estreito de Gibraltar o teste de Turing tem sido aplicado em bebês recém-nascidos, porque o pessoal está passando aperto identificando quem é gente e quem é sistema operacional. Tinha mãe amamentando pedaços de placa-mãe, o horror, o horror. Veja você. Um bebê-linux-predador e a gente ainda morre com picada de aranha. Não tem jeito. Por essas e outras eu gosto de pensar que Deus não entra nisso tudo, Deus é uma coisa separada. Se Deus faz alguma coisa isso acontece lá no início, no berçário-de-todo-mundo, onde ele olha pra você e não te entrega um dom, mas uma dificuldade do tamanho de um míssil em formato de piroca inacabável pra que a partir dela você prove que merece passar o resto da eternidade ao lado do divino Espírito Santo. Mas isso tudo é uma questão de ponto de vista. Há quem goste de dificuldade. De piroca também.