Depressão dominical

Quer saber o que vai acontecer? Vou te contar. Tome nota.

O carnaval acabou, amado. Na quarta-de-cinzas eu vou acordar ao seu lado te olhando com toda a indiferença que me é característica. Seu rosto sempre me pareceu uma pequena obra divina completamente assimétrica, mas nesse dia eu só vou conseguir reparar em como suas olheiras são fundas e escuras, como seu nariz é torto e como sua barba me incomoda. Será que é ela, sua barba, o problema de tudo? Trabalhe a imagética: você vai acordar miserável e me ver com cara de desgosto, vidrada em você como se estivesse tentando enxergar algum traço seu no escuro. Serão 9 horas da manhã.

Na quinta-feira o dia será inteiro preenchido com qualquer notícia que brotar na tela do celular. Viu o que o presidente falou? Não vi. Não vai perguntar o que o presidente falou? Não. Na décima tentativa falha de interação um de nós vamos mandar o outro à puta que o pariu e nesse instante quem ceder primeiro vai pro sofá — e eu vou fazer questão de me levantar, porque de um tempo pra cá a cama ficou quente demais e pequena demais e ruim demais pra ficar ao seu lado. A luz do quarto é também forte demais; na sala a iluminação é mais tranquila e fica por conta de um poste em frente à janela do apartamento. Não tem ar-condicionado e o sofá é quente e feio, fruto do seu extremo mau gosto, mas só de não ver sua cara de bunda eu já consigo fechar os olhos e sentir a brisa da Praia do Rosa fazendo meus cachinhos voarem longe.

Na sexta-feira você vai fazer questão de deixar o porteiro contra mim porque você é orgulhoso e burro, terrivelmente burro, irremediavelmente burro. Nesse tempo todo eu nunca consegui achar uma doença, um remédio sequer que justificasse a dimensão abissal da sua estupidez. Nesse dia o café vai sair fraco demais ou doce demais e eu vou estar de joelhos rezando pra você fique furioso e saia de casa pra ir tomar café em alguma padaria que fique a pelo menos dois estados de distância de mim.

No sábado você vai chegar atravancando o que muito provavelmente será o melhor episódio da minha série favorita e contar que me traiu, enquanto eu estiver comendo um doce qualquer depois do almoço num estado de graça que só minha própria companhia me possibilita atingir. É possível que eu pare de mastigar e mova os olhos na sua direção como quem não ouviu direito, mas acho difícil. É possível que eu finja não saber há tempo. Mais difícil ainda. Nessa mesma noite sua mãe vai me ligar pra perguntar onde você está porque não teve notícias suas o dia todo e eu até vou ter a oportunidade de contar que você está chorando e pedindo perdão em cima de mim há aproxidamente sete horas, mas vou preferir dizer que você saiu com seus amigos e que eu também estou saindo em 15 minutos, não vai dar pra falar muito, mas fique tranquila que o pedaço ambulante de carne que você pariu está vivo.

No domingo nós vamos nos deslocar no tempo e voltar pra nós, quando o carnaval ainda era a melhor parte do ano. É impossível atravessar um domingo sem amor.