Erudição disfuncional

A verdade é que eu nunca entendi o que você quis dizer.

Depois de descobrir que você come os camarões do prato na fila do buffet enquanto não chega sua vez de pagar, que você tem uma filha e que você se apaixonou por mim no momento em que me viu, lembro que você virou a única coisa, o ponto fora da curva, o girassol em meio ao sertão. Apesar de tudo, eu nunca entendi o que você quis dizer.

À época, quando li o texto que você escreveu sobre nós, não entendi uma frase sequer. Sabe como é, eu te achava inteligente demais e articulado demais e erudito demais pra cogitar que o problema fosse contigo. Eu não tinha a sensibilidade que a sua desenvoltura exigia e você parecia ter uma técnica diferente, algo só seu. Agora vejo que chamar aquilo de técnica é, muito provavelmente, uma ofensa a tudo que a literatura nos permite criar.

Hoje, cinco anos depois, entrei no seu blog e procurei aquele texto. Li uma, duas, três vezes, me emocionei e percebi que não há uma só frase ali que faça sentido. Não sei como não concatenei isso antes, mas você conseguiu produzir algo que se comporta exatamente como você se expressava: sem estrutura, sem nexo e numa via de mão única. Esses dias alguém me disse que pra ser feliz nós precisamos de cinco coisas: pertencimento, propósito, transcendência e mais duas que esqueci. Ora, eu sinto que pertenço à arte quando consigo extrair dela um sentimento, uma ideia, qualquer merda. Mas, meu bem, você tem seríssimos problemas de comunicação. Sua produção inteira é uma piada interna de você consigo mesmo, um monólogo seu que só você entende. Te cabe mais um diário que qualquer outra coisa. Isso é triste, porque não é como se você não tivesse potencial pra ser um pouco menos cretino. Não é como se você não tivesse sido alfabetizado.

A verdade é que o amor deixa a gente patético. E você sempre escreveu mal pra caralho.