A redescoberta do mundo em O Começo da Vida

Quem ensina e quem aprende nessa tal de vida, afinal

Está lá por volta dos 55 minutos, embaralhado e talvez ofuscado entre momentos que transmitem de forma bem mais exposta a mensagem macro do filme, o recorte que ressignifica silenciosa e discretamente O Começo da Vida — incluindo o próprio nome.

E é de Vea Vecchi, a italiana apresentada como “atelierista” (palavra desconhecida e esquisita), a voz rouca que apresenta o pensamento. Por coincidência ou não, é dela também a primeira voz “adulta” do filme, que inaugura toda a discussão:

Cada criança que nasce é uma espécie de surpresa para a humanidade. E, na minha opinião, é com esse espírito que devemos acolher as crianças.
Aquele olhar que diz: descobrir pode ser muito mais divertido que saber

Com uma pesquisa rápida, descobre-se que o “atelierista” de Vea Vecchi se deve a seu trabalho de defesa e aplicação dos ateliês (espaços de arte) no processo educacional das crianças, numa abordagem construída de modo a valorizar a criatividade e a linguagem visual. Em lugar de métodos generalizadores de ensino, é trabalhada a potencialidade de cada criança, individualmente. Uma abordagem educacional já reconhecida como a melhor do mundo, inclusive — e que merece uma análise muito menos superficial que essa, de cinco linhas (deixo-a pros estudiosos da área). O importante é reconhecer que um processo como esse não acontece sem o entendimento profundo do olhar infantil e, principalmente, de como ocorre o aprendizado nos primeiros anos da vida. Ao entender como a criança capta e absorve o mundo a sua volta, compreende-se também que a interação sadia com ela exigirá de nós por muitas vezes o exercício do “não saber”, retirando do adulto aquela necessidade constante de alimentação do ego, da vaidade, do vício pela exposição do conhecimento adquirido. Vejo tal ideia simples e perfeitamente retratada no recorte dos mais-ou-menos-55-minutos:

Observar as crianças e fazer esses diálogos com elas torna o cotidiano extraordinário, torna extraordinários os atos simples. A chuva pode se tornar uma coisa interessantíssima, a luz que muda… Viver com as crianças, estar com elas, é uma espécie de redescoberta de muitas coisas. Mas o adulto precisa continuar a se encantar também com um pedaço de papel alumínio de chocolate, sabe? O adulto deve continuar a se encantar com essas coisas.

Se lembra quando disse, no início, que a fala ressignificava o próprio nome do filme? Pois bem, aí está. O Começo da Vida pode se referir aos primeiros anos da infância e à necessidade latente de reconhecer a importância destes para a construção da humanidade que queremos, como primeiro se pensa; mas não é também um alerta pra nós, os gente grandes? É aí mesmo, na fala de Vecchia, que mora o começo da vida (ignorando qualquer barreira etária); mais precisamente, num pedaço de papel alumínio de chocolate. Começar a vida é encontrar a capacidade de se encantar com o extraordinário do cotidiano. Para isso, os 21, 40 ou 65 anos não contam em nada.

Ainda naquela mesma pesquisa rápida e superficial, encontro Vea tratando de “[…] um olhar que descobre, que admira e se emociona”; que “é o contrário da indiferença, da negligência e do conformismo”. Fica enfim escancarada a urgência de ser criança. Há um mundo novo pra (re)aprender: que aprendamos com os olhos observadores de quem, na mais humilde pequenice, está aqui para dar as lições.

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