O que a idade faz; o que o simples ensina

Enfim, 26. Recordo-me de um desejo que carrego desde criança, surgido normalmente junto à contagem regressiva do dia do meu aniversário, de que a data do nascimento pudesse ter um efeito real, imediato e marcante em nossa existência, de modo que não pudéssemos ao menos pensar em fugir. Explico-me melhor. Quantas vezes — tenho impressão de que vale muito mais para as idades pós-18 — somos pegos com a pergunta “e agora, como se sente com x anos?” (na equação, x equivale àquela idade despretensiosa que você nem viu chegar e foi surpreendido com a notícia de que já estava lá); na ocasião, normalmente após curta pausa para reflexão — leia-se busca desesperada por qualquer sinal instantâneo de mudança — segue a conclusão tão sincera quanto dolorosa: apenas, “velha(o)”. A solução deste pequeno grande problema cotidiano seria, enfim, simples: acordar no nosso dia sendo tomado pela sensação inesquecível de uma nova idade, cada uma com seu peso específico e jeitinho especial de ser. Sentiríamos assim ao menos uma prévia do que esperar dos próximos 365 dias e, como bônus, poderíamos responder a qualquer uma das perguntas-padrão feitas a um aniversariante. Há de se concordar que aniversários se tornariam, no mínimo, mais memoráveis.

Talvez por não ter sido presenteada com a facilidade de saber o que esperar dos meus 25 quando pela primeira vez acordei com eles, somente hoje, ao primeiro dia de meus 26, tenho a melancólica sensação de não-aproveitamento da vida. Devo acreditar que 365 dias passaram, mas não consigo formular resposta para a pergunta: onde estive em metade deles? Crendo na improbabilidade de que tenham sido vividos por outro em meu lugar, sou obrigada a crer que dias — muitos deles — foram desperdiçados em nome de não-sei-o-exatamente-o-quê.

Penso que algo no mundo, no inconsciente, nas outras pessoas ou no ar que respiramos hoje nos leva a pensar e viver em algo que não o agora, por mais que pensemos vivê-lo enquanto nos levantamos e fazemos tudo sempre igual, muitas vezes com técnica e maestria. É assustador e pouco crível o pensamento (para não citar a carga clichê), visto que não achei estar fazendo nada diferente de viver meu presente normalmente, dia após dia, enquanto os breves 25 passaram. Não quero afirmar que todos os dias deveriam ter sido preenchidos com a maravilhosa descoberta de 43 coisas novas, a indescritível sensação de ter ajudado 97 pessoas ou o ato heroico de ter melhorado 14 defeitos — também não ouso afirmar que não teria sido agradável se sim — , mas resta no fim a incomplitude (na falta de palavras, corajosamente inventamo-as). Faltou algo que deixasse a garantia de que o tempo correu no tempo certo, em tempo.


Cinco dias correram desde que larguei as palavras acima soltas no caderno velho que não ousei fechar, já que a conclusão nenhuma havia chegado. A presença dos rabiscos sobre a mesa durante a semana me permitiu a lembrança constante do desabafo e possibilitou ainda o exercício de focar as atenções para meus dias. Tanto os passados (aqueles dos 25) quanto os que estava vivendo.

O exercício tinha metodologia simples: procurar a lembrança das coisas que passaram e o que realmente ficou destes dias, em lugar de sofrer pelos outros que tristemente não lembrava. De início, achei estar reunindo elementos desconexos e fracos; por fim, sem cobranças e espontaneamente, encontrei o que precisava para voltar a este caderno e deixar algumas palavras de autoconsolo que me permitam fechá-lo ou, ao menos, passar a página (ainda sem medo dos clichês).

Todo o segredo reside naquilo de que não me dei conta, mas que estava muito sincera e profundamente absorvendo. Minhas lembranças consistiam em tudo o que há de simples: aquele dia em que chorei de rir do térreo até o meu andar no elevador por conta de uma reação de minha amiga para um comentário meu; o dia em que fui surpreendida com um café pelo meu colega de trabalho que não sabia que eu estava no andar debaixo sonhando com algo que me acordasse naquele dia pesado; quando minha mãe tentou ajustar a cadeira do cinema e quase foi parar no colo da pessoa de trás; aquela música com barulhinho bom aos 50seg que descobri na playlist de um desconhecido e que me acompanhou por três meses seguidos, até eu cansar; quando me trocaram de lugar no trabalho e a felicidade de ficar de frente para uma janela que me permitia ver, todos os dias, aquele pug malhado e sua dona sempre bem vestida passeando às 11h; a lista segue com outros recortes indescritíveis, de tão mínimos e simplórios. O que fez valer a pena não caberia num livro de memórias, não tinha lógica aparente e, muito menos, cerejas no topo; soa padrão, bobo e entediante. Mas, adivinhe: não tem a menor importância pra mim.

Quero 26 anos de recortes simples de vida, fragmentos sutis de cotidiano que me permitam perceber quão valiosos são os momentos mais banais. Não creio estar pedindo muito — e é reconfortante saber que só depende de mim. Um aumento e umas roupas novas, porém, também não seriam ruins.

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