Eu não sei

Meu diário

Eu estava com muitas palavras pra sair pela boca, mas com sede demais para conseguir abri-la. Meus lábios, também, já não aguentavam mais essa sede. Mas eu vivo com essa, é normal, é natural, faz parte dos dias que eu esqueço minha garrafinha de água em casa e esses dias são muitos. Alguns dias eu simplesmente não sei onde a perdi, ficando em dúvida se deixei-a cair caminhando pelas ruas ou se esqueci em casa.

Seria exagero dizer que é mais fácil encontrar algo que perdi na rua do que na minha casa, mas seria algo que minha mãe falaria, e até que ela tem um ponto nisso. Muitas coisas foram perdidas em casa, na própria casa que durmo e passo uma até considerável quantidade de tempo, e algumas outras foram perdidas na rua. Não encontrei a maioria dessas coisas, e isso significa que, tanto em casa quantos nas ruas, eu perco muitas coisas e nunca as encontro. Mas perder as coisas em casa é estranho, em casa é o lugar que eu guardo as coisas para não perdê-las. Então elas simplesmente se perdem onde elas deveriam estar guardadas?

Minha casa também é lar das coisas esquecidas. Da identidade esquecida, do dinheiro esquecido, garrafinha d’água esquecida, marmita para o almoço esquecida, jaleco esquecido, xuxinha que (minha nova amiga, mas que mal temos tempo para nos encontrar porque) esqueço muitas vezes, óculos de proteção… A lista tem um fim, mas não é meu propósito chegar nesse fim. Apesar de tudo, nunca esqueci tudo isso. Um dia esqueci a mochila, mas ainda estava com os trocados da passagem no bolso. Outro dia esqueci de trocar as calças de moletom rasgadas que uso pra dormir pelas calças jeans que costumo usar para ir pra aula, mas não esqueci a mochila.

Usar calça jeans no Rio de Janeiro parece ser meio complicado, e realmente é. Acordar às 4 da manhã e apenas sentir o ar livre novamente quando o sol encontra seu ponto mais alto no céu faz com que eu tenha umas sensações estranhas. O dia começa muito frio e termina muito quente, e eu tenho dificuldades de conseguir conciliar esse clima com o que decido vestir antes de sair de casa. As calças jeans são meio incomodas e não combinam com o calor do meio dia, mas são aconchegantes no frio da madrugada e o frio (desnecessário) dos ar condicionados ligados nos ônibus às 5 da manhã.

Uma das poucas coisas que ainda me restam da minha existência, que me ligam a esse mundo e o que acontece com ele e como isso me influencia é o que eu ouço, leio, escrevo e sinto. Por algum tempo já não sei mais dizer o que estou sentindo em dado momento quando alguém ocasionalmente me pergunta. Não porque está tudo confuso dentro de mim, mas é porque parece que não há nada dentro de mim. Quando me perguntam como estou, tenho vontade de responder nada… Mas não faz muito sentido, né?

Vocêu

Você e eu eu e vice você e eu você e eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu eu você você você você você você você você

A

A

A

A

B

Mama

Mamãe

Eu eu eu sinto?

Eu sinto?

Se eu choro por nada sentir,

Eu sinto?

Que dificuldades de escrever

Que dificuldade de sentir

Que dificuldade de amar

Que dificuldade de querer

Que dificuldade de andar

Que dificuldade de comer

Nunca tive dificuldade em me importar com você

Vem com tudo vem sempre

Que penso em você

O que

O que é ser

O que sou

O que somos

O que seremos

Para onde vamos

Por que perguntamos

Por que existo

Por que não sinto

Se não sinto, não existo?

Não foi isso que Descartes falou

Descartes falou de pensar

Mas não sei se ainda faço isso também

Descartes falou alguma coisa sobre não ser mais você e tentar imitar quem você era no passado?

Porque eu tenho que reagir, tenho que rir com a piada, sorrir quando me dão bom dia

Esse sou o eu

Se eu deixar tudo isso ir embora

Não não serei ninguém

Simplesmente

Não serei mais

Os filmes estão errados

Quando dizem que estão certos

Quando dizem que aquele amor é o amor amor

O amor amor não deve ser padronizado

Porque o amor amor amor depende do amor amor dentro de você

E você ama ama ama ama e não percebe

Independente de como você viu o vampiro seduzir a mocinha do filme…

Será que podemos voar

Um dia na igreja eu queria perguntar. Riram de mim, eu era criança.

Outro dia quis orar. Riram de mim, eu era criança.

Outro dia quis brincar. Me deram bronca, não se pode brincar na igreja.

Outro dia quis conversar. Crianças não podem interromper a palavra do senhor.

Outro dia quis… Você já sabe o resto.