sobre o medo do mar

Fui, sem desejo de ir, ao encontro das pessoas as quais me propus a encontrar, como também ao encontro do corpo mais indelével e misterioso da Praia de Iracema: o próprio, o mar.

A falta de desejo não era asco, também não era medo. Era mais uma vala. nós não estávamos em dia de conversa. cada um na sua. por força do convencimento desafiei esta impressão e me deixei aproximar da água. Ela não me acolhia, antes mais me expulsava. O mar rangia de raiva, as ondas batiam com força.

Tenho uma mania que não é minha, de me propor desafios os quais não quero, seja pra me sentir melhor, ou pra me sentir parecida com os outros corpos. Às vezes é um desejo de alegria eufórica, as vezes é a malandragem, o charme da malemolência que vem dela, onde tudo parece possível e escorregadio ao mesmo tempo; as vezes é só o próprio desafio de me vencer, de ganhar de um eu que não consegue dialogar com grandezas e forças desconhecidas. então, seguindo cambaleante, os rastros dos que vadiam na ponte velha, eu tentando me parecer com eles ou por alguma outra das razões ditas,me proponho a pular. E é sempre isso. Primeiro pulo: tudo desconhecido, mar desconhecido. Segundo pulo (quase sempre logo em seguida do primeiro): um mar mais amigo, um pouco mais próximo, um vizinho novo, se se passa mais tempo entre o primeiro e o segundo pulo(pois nem sempre acontecem no mesmo dia), o segundo pulo volta a ser primeiro. Então é outro mar e o medo é novo também.

Eu olho pro mar, vejo toda imensidão da superfície e me assombro, muito mais pela dimensão superfície abaixo, que eu não tenho como saber nunca. Eu tenho que pular. Não é mais um desejo, uma ação que tenho escolha. É um trato. Tirar a roupa, já estar com roupa de pular. Me aproximar da incontinuidade da ponte. Olhar o mar que me espera. Eu me desespero, minhas mão gelam, e este processo de escrita recria este momento, tanto que agora as mãos estão suadas e frias. Quero desistir, mas não posso mais. Eu não posso quebrar o trato. Este ritual já é o próprio trato. Eu nunca sei o depois.

O mar vai me acolher? Vai me abraçar numa corrente ou nos cabelos de Yemanjá e me levar? vai me bater? me empurrar? Eu nunca sei. E o desconhecido de toda forma me assusta. primo da morte, inexplicável, indizível, inconfessável, inimaginável, improvável e provável como a vida e tudo que ela abarca. Então eu olho pro mar e é uma conversa sobre isso. eu converso com a morte através do mar. E é um quê de se jogar pra morte, é morrer até cair na água e voltar a superfície. É um nada, um breu e um grito de pavor até a água envolver o corpo. A gravidade agindo sem foça contrária, não ter chão, não ter água. O meio termo entre o ato do pulo e o tocar da água. O desejo de pertencimento me empurra, me faz rogar pra que eu pule logo e passe por todo esse ritual. pular é morrer pra nascer.

Vejo algumas pessoas tão íntimas do mar que pulam de cabeça pra água, entram lindo no mar, deslizam na água, o mar parece tão próprio, amigo íntimo. Era isso que eu queria também, essa relação que não é minha. Mas eu desejo. É cruel e violento a apropriação de uma corporeidade sem processos equivalentes. Apropriação não é mesma coisa que aproximação. na aproximação se trás suas experiencias junto, por ser concebível que a dissociação delas é impossível, assume-se.

Um ator morreu afogado no rio são francisco, uma figura pública, notável, cheio de coisas por fazer, ainda distante do fim do ciclo da vida, como aprendemos nas aulas de ciências, e isso me colocou de frente pra fragilidade que sou eu diante do mar. O ator foi arrastado para as profundezas. A água simplesmente mostrou a força do seu braço de ante de um mero ser humano. Quantas vezes eu me envolvi com tanta água sem entender o que fazia? ignorância? Dá pra confiar cegamente e se entregar de corpo pra esse senhor de barba branca e dedos de concha? Dá pra chegar em acordo?

Por hora eu penso em que agenciamentos acontecerão até que eu queira pular novamente. Por hora não.

relato/ confissão por Patrícia Lopes

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