Reflexões do Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto

Começou ontem, em São Paulo, o II Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto promovido pelo Vox Capital e Instituto da Cidadania Empresarial (ICE). Um dos 05 maiores eventos sobre o tema no mundo, com 750 participantes e transmissão ao vivo via youtube, o Fórum busca refletir sobre os indivíduos e organizações que buscam resolver problemas sistêmicos e complexos através de produtos e serviços e os desafios de atuar neste setor.

Mesa de abertura no primeiro dia do Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto.

Daniel Izzo, diretor do Vox, ressaltou na abertura o desejo de fomentar a criação de negócios que sejam agentes de transformação positiva e Célia Cruz, presidente do ICE deixou clara a necessidade de incorporar a diversidade, aceitando as diferenças para criar soluções concretas, conectando os diferentes ecossistemas para criar um bioma mais saudável e eficaz.

Tendo participado do I Fórum, quando o clima era de conhecer um setor para muitos desconhecidos, hoje o sentimento é de que em dois anos o crescimento foi exponencial e é chegado o momento de analisar o cenário, identificando erros e acertos, buscando ressaltar os aspectos mais relevantes. Neste Fórum, o Impacto é o grande tema: como garantir que ele existe? Como garantir que é positivo? Como garantir que é relevante? Como garantir aderência na comunidade em que será realizado? Como definir indicadores e mensurar? Como comunicar de forma eficaz criando valor para todas as organizações envolvidas?

Andrea Armeni da Transform Finance ressaltou a necessidade de transparência e clareza sobre o impacto gerado por cada um dos negócios para que não se caia na crítica da “nova colonização”. Ressaltou a necessidade de mudança de mindset para que as soluções sejam criadas COM as comunidades e que elas façam parte da sua execução. Quem vive o problema é quem melhor sabe como resolvê-lo. Andrea ressaltou ainda que é preciso criar condições para construir soluções com estas pessoas, transformando por dentro.

Para Neca Setúbal da Fundação Tide Setúbal é necessário preservar os ganhos sociais e ao mesmo tempo avançá-los, direcionando investimentos de forma focada, integrando os diferentes atores e principalmente os jovens sob a perspectiva da complementariedade. Ressaltou que a pobreza é multissistêmica, que há uma população que desconhece completamente o que são empreendimentos de impacto positivo e que muitos empreendimentos são gerados desconectados do ambiente do problema, sem conexão com a realidade. É preciso, portanto, segundo Neca, criar condições para conexões, transpondo a distância geográfica e de cabeça.

Maure Pessanha, diretora da Artemisila deixou clara a necessidade de referenciais e exemplos com quem seja possível dividir uma visão de país e de criar parcerias com arranjos criativos.

Está claro que temos diversos atores atuando com diferentes estágios de maturidade. Está claro que o setor vive um momento de amplo crescimento com novas organizações surgindo mas também com organizações tradicionais se reinventando a partir da perspectiva da revisão das suas propostas de valor, trazendo o seu propósito para o centro do empreendimento. Torna-se urgente conectar todos estes atores: empreendedores, aceleradoras, incubadoras, fundos, governos, organizações da sociedade civil e academia.

Para Henrique Bussacos do Impact Hub para fortalecermos esse ecossistema precisamos ter uma agenda comum com indicadores compartilhados, atividades alinhadas, comunicação contínua e organizações que ofereçam suporte.

Neste cenário Florianópolis é um case a ser estudado. O seu pólo de inovação tem um crescimento de 25% ao ano. José Eduardo Fiats da Fundação CERTI, ressaltou a necessidade de fomentar a interdisciplinariedade e criar ambientes que conectem mercado, capital, talento, informação e aprendizagem.

No contexto dos negócios de impacto o papel do investidor é extremamente relevante por ser ele capaz de prover um ambiente de segurança para que o empreendimento amadureça e construa sua longevidade.

Paulo Bellotti, sócio da MOV Investimentos, indicou que para realizar o aporte de recursos num empreendimento é preciso que exista uma combinação entre relevância do problema, grau de vulnerabilidade social e ambiental, indicadores financeiros positivos, uma equipe executora comprometida e alinhamento entre o empreendimento e a tese de investimento do fundo.

Em muitos dos empreendimentos o investimento significa aquisição de quotas ou seja, tornar-se sócio. Cria-se a necessidade de maior transparência, de gestão eficiente e de flexibilidade para mudar o rumo da estratégia, “pivotar”, sempre que necessário. Paulo Bellotti e Daniel Izzo do Vox concordam que a equipe é o coração do empreendimento e precisam ser pessoas apaixonadas, comprometidas e com uma vontade genuína para resolver problemas sérios. O compromisso com a causa precisa estar em primeiro lugar. Quando aliado à capacidade executiva, ao relacionamento e ao timing do mercado, a probabilidade de sucesso é alta.

Ao final deste primeiro dia o sentimento é de que apesar do grande crescimento destes últimos dois anos ainda temos um longo caminho pela frente repleto de desafios.

O Brasil é um país de dimensões continentais, com problemas profundos de base, com uma diversidade de cultura empreendedora clara. Existem muitas organizações desconectadas de todo este cenário e muitas das organizações que começam a surgir (sejam empreendimentos ou incubadoras) têm dificuldade de acessar pessoas e organizações que possam contar a história até aqui. Neste contexto torna-se urgente criar pontes e elos entre fundos, startups, incubadoras e aceleradoras e organizações sem fins lucrativos e movimentos sociais. É enorme o potencial de aprendizagem e alavancagem do setor que pode ocorrer a partir desta conexão.

Torna-se também urgente ampliar a transparência, compartilhar estudos, mapeamentos, aprendizados, criar, efetivamente, uma comunidade de suporte, principalmente para as organizações intermediárias (incubadoras e aceleradoras). Fica clara também a necessidade de investimento nas incubadoras e aceleradoras para que consigam dar suporte ao aumento exponencial de empreendimentos que necessitam de cuidado, orientação e conexão.

750 pessoas estão reunidas porque acreditam no poder da transformação positiva, porque têm a certeza de que já vivemos um tempo em que empresas existem para servir a um propósito e entregar um valor à sociedade, porque compreendem os desafios do mundo complexo que vivemos e estão dispostos a assumir um protagonismo. Precisamos agora é nos unir e trabalhar em rede, aprendendo e colaborando, um fortalecendo um outro. Precisamos construir um setor em que não existe competição, resignificando a relação dos semelhantes para que sejam parceiros. Precisamos inovar no nosso relacionamento enquanto pares reconhecendo no outro um potencial de aprendizagem, troca e potencialização de todo um ecossistema. Precisamos reconhecer a riqueza da diversidade e construir um cardápio coletivo de experiências. Se queremos deixar de ser “nicho” o encontro, a troca, o diálogo precisam ser contínuos, diversos e inclusivos.