Reflexões sobre o Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto

Painéis, diálogos, encontros temáticos e bate-papos de corredor repletos de inspiração, questionamentos e profundas reflexões. O desafio de atuar em algo novo, ainda em formação é estar pronto para as mudanças que podem acontecer no meio do caminho e essa é uma característica inerente a quase todas as pessoas que circularam no Fórum.

Mesa de encerramento do segundo dia do Fórum de Finanças Sociais e Negócios de Impacto

São muitos os conceitos que rodeiam esta temática: negócios sociais, negócios inclusivos, negócios conscientes, setor 2,5, setor B, finanças do bem, negócios de impacto positivo, finanças sociais…..e ainda se inserem nos conceitos de economia colaborativa, economia circular, economia criativa, wikinomia….independentemente do conceito adotado o que percebi nestes dias é que temos claramente um movimento de indivíduos e organizações que buscam:

· Inovação social

· Mensuração clara de impacto (quantitativo e qualitativo)

· Sustentabilidade financeira

· Eficiência em modelos de gestão

· Transparência

· Envolvimento de todos no desenvolvimento, execução e avaliação da solução

Se a combinação destas características tem escala e gera lucros significativos existe um interesse de investimento por parte dos fundos de venture capital e endowment. Se essa combinação gera lucros que viabilizam uma vida digna para quem empreende, sem a expectativa de escala, existe a necessidade de investimento através de micro-crédito. E tem-se ainda a possibilidade desta combinação ser realizada por uma organização ou indivíduo, sem fim lucrativos mas com fim econômico, buscando realizar outras ações positivas ou a criação de um fundo. Nestes casos o recurso precisa ser viabilizado pela filantropia.

O que fica claro, ao final destes dois dias é que não é a realização de um único modelo que irá transformar a nossa cidade, estado ou país. Precisamos de todos eles co-existindo. Projetos de grande alcance têm o seu papel, mas não podemos esquecer que a verdadeira e profunda transformação acontece na microeconomia, nos micro, pequenos e médios empreendimentos que promovem o desenvolvimento local. Como bem disse Bernardo Bonjean, empreendedor da Avante, “precisamos investir em quem é a locomotiva deste país”.

É fato que precisamos investir na sensibilização de todos para transformar a cultura de doação no Brasil. E o André Degenszajn do Gife ressaltou a responsabilidade individual no investimento do dinheiro, segundo ele a cultura de “confiar e entregar ao sistema financeiro” significa uma omissão ao impacto que este recurso pode gerar. “Cabe ao indivíduo decidir aonde vai colocar seu dinheiro” e para isso precisamos procurar os bancos, ativamente, e nos posicionarmos enquanto clientes que buscam um produto que eles “ainda” não ofertam.

Um dos principais temas de análise neste segundo dia e pauta em quase todos os diálogos (mesmo quando não era o tema principal) foi o desafio da avaliação e mensuração do impacto. Daniel Brandão, da MOVE, ressaltou que “é a avaliação que legitima um negócio como efetivamente de impacto social”. Segundo ele “não existe um conceito único sobre impacto e avaliação de impacto. Há uma pluralidade de visões que são convergentes. Cada negócio ou incubadora tem por direito buscar sua definição de impacto social e, a partir daí, desenvolver sua avaliação”. Para Daniel, “cada avaliação é única e exige modelagem específica. Plataformas e ferramentas universais são viáveis hoje para modelos de monitoramento”. Ele ressaltou ainda que “exigir que os próprios negócios financiem e gerenciem avaliações não é justo. Esta é uma responsabilidade a ser assumida por fundos ou instituições intermediárias, que devem adotar modelos participativos”.

É o monitoramento e avaliação feitos de forma séria e comunicados, gerando transparência, que nos permitem separar as iniciativas que efetivamente promovem a transformação social ou não. Sem esse mecanismo corre-se muitos riscos, inclusive da necessidade de retorno financeiro mascarar o impacto positivo gerado na sociedade. Ao avaliar é preciso ter o cuidado de não olhar simplesmente para indicadores quantitativos, brutos, a integração destes com indicadores qualitativos e análises a partir da observação e escuta são essenciais. Como dito em um dos painéis: “a métrica é uma ferramenta e não podemos parar na métrica”.

E num evento em que os próprios organizadores pediram que todos fizessem provocações que gerassem reflexões importantes, o encerramento chega com a grande provocação do Celso Athayde da CUFA/Favela Holding: “Os investidores precisam decidir o que querem: se querem criar impacto real ou seguir promovendo a meritocracia. …. O impacto só vai existir realmente se a gente acabar com o gap da desigualdade e para isso os empresários precisam entender que quem sofre as consequências das diferenças precisam ser parte e protagonistas da mudança. …. Precisamos dividir com a favela todas as riquezas que geramos ou teremos que eternamente viver com as consequências das diferenças”.

E eu chego ao final com o sentimento de que precisamos de menos rótulos, menos adjetivos. De que precisamos encarar o fato de que estamos vivendo um novo tempo, em que o alinhamento entre propósito individual e organizacional precisa existir, em que não faz sentido termos organizações que não minimizam seus impactos negativos e não têm uma missão clara com impacto real. Estamos vivendo um tempo de resgate da essência (seja da vida, da organização, do território) e da colaboração. É impossível fazer sozinho e é a riqueza da complementariedade e da diversidade que promovem o sucesso e a transformação. Estamos vivendo o momento da transparência, da exposição da verdade a partir da comunicação e da tecnologia.

Estamos vivendo um novo tempo e neste tempo só existe espaço para organizações que promovam a inovação social e a sustentabilidade! Esse é um movimento sem volta! Portanto, se você investidor, gestor, empreendedor, estudante ainda não se deu conta da mudança que acontece ao seu redor, olhe em volta…novos modelos florescem com crescimento exponencial.