Nós dois

Ás vezes, quando estamos angustiados, procuramos textos que expressem toda a nossa dor. Eu procurei muito, mas não consegui achar nada que transmitisse tudo o que estava preso em mim. Então resolvi escrever. Mas essa ação que sempre aliviou meus anseios, não foi o suficiente.

Fui para a sacada do meu quarto, aquela que minha mãe sempre reclamava que eu não abria, e olhei para o céu procurando uma resposta. De novo sem estrelas, mas repleto de significados.

Era sábado à noite e minha rua, contrariando todas as expectativas, estava movimentada. Via pessoas passando e deixei minha mente passear sobre como seriam as vidas desses desconhecidos. Suas feições de alegria me fizeram devanear.

Aquela ruiva, que bebericava algo que eu achava ser Vodka, sorria em direção a um garoto. Eu tinha certeza que ela estava apaixonada por ele. Isso foi o pontapé para eu imaginar uma história de amor para eles com um final tão perfeito que eu ansiava para que o final da minha história com o seu amor fosse assim.

Desisti de criar finais felizes e as portas da sacada foram fechadas por mim com mais força do que eu gostaria. Na verdade, por mais que eu negue em voz alta, coloquei brutalidade naquele ato para tentar desmanchar toda a linha do tempo do nosso romance que surgiu inevitavelmente em minha mente.

Romance? Acho que se você ouvisse eu me referindo a “nós” como se tudo fosse uma grande novela ou um livro com um final surpreendente, você ficaria bravo. E me permito rir, porque sei que esse sentimento viria acompanhado de um bico, que eu costumava brincar ser o mais lindo do mundo.

Tentei escrever de novo e me lembrei de certa frase de um filme que eu vi na Netflix. A personagem dizia que não conseguia dormir, comer ou se focar em nada, porque sentia muita falta do mocinho, que tinha ido fazer faculdade em outra cidade. Eu lembro que no dia que ouvi tais palavras saindo da boca da Alexis Bledel, julguei a sociedade e os roteiristas por retratarem amores tão dependentes. Mas, em meio a dor, eu entendi.

Eu entendi que a saudade machuca tanto quanto um soco. Eu entendi que você pode gostar tanto de alguém, na essência mais pura do sentimento, e ver essa pessoa em cada pequeno passo que você dá. E olhar para os lados não é a mesma coisa. E você vai começar a procurar algo freneticamente, porque sente que algo está faltando, e depois de checar a lista três vezes do que precisava fazer, vai se tocar que a única coisa que falta é olhar nos olhos de quem tem seu coração e só dizer tudo o que está guardado dentro de si.

No dia seguinte, outro evento anormal: eu não perdi a hora para o trabalho. Duas horas antes do previsto, todas minhas tarefas estavam feitas e eu continuava buscando coisas novas para fazer.

O caminho do circular 194 foi mais rápido do que de costume. Talvez meus pensamentos tenham ajudado dessa vez. Só dessa vez. Todas as coisas que eu queria te falar passaram na minha cabeça naquele percurso de 40 minutos até o trabalho e me fizeram esquecer o enjoo que andar de ônibus me traz.

Segui minha rotina sem a parte essencial do meu cronograma: entre uma tarefa e outra, responder suas mensagens que, por mais que fossem as mais bobas do mundo, sempre me arrancavam sorrisos.

Peguei o celular — muitas vezes- e senti vontade de dizer que eu largaria tudo naquele momento só para ter um abraço seu e que todos os sentimentos que tivessem te machucando também estariam me afetando. Que por mais que eu fosse uma chama e tu água, nós faríamos dar certo. Porque, nos livros, eles dizem que o amor sempre vence. E isso não é um grande conto de fadas, mas eu tenho amor aqui por nós dois.