Porque você quer tanto ser um homem?

Juno
Juno
Feb 23, 2017 · 2 min read

Uma das perguntas que sempre permeiam minha mente quando o intuito é trazer a tona minha transexualidade. A subversão de uma cisnormatividade que traz consigo uma dor e a alegria ser o que é : um homem trans.

A primeira reflexão que tive acerca dessa pergunta não foi a ideia de gênero/expressão que ela carrega em si, mas o próprio questionamento da fuga da normatividade. Pensar na ideia que alguém que se pareça uma mulher, mas não aceita pra si uma feminilidade imposta, isso não faria de mim um espaço menos vazio.

A reafirmação de conceitos imposto desde o nascimento de que eu sou o que dizia nas minhas genitálias não me preenchia. Porque eu quero parecer um homem? Porque eu quero ser um homem? Foi um processo de descoberta lento e doloroso, mas ele veio e eu cheguei a conclusão em meio a uma série de conceitos, formulas, dogmas cristalizados é isso que sou : Eu sou um homem que se parece uma mulher. Um homem de seios e buceta.

O meu projeto de auto aceitação é um eterno castelo de areia levado pela praia do mundo cisgenero. A cada erro de pronome, a cada voz alta que me chama pelo nome que não é meu, eu sei que meu castelo de certezas se esvai, de novo e de novo. Mas eu permaneço aqui, me despersonalizo, em cada faixa enrolada no meu corpo, em cada aperto pra não “ aparecer meus temores” eu estou aqui. A possibilidade de escolha é algo que não me foi dado, eu não pude ter direito a minha subjetividade, ela foi tirada de mim ao decreto do nascimento. Quero ter meu corpo para mim, quero ter direito ao meu útero, minhas decisões, quero ter minhas pautas colocadas onde não existe um eco da nossa existência trans.

Eu não quero parecer um homem, eu já o sou.

Eu sou um homem bi,

Eu sou homem maquiado e de cabelos azuis

Eu sou um homem que deseja e anseia pela liberdade de escolhas sobre minha própria vida, quero a seguridade de não deixar tanto para traz na minha busca por mim mesmo

Quero ter direito a vida, ao bem viver quero a liberdade de amar e ser amado sem medo “ e se ele descobrir que eu não sou uma mulher?”

Quero descobrir meu corpo, novas formas e novas possibilidades. Quero ter direito a uma família que me é negado pelo aparelhamento estatal, pois nos moldes de família tradicional eu ainda sou uma perversão degenerada.

Ainda me olho no espelho me vejo, e chego a eterna conclusão,é isso que eu sou: ser e o nada.

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    Entre o ser o nada.