Compacto autografado por Zé Rodrix, 25 anos após o lançamento. Foto: Serginho Franco.

É impossível parar de dançar.

“É impossível para de dançar” é o lado B do compacto “Soy Latino Americano” de 1976. Meio soul, meio discoteca, meio rock, o Zé Rodrix ameaçou surfar no mundo disco mas o que valia mesmo era a jocosidade, a ironia e a malemolência do lado A.

O compacto é de 1976, quando eu achava estranho que o mesmo cara que tinha composto “Casa no Campo” da Elis, pudesse também fazer uma música meio jocosa, meio engraçada. Estava na cara que era de sacanagem mas a música era boa e eu comprei o disco numa lojinha da Mooca.

Isso foi um ano antes de eu conhecer o Paulo Tadeu e começarmos desde então a fazer canções de gosto duvidoso com letras que cujo único propósito era o humor. Nessa época, eu achava que os únicos que faziam isso eram os caras do Joelho de Porco, banda da qual o Zé Rodrix veio fazer parte anos depois. Eu garimpava “Mardito Fiapo de Manga” pelo rádio e o disco praticamente não existia nas lojas.

Em meados dos anos 80 conheci o Zé Rodrix pessoalmente através da propaganda. Como redator, criei e produzi muitas peças com a produtora que ele dividia com o Tico Terpins, outra grande figura. O Zé já tinha passado a fazer parte do Joelho e eu quase furei os dois LPs do álbum “Saqueando a Cidade” de tanto ouvir. Ele nem sabia que eu era fã da banda, como era fã do Premê e do Língua de Trapo, referências máximas de humor para mim e pro Paulo Tadeu que já havíamos montado nossa banda. O Saco de Gatos vivia a margem da música marginal e, é claro, acabamos não conseguindo ir muito além dos anos 80, em nossa primeira vida.

E é aí que volta o compacto simples, agora autografado. Um dia em 2001, conversando com o Zé na agência comentei que tinha o compacto. Ele não botou uma fé e pediu pra ver. Abri meu baú, numa época em que o CD parecia que tinha enterrado de vez os bolachões e achei a bolachinha intacta. Bem que ele quis me tomar o disco, mas eu resisti bravamente. Não só isso como o fiz autografar a peça que guardo até hoje.

No final de 2008 encontrei o Zé na Livraria da Vila quando ele me contou mais detalhadamente dos livros que tinha escrito sobre templários e maçonaria. Conversamos rapidamente, ele perguntou sobre um livro que eu também acabara de lançar e nos despedimos com um até breve. Eu, lamentando porque ele havia decidido se afastar da propaganda. Ele, se desculpando por não ter ido no lançamento do meu livro. Nunca apresentei o Saco de Gatos a ele. Poderia ter feito.

Em 2009, pouco tempo após nosso encontro, o Zé morreu e eu fiquei com o contato dele me azucrinando no celular por anos. Como eu o tinha catalogado na letra “Z”, ele era o último da lista. Assim, nas vezes que eu pulei direto do “A” ao fim dos contatos, era o nome dele que aparecia. Com o tempo apaguei. É assim que funciona.

Hoje, o Saco de Gatos vive uma fase engraçada. Voltamos a tocar em 2005 e desde então não crescemos. Continuamos sendo adolescentes velhos que fazem músicas pueris e politicamente incorretas para nos divertir. Gravamos CD, aumentamos nosso repertório de imbecilidades e há até quem goste da gente. No auge de nossos 50 e poucos anos não nos preocupamos em poupar ninguém porque fazer humor é fazer coisas para as pessoas rirem. E para isso não existe filtro.

Nesta semana, no dia 9 de Julho de 2016, o Saco de Gatos vai tocar no Brazileria, um charmoso bar da Lapa, em São Paulo. E qual não foi minha surpresa ao entrar no site deles e descobrir que era um espaço que começou com o Zé e continua com sua mulher Julia e o sócio, Sílvio. Tem até um “espaço Zé Rodrix” no lugar.

Ontem, achei em casa o compacto autografado no meio dos meus discos e não resisti. Fiz uma boa foto e o coloquei aqui, pra pedir a benção do ídolo. Agora, é só fazer bonito na casa do Zé.

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