Foto: Serginho Franco. 13/04/2015 na Choperia do SESC Pompéia.

Muito além dos Jardins.

Quem se importa com o novo quando tudo o que se quer ouvir é o definitivo?

Sou geração Barros de Alencar. Cresci ouvindo na copa o radinho chiando tocando as sete mais do dia, as sete campeãs. Cresci ao som de um xilofone que anunciava a Rádio América, que ao meio-dia apresentava o Clube do Rei. Cresci numa época em que era impensável assistir TV pela manhã e que um dia não era um bom dia se não começasse com a saudação “Gil Gomes lhes diz… bom dia”. Uma ironia, já que depois desse bom augúrio vinham histórias escabrosas de maridos que matavam mulheres, de filhos desencaminhados que terminavam invariavelmente mortos ou atrás das grades.

Sou da geração Chanti, onde merchandising não tinha esse nome e virava gíria de qualquer coisa numa época em que os apresentadores de rádio eram mais notórios que os anunciantes.

Sou da geração que ouvia Roberto e Erasmo, Raul Seixas, Cláudio Fontana, Gal Costa e Odair José com o mesmo gosto com que se ouvia Beatles ou Led Zeppelin ou Bee Gees e Deep Purple.

Colecionei chapinhas de ouro, tive um Topo Gigio e ouvia irritado minha empregada engolir os “s” enquanto cantava a plenos pulmões “os botão da blusa”. Esse clima estava no ar, respirava-se tudo isso. E como você não precisa aprender a respirar, fatalmente acabava aprendendo de cor todas as letras de todas as canções que compuseram essa trilha sonora.

Comprovei isso nessa sexta-feira 13. Sorte minha.

Ao ratificar o preconceito que jamais tive e ir com gosto assistir ao lançamento do novo CD do Odair José na choperia do Sesc Pompéia, descobri que existiam dois Odair Josés e que, em menos de uma semana, fui exposto aos dois pelo acaso.

Voltando alguns dias. Na segunda, dia 9 de março, tive o privilégio de assistir em uma exibição fechada, a um corte do brilhante documentário do Andrucha Waddington e da Mini Kerti sobre o não menos faiscante André Midani. Um gênio sem pátria, árabe-judeu-francês-brasileiro que mudou a indústria da música no mundo. A começar pelo Brasil. Falar sobre esse documentário que virou série da GNT seria beirar a irresponsabilidade. A profundidade é tão grande que qualquer comentário além de superficial seria leviano.

Mas foi justamente nesse cenário que reencontrei Odair José, através de Caetano Veloso. Ao descrever a Phono 75 onde André Midani teve a capacidade de juntar sobre um mesmo palco, nos anos de chumbo, Caetano, Raul Seixas, Gil, Erasmo Carlos, Odair José e tantos outros, o baiano proferiu novamente sua antológica frase: “Não existe nada mais Z do que a classe A”. Naquela ocasião, ao chamar Odair ao palco, Caetano foi saudado com uma estrondosa vaia e, depois de devolver alguns impropérios a platéia, cantou com o nosso ídolo a inesquecível “Eu vou tirar você desse lugar”. Uma ode ao amor de um jovem por uma puta que nada tinha de conotação política. Se, em vez do amor carnal, tivesse Odair utilizado a metáfora como justificativa ao seu trabalho na época, teria virado um símbolo do antimilitarismo e um precursor da abertura política digno de figurar em livros de história por séculos e séculos.

Por que não? “Tirar você” de um país torturado poderia ter sido a contrapropaganda do “Brasil, ame-o ou deixe-o”. Mas era apenas o amor de um jovem por uma puta.

Com o tempo, Odair virou um “brega recluso, e Caetano virou um ídolo reverenciado que aparece em momentos estratégicos para falar merda em sua coluna de jornal ou interpretar as mais belas e inteligentes músicas que a MPB poderia ostentar.

Ao reviver Odair em seu depoimento no filme de Andrucha, Caetano alçou Odair ao patamar de astro cult. Mas Odair já revivera há 10 anos mais ou menos no espetacular livro de Paulo César Araújo “Eu não sou Cachorro, Não” onde “cult “ pode até assumir um tom de adjetivo suave se considerarmos o teor acadêmico da obra. E pronto. Acabo de me redimir de ter chamado Odair de brega.

Mas voltando, pegou bem Caetano falar de Odair. Mostrou desprendimento. Comprovou a falta de preconceito que Caetano tem capitalizado tão bem para recriar sucessos como “Sonhos”e “Sozinho”, de Peninha e ganhar dinheiro com isso. Aquele mesmo Peninha que ficou congelado nos anos 70, entre as sete campeãs do Barros de Alencar.

Confesso que o efeito-Caetano me inspirou a aceitar o convite de uma amiga para assistir ao show de lançamento do novo trabalho de Odair, que aconteceria dias depois. Odair, meu ídolo secreto, que há 10 anos eu convidara a estrelar um comercial de cartão de crédito. Meu debut na WBrasil. Berço da cultura popular do meu inadjetivável mestre Washington Olivetto.

E lá fui eu para o Sesc Pompéia esperando por um show cult.

O primeiro susto foi descobrir que a apresentação seria na choperia do Sesc onde, meia hora antes do show, um público genuinamente odairjoseniano lotava os bancos e consumia latas e latas de Brahma morna. Senhoras com mais de 50, pouco preocupadas com a ditadura da barriguinha chapada, riam alto e insinuavam-se aos seus maridos e namorados como se uma sensualidade de repente passasse a fazer parte daquela vida besta de hoje que valorizava mais a camisinha do que a pílula…

O segundo susto foi perceber que a outra metade do público, jovem e bem cuidado, se misturava ao povo de meio-século que, certamente, passou seus dias em frente ao radinho enquanto suas mães e empregadas passavam seus uniformes escolares. Um povo eclético. Tudo junto e misturado. Em comum tinham o fato de saberem letras e letras dos velhos sucessos de cor e de dançarem do mesmo jeito que dançariam num show dos Titãs ou no Radiohead.

Mal.

Odair José bem que tentou alçar seus novos (e excelentes) rocks a categoria de um trabalho novo tão popular e promissor quanto seus grandes e eternos sucessos. Mas o carisma do popular fala mais alto e é eterno.

Zeca Baleiro, o símbolo de uma geração que soube juntar o pop-chiclete a produtos finos para as massas, assistia extasiado ao meu lado. Seu sorriso só não chamava mais atenção por que só era mais um no meio de tantos. Quando, finalmente, ele cedeu aos pedidos de Odair e subiu ao palco, foram os velhos sucessos que se fizeram ouvir. Dessa vez na voz de seus melhores intérpretes: o bom e velho povão, que nada tem de povinho.

Se o filme de Andrucha me fez sair do cinema com uma alegria no peito e lágrimas secas no rosto, Odair José me fez sair com um fogo no peito e um sorriso estampado no rosto.

Quem se importa com o novo quando tudo o que se quer ouvir é o definitivo?

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