Brooklyn Museum. Outubro de 2014. Foto: Serginho Franco.

O homem que antecipava.

Ele simplesmente não conseguia viver na incerteza.

-Adivinha…
-O quê?
-Só adivinha, Freitas… Tcharamm!!!

Maria estava rosada, cheinha. Freitas já tinha reparado o aumento de apetite e o sutil comprometimento das formas.

-Envelope na mão… quilos a mais…
-É isso, Freitas
-Isso o quê?
-Caramba, Freitas, você sabe destruir qualquer clima. Eu tô grávida, porra.
-Darcy.
-O quê?
-Vai se chamar Darcy.
-Que mané Darcy, Freitas. A gente nem sabe se vai ser homem ou mulher e você já vem dando nome. Darcy?!
-Darcy é perfeito. Serve pra homem e mulher. A gente já pode chamar o feto pelo nome desde já.

E ficou Darcy. Oito meses antes de nascer, o enxoval amarelinho já estava completo. Todo bordado com o nome escolhido. Em três meses o buffet pra festa de um ano já estava reservado e os convites encomendados.

Ele simplesmente não conseguia viver na incerteza. Não admitia ser pego no pulo. Tudo era milimetricamente calculado.

-Freitas, chegou uma mega encomenda. Pacote enorme. Parece uma lona de circo.
-Lona Jacaré. E não é de circo, é de carro mesmo.
-Que carro?
-Vão sortear um Chevette zero na festa de fim de ano.
-Freitas… a fábrica tem mais de 500 funcionários.
-E se eu ganhar? A garagem do prédio é descoberta. Cocô de pombo queima a pintura. Tem limão em casa?
-Pra quê limão?
-Pra passar no cocô. A pintura fica zerada.

Mas de vez em quando o imprevisto era mais rápido que Freitas. Só pra lembrá-lo que não dá pra calcular o imprevisível.

-Dor de estômago. Vista turva. Dor de cabeça, tontura… É grave, doutor.
-É uma pergunta?
-É uma afirmação, doutor. Com ponto final.
-Pelo exame clínico está tudo bem. Mas eu vou pedir uma série de outros exames. Vamos fazer uma pesquisa antes de fechar um diagnóstico.

Sangue. Fezes. Urina. Ultrassom. Tomografia. Ressonância. Endoscopia. Colonoscopia. Algumas biópsias. Diagnóstico fechado.

-É câncer, Maria.
-É, Freitas. 25 de junho, aniversário da Darcy. É câncer. Igual a mamãe.
-Não, Maria. Igual ao papai. Meu mal-estar… É câncer. No máximo 3 meses de vida. Toma isso.
-Presente agora?
-Lenço de papel. Pára de chorar e presta atenção: seguro de vida, primeira gaveta do escritório. Dólares no cofre. Ah, o licenciamento do carro é em novembro, mas eu paguei antecipado em Janeiro. Se liga pra não pagar duas vezes. A farmácia também, já deixei paga.
-Como assim?
-Fui lá e paguei. O que sobrar você vai lá e resgata depois. E por falar em resgatar não esquece da nota paulista. Dá um bom desconto no IPVA.
-O que vai ser de nós duas sem você?
-Você vai receber uma pensão vitalícia de 12 mil reais, reajustada pela correção monetária. A faculdade de odontologia eu vou pagar antecipado.
-Faculdade?
-Da Darcy.
-Eu já imaginava. Ela ainda nem tem dente e você já sabe que ela vai fazer odonto. Você não vai mudar nunca?
-Não dificulta as coisas, Maria. Será que nem em meu leito de morte você para de me questionar?
-Não é por nada, Freitas, mas você parece tão bem…
-O Ulisses também parecia ótimo. E morreu de repente.
-O Ulisses morreu de acidente.
-Pois é, foi de carro para o mesmo lugar que eu estou indo. Maria…
-Que é?
-Será que dá para fazer o check in antecipado?