Aprendizagem e ensino não são duas faces da mesma moeda

Ano novo, momento para refletir sobre as nossas escolhas, sobre os novos rumos que desejamos para as nossas vidas e, para os educadores, mais um ano para conquistar a satisfação de ver seus esforços e suas aspirações concretizadas. Mas, qual é o propósito da educação? O que fazemos coincide com o que pensamos sobre o que seja educar?

Nos educamos constantemente nas relações com a natureza e interações familiares e sociais que influem em nosso crescimento interior e nos ajudam a entender o mundo e a nós mesmos. “Educação é troca. Educação é um processo subjetivo, vivido no momento em que cada um se percebe aprendendo alguma coisa nova.”1

Se entendemos que educar é, antes de tudo, educar-se; algo que acontece de dentro para fora, a partir dos interesses e das trocas que realizamos com o mundo que nos envolve; se isso está claro em nós, então precisamos diferenciar a educação como aprendizagem da educação como ensino organizado e determinado desde as necessidades de outrem. “A educação convencional está focada em transformar ou deformar pessoas para que elas se encaixem no mercado, um processo com pouca ou nenhuma liberdade de escolha. E não digo que isso não funcione. Funciona. Mas, a que custo? Funciona para quem?”2

Acompanhando as necessidades do mercado, agimos conforme a receita para criar indivíduos sem autonomia. Informamos e formamos para a aceitação das regras dos discursos socialmente aceitos à revelia da crítica livre dos fetiches que os envolvem. Por mais que os Projetos Pedagógicos e planos digam que querem “formar cidadãos críticos”, o que fazemos desde o início da escolarização das crianças é selecionar, separar, compartimentalizar, datar, restringir, conter, avaliar, vigiar e punir. São as regras, dizem uns; nada pode ser feito, dizem outros. Mas quase todos preferem continuar nas suas “zonas de conforto” a encarar a desconstrução necessária. “(…) em toda a sociedade a produção do discurso é ao mesmo tempo controlada, selecionada, organizada e redistribuída por certo número de procedimentos que tem por função conjurar seus poderes e perigos, dominar seu acontecimento aleatório, esquivar sua pesada materialidade.”3

Educar é realizar escolhas pessoais; é aprender, diferentemente de ser ensinado. Vale o conceito freiriano que denuncia a “educação bancária” que ainda hoje, infelizmente e para prejuízo dos estudantes, parece estar entranhada nos pensamentos e ações de muitos professores.

O que escondemos por baixo do lindo bolo que anualmente comemos e dividimos numa farra antropofágica? Como diz Corazza, referindo-se aos educadores como filósofos da educação (filósofos do inferno) manejando os conceitos que dizem respeito às práticas educativas e as concepções fetichizadas que as envolvem: “Um filósofo do inferno (…) é o próprio Estranho em potência. Não pára de remanejar seus conceitos e de experimentá-los, de dessemelhá-los, devi-los infernalmente, variá-los perpetuamente, na tarefa de estranhar o mundo da Educação.4

Aprendizagem X Ensino

A aprendizagem é natural, é próprio do que é vivo enquanto que o ensino veio com a escolarização.

Ivan Illich descreveu o que ele chamou de fenomenologia da escola e sua liturgia que assim funciona: “consiste em uma assembleia de indivíduos pertencentes a determinadas faixas de idade, que se reúnem em torno do assim chamado professor durante três ou quatro horas por dia, duzentos dias por ano; em promoções anuais. (…) Em qualquer lugar as classes são formadas entre 12 e 48 alunos, e nelas podem ensinar só os que observaram essa litania por muito mais tempo do que seus alunos. E em toda parte se admite que os alunos recebam uma assim chamada instrução, da qual se admite que a escola tenha o monopólio, e que esta instrução seja necessária para transformar os alunos em bons cidadãos, cada um dos quais deverá estar ciente do nível escolar atingido em sua “preparação para a vida”.5

Ensino, instrução, aula, escola, lição e outras instâncias da educação escolarizada são artifícios criados para que cada sociedade ao longo da história possa definir seus parâmetros e fazê-los funcionar monopolizando a distribuição do saber organizado mantendo a divisão social com lugares e saberes específicos para cada bloco de classes para ocupar lugares também específicos na sociedade.

O ensino é a transmissão de um determinado saber de uma pessoa para outra através de uma instituição, antecipado por um currículo, uma disciplina, um plano de ensino, um livro didático e um professor. Nesse sentido, o ensino só reproduz ele mesmo. Não há liberdade de escolha e se não há liberdade, não há aprendizagem. Como diz Borghi: “Educação e liberdade coincidem (…) se a gente procura formar o indivíduo agindo de fora, transmitindo-lhe noções ou inculcando-lhe modos de comportamento não são do educando, mas que são precisamente do sujeito que “educa”, então, não temos mais a coincidência entre educação e liberdade, mas a coincidência entre educação e autoridade.”6

A aprendizagem e ensino não são as duas faces da mesma moeda. A aprendizagem é natural e o ensino como instrução organizada é artificial e criado a partir das necessidades da revolução industrial do século XVIII.

Um pouco antes, Comenius formava seu pensamento pedagógico que foi expresse através da sua Didactica Magna, para quem “todos os homens necessitam de ensino para se tornarem homens”. Assim sendo, Comenius concebia “as escolas como oficinas de onde sairiam homens com virtudes, bons, belos, morais e úteis à sociedade.”7

Nessa ótica, que persiste ainda hoje, não há lugar para a liberdade e para a aprendizagem baseada na livre escolha, tentativa e erro construtivo. Ainda acreditamos, como Comenius que a forja o cadinho e a forma, são as ferramentas ideais para “formar” o homem útil à sociedade, que para tanto precisa absorver os valores e saberes atuais como se a sociedade fosse algo estático com virtudes e morais eternas, sem rompimentos, sem revoluções e sem avanços nos papéis da família, do direito e das relações sociais.

O que se propõe ao longo da história em termos de educação escolarizada é o conceito de “ser”. Ou seja, ser em oposição ao não ser. Como se tudo o que existe fosse eterno, contrariando, em última instância, até a experiência de viver; com suas contradições e metamorfoses.

Não há verdadeira aprendizagem, — se entendemos isso como fundamental para impulsionar a natureza criativa e transformadora dos seres humanos — se não for dialética. No ensino, não há lugar para a Maiêutica socrática; para o diálogo e onde não há diálogo não há liberdade e democracia. O diálogo, como compreendo, é muito mais que a simples interlocução entre duas pessoas (professor e aluno); o diálogo é o motor da aprendizagem, o que faz democratizar as relações e possibilitar o auto conhecimento; a auto educação.

Quando falo em auto educação, não estou dizendo que devemos prescindir da figura do professor pois, mesmo com a existência da escola como instituição regulamentada pelo Estado para garantir a permanência do Status Quo, formando indivíduos que irão manter essa situação, o professor deve agir na perspectiva do educador vigotskiano, como mediador e facilitador atuando como provocador, instigando o estudante a avançar, a galgar zonas encobertas e ainda desconhecidas mas cujos conhecimentos são perfeitamente cognoscíveis se perdermos o medo de errar.

Na dialética heraclitiana o que existe é o não ser ou o Devir, o vir a ser. Portanto, todo está em permanente transformação. Em Hegel, a luta dos contrários: a tese, a antítese e a síntese que não é o fim do processo, mas uma nova tese que evidencia a cadeia sem fim da existência da matéria. Isso nos diz que não há pensamentos que não possam ser questionados. “Como Nietzsche, devemos corrigir nós mesmos nossas ideias, para construir novas, ou como Liebniz pensamos estar em porto seguro, mas somos jogados outra vez em pleno mar revolto.”8

É preciso fazer como a semente: morrer para poder viver!

Sérgio Araújo

1 e 2 - Dale Stephens e Jean Fan - O texto original foi publicado no livro “Volta ao Mundo em 13 Escolas”, do Coletivo Educ-ação e pode ser lido aqui.

3.De Michel Foucault no livro "A ordem dos discursos" - Aula inaugural no Collège de France em 2 /12/1970. Coleção leituras Filosóficas. Edições
loyola 1996.

4. De Sandra Mara Corazza -"Para uma filosofia do inferno: Nietzsche,
Deleuze e outros malditos afins".Autẽntica Editora 2002.

5. De Ivan Illich citado no texto "A ilha do alfabeto" citando ele mesmo noseu livro De-schooling Society. Imaginário, 1990.

6. Lamberto Borghi na entrevista "A educação permanente" no livro Educação e liberdade. Imaginário, 1990.

7. De Bohumíla Araújo no: "A atualidade do pensamento pedagógico de
Comenius. Edufba, 1996.

8.De Sandra Mara Corazza -"Para uma filosofia do inferno: Nietzsche, Deleuze e outros malditos afins".Autẽntica Editora 2002.