Onde está o amor?

“Depois do furacão / Vem o arco íris” — Katy Perry. Fonte: Blog NE10

Para quem não sabe, hoje é o Dia do Orgulho LGBT. 28 de Junho, quando Stonewall foi tomada por uma guerra da minoria contra a opressão da polícia americana. Graças a essas pessoas, um grande movimento mundial começou, e por eles é que pessoas, com eu, falam e lutam abertamente sobre isso. Nossa luta está somente começando, sendo no dia a dia ou em uma manifestação.

Há pouco tempo eu tomei consciência da importância de estarmos apoiando um ao outro. De que apesar de ser somente um grão no meio do deserto, a minha voz e os meus atos, em uma manifestação ou no dia a dia, fazem diferença contra o sopro de vento.


Há oito anos atrás, eu descobri quem eu era. Por saber que isso não era bem aceito, eu passei dois anos na igreja evangélica. Perguntava todo dia a Deus porque aquilo tava acontecendo comigo. O que eu tinha feito de errado?

Minha mãe adoeceu, e eu não queria causar mais problemas. Eu tinha que lidar com isso sozinho.

Depois que ela faleceu, além da minha vida ter virado de cabeça para baixo, essa questão martelou ainda mais na minha cabeça, com as pessoas exigindo de mim uma posição em relação a minha vida. Eu tinha um inquérito dentro de casa. Parecia que eu vivia dentro de uma grande sala de interrogatório. Eu não tinha espaço para pensar nas coisas que eu fazia, ou no que eu deveria pensar. Eu estava sendo pressionado de todos os lados, mas ninguém percebe, a não ser que você seja o pressionado.

Eu conheci grupos e mais grupos com o passar dos anos, e dos quais eu tinha real vergonha de falar quem eu era. Até que um dia eu confiei, e contei. Até nos ciclos sociais mais próximos eu tinha vergonha. Meus melhores amigos desconfiavam, e alguns outros sempre soltavam uma piada homofóbica, ou machista, o que me fazia imaginar que não me aceitariam como eu sou.

Depois de dois anos, uma parte da minha família descobriu. Eles me convenceram a frequentar um psicanalista e uma psicóloga. Ambos evangélicos, um teve uma posição diferente do outro. O primeiro dizia que se eu não me sentia mais errado, que não sentia que queria mudar, então não teria o que curar (Na verdade, nunca teve). Ele foi tão sensato, que falou que se eu optasse por uma tentativa de tratamento, eu não teria uma vida natural, sendo quem eu deveria ser. Já a segunda… Falou que isso não era certo (a minha condição). O que eu faria?

Eu andava em uma corda bamba o tempo todo. Ao mesmo tempo que só queria uma adolescência tranquila, eu era obrigado a lidar com algumas outras pressões além das que já existiam.

Por livre e espontânea pressão da metade dessa parte da minha família, eu contei pra pessoa que realmente merecia saber. Foram três dias difíceis. Meus amigos tinham medo por mim, enquanto eu esperava qualquer tipo de reação. Eu estava e não estava preparado ao mesmo tempo. Sendo que na verdade, eu não o conhecia tão bem. Nunca imaginei que o amor fosse mais forte que uma rejeição. Nunca imaginei que, na verdade, o único motivo de ele ter ficado mais chateado com a situação foi eu não ter contado, não ter confiado.

Graças ao Universo, ele me ama do jeito que eu sou, e sou grato a isso.

O tempo foi passando e fui criando mais coragem, e logo depois chegamos ao orgulho que sinto pela minha pessoa, hoje. Orgulho por ter coragem de falar sobre isso abertamente; Orgulho de não ter mais medo de me chamarem de viado, ou boiola; Orgulho de não me sentir mais rejeitado, e de ver que não preciso da aprovação de ninguém.

Ao ponto que eu abracei essas verdades dentro de mim, tudo melhorou em minha vida. Algo que eu poderia ter feito há muito tempo. Algo que eu poderia ter melhorado há muito tempo, sem deixa o medo tomar conta.

Se lembra dos amigos que eu falei que soltavam algumas piadas que me preocupavam? Depois de um estouro de fogos do ano novo, tequila, fogueira, conversas sinceras e algumas lágrimas, eu ouvi uma das coisas que mais me impactaram (Na verdade, eu escutei bêbado, então, talvez, algo esteja exagerado ou diminuto):

“Sergio, nós te conhecemos há muito tempo. Não temos motivos para sermos agressivos ou rejeitar você. Além de que você gosta ou deixa de gostar, nós sabemos quem é você. Independente de qualquer coisa, você é uma pessoa boa. E é isso que importa nisso tudo.”

Eu fiquei sem palavras, e ainda fico quando lembro disso.

Hoje, eu vejo o quanto as pessoas torcem por mim. Vejo que elas não vêem o homem gay, que um dia foi recatado.

Elas vêem apenas Sergio Augusto.


Porque eu taquei esse monte de fatos da minha história como LGBT, e que teve um final feliz?

Primeiro, para alertar as pessoas que estão a nossa volta de que isso não é brincadeira. De que isso não é carnaval. Sabe o que mais escuto, vez ou outra conversando com pessoas que eu nunca tive contato? De que somos promíscuos, que adoramos festas, e que estamos sempre atrás de macho (Muitas das vezes, dos outros). Como se isso resumisse a vida de um LGBT: Um grande carnaval.

Incrivelmente, e para a surpresa de alguns, temos vidas normais, onde podemos trabalhar e podemos nos divertir, sem nenhuma condição especial. Só não queremos ser reconhecidos como estranhos, mas como cidadãos. Nós só queremos o respeito que um hétero tem. O respeito de não termos pessoas sendo mortas por serem quem elas são, ou agredidas pelo mesmo motivo.

Queremos o respeito com crianças e adolescentes serem jogados para fora de casa, como se fossem monstros que destruíram as suas famílias…

Queremos o respeito com as lésbicas. Deixem as mulheres serem donas de seu destino, deixem elas serem libertas sexualmente. Se vocês têm a capacidade de ficar elogiando bundas e compartilhar fotos o dia inteiro, deixem elas dizerem com quem elas querem transar, isso não diz respeito a vocês.

Queremos o respeito com os homens gays. Não importa se é afeminado ou não. Não importa se ele é gordo, magro, malhado e etc. Pare de tomar conta da nossa vida, e de com quem ficamos ou deixamos de ficar.

Queremos o respeito com os transexuais e travestis, que são mortos dia a dia. Deixe as pessoas se sentirem confortáveis com elas mesmas. As mudanças tem a ver com as pessoas em si, e não com terceiros.

Queremos o respeito com as pessoas por serem quem elas são. Independente da sigla que denomine a sua sexualidade, ou gênero.

Parem de tomar uma parte pelo todo. Sabemos que todo lugar tem a fruta podre, mas isso não significa que algo do tipo representa todos. Na verdade, parem de fazer isso com qualquer gênero, sexualidade, militância, etnia e entre outras.

Para aqueles que ainda tem medo de ser quem são: Não tenham. Eu sei que é difícil a gente fazer isso, mas não tenham medo. Confiem primeiro em si mesmos, além das coisas materiais. Acredite que você é forte, e que tem uma voz que pode ser ouvida. Não se deixe sufocar por condições externas.

Não tô falando pra chutar o pau da barraca, mas não se sufoquem.

Aqueles que verdadeiramente nos amam, não ligam para qualquer esteriótipos que criam acerca de quem somos.

Sejam libertos consigo mesmo. Sempre.


PS: Se você se identificou no texto em alguma parte que eu falo do passado, não pense eu fico remoendo. Não mesmo. Temos reações e reações, e não julgo vocês a vida toda por isso. Ninguém deveria ser tatuado por seus erros, então isso não rola comigo.