Gay

do inglês gay: alegre, jovial. Proveniente do francês medieval gai, “que inspira alegria”

Parecia uma canção do Chico, uma que agora não lembro o nome, mas que termina com um circuito perfeito demais para que algum amor venha e sabote a grande engrenagem. Só que na nossa história esse é o começo: eu giro, tu giras, eles giram, presos num carrossel de beleza, certamente sentados em unicórnios de cores complicadas como fúcsia, púrpura, herbal, magenta e sang-de-beuf. Cada um no seu, isso é muito importante para essa primeira cena, apolínea: eu no meu, você no seu, ele no dele, e assim por diante. Todos homens, todos sorrindo, todos belos, seus corpos estão bronzeados, tomam três litros de água todos os dias, aparentam menos idade do que têm e às vezes travam uma conversa inteligente com o vizinho. Girando, sobem e descem sobre seus cavalinhos mágicos alados de chifre na testa, uma riqueza. Subir, descer, sempre em círculos. Ad infinitum.

Ansiedade: esperar por algum momento de imperfeição, falha no sistema ou bug do terceiro (ou quarto) milênio, capaz de trair esse moto-contínuo, roda da fortuna, da beleza e do sexo (protegidíssimo). Minha inútil espera por alguém que ofereça um bilhete — de saída, não de entrada. Alguém suficientemente imperfeito que me arranque desse carrossel, roda gigante, ciranda, balada, desse photoshop todo.

Então vem você e fica lá por perto, e agarra minha mão. Habilmente desastrado, tropeça na hora errada: derrotados na maratona de dança, vamos os dois para a esquerda quando toda a quadrilha segue para a direita. Nesse momento, uns olham (de soslaio) e reparam nas nossas rugas, na falta de cabelo no topo da sua cabeça, no nosso olhar que se cruza em pânico, flagrados num pecado original (de quem é a culpa?). Dois pobres diabos expulsos do parquinho.

Agora estamos em casa e passamos bem. Abrimos uns vinhos, dionisíacos.


Imagem: O triunfo de Baco (Os bêbados). Velázquez, 1629