Internação
O Hospitalizado havia saído do quarto, não muito, só uns passos, e estava parado no corredor. Junto à porta, com umas roupas moles e amassadas, olhava para os retângulos mais ou menos brancos que o sol esticava no chão e na parede ao lado da porta. Neste ponto, talvez reconhecesse que escolher a palidez geométrica deixava de lado a própria luz e tudo aquilo que não cabia no corredor.
“Escolher”, evidentemente, não é uma palavra feliz: não foi bem imaginada nem muito menos havia qualquer alegria — era simplesmente a alternativa óbvia, fora da qual restaria ao Hospitalizado (mais) sofrimento. Frágil refúgio do self, os retângulos, tantas vezes examinados, contados, tudo mais ou menos branco, no chão e na parede, as roupas amassadas, moles, a milionésima representação do mito da caverna em versão fajuta, tudo pesava sobre suas costas. Daí curvava-se, amassado, na direção dos retângulos em opaca ordem.
Entrou e, deitado, embebedou-se de espera com medo. Combinar espera e medo implica em um nível de existência duro, perto do solo, nessa lágrima que então lhe molhava a narina. Quando alguém abriu a porta, apressou-se a enxugá-la. Era o Companheiro, ainda bem. Trazia lá de fora a tez bronzeada, e trazia o pacote da farmácia:
“Oiê! Dei uma puta volta pra conseguir chegar na farmácia! Daí, pensei que você pudesse estar no corredor e andei até aquele trecho da calçada que a gente consegue ver daqui do alto, sabe? Te dei tchau.”
Lá da rua um aceno, quem sabe um largo sorriso; aqui dentro a mesquinhez de uma cabeça baixa contando retângulos narcísicos. “Os dois lados da janela”, doce verso de Caetano para “Trem das Cores”, era agora uma bomba de culpa que detonava a precária estabilidade espera-medo. Deixava tudo meio insípido, não havia apetite, não comia, a garganta doendo.
Mas havia o Companheiro, e aquele quarto — mesmo opaco, sem sabor, tudo mole, amassado, mesmo com tanta culpa — ganhava certo calor.
