Sobre mergulhos

Seus cabelos já não caíam em cachos, mas era o mesmo homem. Imóvel na multidão, sorriu como fazia — como quem flerta com a ironia sem no entanto perder a doçura, criando esse enigma que nunca decifrei. Rimos, abraçamos um ao outro, outro ao um.

“Você está igual” “Você está ótimo” “Que bom te ver” “Vamos sair dessa estação” “Vamos dar uma volta” “Arrumar umas bikes” “Pensei em ir numa feira” “Visitar Christianshavn” “Tomar um banho de mar”. Saímos.

Lá fora, as torres de bronze aqui e ali tocavam o fundo do azul da Dinamarca nessa visão que, anos antes, insistia em chegar depois do fundo dos meus olhos. No raso de um dia que trazia (no fundo) dez anos sem conversar, sem olhar — nem fotos, nem nada — éramos conhecidos.

É que havíamos sido felizes, libertos. Nos dias bonitos, esperava-me junto à bela fonte com seu sorriso e cachos dourados. “Ciao!”, me dizia, num grande abraço. Íamos para casa e trepávamos loucamente. Havia, além da pequena cozinha e de um banheiro, um só cômodo que servia de quarto e sala. Nele, uma grande janela abria-se para a lateral de uma igreja de tijolos, cuja pastora, não raro, aproveitava o sol sentada ao ar livre. Era gorda e de sorriso fácil. No verão, com a cidade cheia e os dias longos, trabalhávamos de rickshaw. Parece inacreditável, em retrospecto, esse lance dos rickshaws. Foi, entretanto, algo central na minha — na nossa — vida por lá. Lembro quando, depois de treinar nos arredores da cidade, levei pela primeira vez duas meninas de Storken para a prefeitura. Fui seguindo-o, ele numa bicicleta normal, e as duas moças conversando com ele, ao vento. Ouvi uma palavra, até então desconhecida: “kærste”. Entendi que éramos namorados e sorri. Além de algum dinheiro, dirigir rickshaw me garantiu um pequeno círculo de amizades: jovens de diferentes experiências, perspectivas e nacionalidades, com os quais dividia o amanhecer dentro do mar gelado, desses de curar a pior bebedeira.

Veio o outono, e ainda havia trabalho para a gente, mas não como em agosto. Ele trabalhava mais no seu mestrado, escrevia sobre fotografia e arte. Ganhava, dizia, uma bolsa mais ou menos suficiente para aquele aluguel, para algum restaurante. Uma vida frugal na Dinamarca é uma vida rica, afinal. “Será o caso de eu pedir um apartamento um pouco maior, assim você pode se mudar para cá no ano que vem?” — mas eu nunca soube o que responder. Então veio o inverno. Eu, que não escrevia sobre fotografia, que não estudava, que não ganhava bolsa, eu devia partir, e choramos o choro amargo.

Uma década, e não falamos, não trocamos fotos. Às vezes sonhei. Imaginei um encontro. “Muito bom que você resgate isso”, disse alguém. “Cuidado, você talvez não seja tão forte”, ouvi de outro.

Seus cabelos já não caíam em cachos, mas era o mesmo homem. Era o mesmo homem e, no entanto, seu belo apartamento está encaixotado e guardado num depósito.

Convidou-me para um mergulho, e fomos, à vista dos barcos que iam e vinham numa bela tarde de verão. É xenófobo. Sonha em ser um grande artista mas não pinta, não escreve, não canta, não esculpe, não dança, não sabe empunhar uma flauta doce. Diz que será rico, mas passou os anos entre empregos de segunda e de terceira classe. Rico para homenagear Leni Riefenstahl.

Nada pode ilustrar melhor nosso encontro que aquela água fria. Uma limpeza, um despertar. Uma temperatura que incomoda: uma necessidade de desvencilhar-se, de secar cada gota, e partir.