Um conto em Lá bemol

Sergio de Fiori
Jul 24, 2017 · 2 min read

De repente, uma intrusa. Escorria no tempo-espaço abrindo caminhos até aninhar-se, como se conhecida fosse, ao lado das velhas companheiras da casa nas tardes de sábado. Acompanhou-nos por anos — dez, vinte, talvez para sempre — e foi ganhando, ou trazendo, histórias e estórias. Sagaz, veio discreta, sóbria gentileza, logo contando sobre um certo sentimento que mesmo novo não fora nunca estranho, posto que belo era. E ali ficou, no meio da família — ela que não era filha, não era nada — exigindo um espaço que chegou a ser grande, mas que depois, com o tempo, teve que dividir com outras como ela, mais velhas ou mais novas: um espaço reduzido, algo como uma gavetinha na cômoda da sala.

Tanta coisa acaba na gaveta — as minhas já não consigo fechar. As do meu pai estavam no limite quando chegaram por ali uns diários antigos da família e, acredito, foi quando começaram a transbordar. Mergulhou de cabeça e sem escafandro nas gavetas, voltou com pessoas, excertos, citações e viagens — um mergulho de cabeça na cabeça própria, como diria um amigo querido, falando provavelmente da própria gaveta, ou cabeça. Coisa que costumamos evitar — sabe-se lá que feras nadam naquela escuridão — mas já não havia volta. Flecha lançada, o êxodo dos escritos costuma ser implacável: fez-se um livro.

Numa tarde de sábado, o livro chegou. Sentei e li. Saigon, 1990. Um hotel para ocidentais, havia um bar. Um pianista, uma violinista e uma violoncelista, surpresos porque meu pai aplaudia o espetáculo. Do outro lado, um barman, uma garçonete e um fiscal do partido. Um ou outro viajante de negócios solitário e indiferente. Falava um pouco com os músicos, mas só um deles, o pianista, arranhava algum francês. A violoncelista não era bela, mas havia sua entrega à música, depois da qual equilibrava o instrumento na bicicleta para sua longa viagem. Como não havia idioma, os três artistas logo acolhiam aquele que lhes aplaudia com uma melodia que, todos viam, alcançava lá nos seus segredos: haviam criado uma saudação — uma pequena valsa que nem sabiam o nome.

Não importa quantos dias passaram até a noite em que os três artistas afastaram-se do repertório erudito. Como a música dançante deve ser dançada, meu pai ofereceu-se para dançar com a única mulher do bar, a garçonete. No dia seguinte a pobre moça havia sumido— e o fiscal do partido continuava atrás do balcão, triunfante. Os artistas, ao verem quem entrava no Bamboo Bar, calmamente executaram sua saudação.

Nunca mais voltara a Saigon, e levou alguns anos procurando pela pequena valsa. Até que ela chegou em casa, saudando a tarde de sábado como se conhecida fosse. Escorrendo no tempo-espaço, permaneceu entre nós por dez, vinte anos, talvez para sempre.

(Valsa Op. 39, No 15 em Lá bemol, de Johannes Brahms).

Sergio de Fiori

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