Comentário sobre as leituras da liturgia de 4.8.16

Duas barreiras separavam o homem de Deus — a da natureza e a do pecado. Nosso Senhor veio derrubá-las, para que o homem tivesse comunhão com Deus. A da natureza, com sua Encarnação e a do pecado com o derramamento de seu Preciosíssimo Sangue na Cruz e com sua Ressurreição.

Na primeira leitura (Jr 31,31–34), o profeta Jeremias fala de uma Nova Aliança que Deus iria fazer com seu povo. Não uma aliança como a antiga, que era a aliança da Lei, que vinha “de fora para dentro” e fazia com que o Senhor fizesse “valer a força” sobre seu povo:

“Eis que virão dias, diz o Senhor, em que concluirei com a casa de Israel e a casa de Judá uma nova aliança; não como a aliança que fiz com seus pais, quando os tomei pela mão para retirá-los da terra do Egito, e que eles violaram, mas eu fiz valer a força sobre eles, diz o Senhor.”

A Nova Aliança seria impressa nas entranhas dos homens e inscrita em seus corações, gerando comunhão, intimidade entre Deus e o homem:

“serei seu Deus e eles serão meu povo.”

Não mais um movimento que vem de fora para dentro, mas uma Lei, uma Aliança Nova, gravada no interior do coração:

“Não será mais necessário ensinar seu próximo ou seu irmão, dizendo: ‘Conhece o Senhor!’; todos me reconhecerão, do menor ao maior deles, diz o Senhor, pois perdoarei sua maldade, e não mais lembrarei o seu pecado”.

Essa Nova Aliança, como hoje sabemos, foi a Aliança cumprida por Cristo na Cruz do Calvário (“o Sangue da Nova e Eterna Aliança), quando as barreiras entre Deus e o homem foram derrubadas e estabeleceu-se um novo regime. Sem barreiras, o Espírito Santo foi derramado (“O amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” Rm, 5,5) e a Nova Lei, a Lei do Amor, gravada no coração dos homens e a força para cumprir os mandamentos da Lei de Deus agora vem de dentro e não mais “imposta” de fora para dentro. A Lei não faz mais que o homem seja inimigo de Deus, pois de dentro de si nasce uma fonte de água viva que jorra para a vida eterna.

***

No Antigo Testamento, Deus suscitou homens como o rei Davi, que tiveram “insights” poderosos como o Salmo 50, que antecipavam o espírito da Nova Aliança, que só seria pleno com a realização do Mistério da Redenção. Davi, movido pelo Espírito, teve uma profunda intuição que demonstra como o Antigo Testamento aponta para o Novo e como Deus já suscitava no coração dos homens um desejo de uma completa redenção:

“Criai em mim um coração que seja puro, dai-me de novo um espírito decidido. Ó Senhor, não me afasteis de vossa face, nem retireis de mim o vosso Santo Espírito!”

***

No Evangelho (Mt 16,13–23), nosso Senhor pergunta aos discípulos:

“Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”

Os discípulos responderam:

“Alguns dizem que é João Batista; outros que é Elias; Outros ainda, que é Jeremias ou algum dos profetas”.

As respostas apontavam para o passado, para a Antiga Aliança: João Batista, Elias, Jeremias e os profetas.

Mas Jesus “aprofunda” a questão:

“E vós, quem dizeis que eu sou?”

E Pedro, o chefe do grupo, que sempre falava em nome de todos, responde, prontamente:

“Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”

Jesus responde:

“Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai que está no céu. Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la. Eu te darei as chaves do Reino dos Céus: tudo o que tu ligares na terra será ligado nos céus; tudo o que tu desligares na terra será desligado nos céus”.

Os apóstolos tinham fé, passaram pela transformação portentosa que era estar face a face com o Filho de Deus; tinham visto seus sinais, seus milagres, curas, prodígios. É sobre esta a fé dos apóstolos Nosso Senhor promete fundar Sua Igreja.

Mas Jesus queria ir além. Fala de seu sofrimento, da cruz e da ressurreição. O Senhor estava ali para cumprir a Nova Aliança. Tem a plena consciência de sua missão sagrada.

E aí, Pedro reage. A carne fala:

Então Pedro tomou Jesus à parte e começou a repreendê-lo, dizendo: “Deus não permita tal coisa, Senhor! Que isto nunca te aconteça!”
Jesus, porém, voltou-se para Pedro, e disse: “Vai para longe, Satanás! Tu és para mim uma pedra de tropeço, porque não pensas as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens!”

Diante do mistério da cruz, o homem recua. A Nova Aliança ainda não havia se instalado. Mas ela não seria realizada senão na cruz. Jesus ainda caminhava para o Calvário. Pentecostes ainda não havia acontecido. A experiência da Paixão e da Cruz moldaria a personalidade de Pedro e dos Apóstolos.

Acompanhe Pedro durante o itinerário da Redenção: os ímpetos de coragem, o pavor, a negação, o arrependimento ao cruzar seu olhar com o Senhor, a espera do Espírito, a graça de Pentecostes, o discurso, as conversões, a formação da Igreja, a missão, a perseguição e, enfim, o martírio.

É uma conversão (uma “segunda conversão”, como diria o Padre Paulo Ricardo) que só é possível ao homem que passou pela experiência redentora da cruz e recebeu o Espírito Santo em seu coração: Eis a Nova Aliança predita por Jeremias, desejada por Davi.

***

Nós vivemos no tempo da Igreja. Temos à nossa disposição os sacramentos. Estamos no centro da Nova Aliança: temos a Eucaristia. Caminhamos no tempo que Nosso Senhor anunciou:

“Eu vos declaro, em verdade: muitos profetas e justos desejaram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não ouviram. (São Mateus 13, 17).”

Pense nisso.

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